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A faixa de Gaza
O último conflito entre israelenses e palestinos, que começou no final de 2008 e terminou no início de 2009, chamou mais uma vez a atenção da população mundial para esse pedaço de terra do oriente Médio. os debates sobre a ação do exército deIsrael e do hamas na região marcaram a nona edição do Fórum Social Mundial, realizado em Belém, no Pará

Por Sucena Shkrada Resk

SHUTTERSTOCK

Paz. Esse é o principal desejo de grande parte da população da Faixa de Gaza, no Oriente Médio. Localizada no sudeste do Mediterrâneo, entre Israel e a Península do Sinai, essa área predominantemente ári- da, de 360 km², é considerada uma das zo- nas mais instáveis militar e politicamente, devido ao conflito israelo-palestino. No território, onde vivem cerca de 1,5 milhão de palestinos, pelo menos 1,3 mil palestinos morreram duran- te os 22 dias de ataques entre militantes do Hamas (organização paramilitar e partido sunita palestino) e o exército de Israel. O confronto teve início em 27 de dezembro de 2008 e deixou mais de 100 mil pessoas desabrigadas. Do lado israelense, de acordo com fontes oficiais locais, foram 13 mortes no período. A guerra alertou o mundo sobre a grave crise humanitária que assola a região.

O novo primeiro-ministro de Israel, o político de centro-direita Benjamin Netanyahu, empos- sado no final de março de 2009, substituiu Ehud Olmert (centro- esquerda), e chegou a sinalizar ex- traoficialmente ao líder da autori- dade palestina, Mahmoud Abbas, a intenção de iniciar um acordo de paz, mas sem se posicionar ofi- cialmente quanto a ser a favor da criação de um Estado palestino. Esse é um ponto-chave nas diver- gências históricas, que seguem há décadas.

O conflito se torna ainda mais complexo, porque Abbas faz parte do partido Al-Fatah, que é contrário ao Hamas, o que mapeia divergências internas graves presentes no território autônomo palestino. Netanyahu, por sua vez, é líder do par- tido de centro-direita Likud, em Israel. O atual primeiro-ministro de Israel é definido por ana- listas como um político conservador e já chegou a declarar que defende o "endurecimento das re- lações" com os palestinos, o que infere um ponto de interrogação quanto ao confronto. Bibi, como é conhecido, já esteve na cadeira de primeiro- ministro israelense entre 1996 e 1999, mas desta vez tem um desafio maior de governabilidade, pois precisa tecer a coalizão com os principais partidos de Israel: Kadima, Partido Trabalhista, Yisrael Beytenu e Shas.

TENTATIVAS DE ACORDO

HUTTERSTOCK
A foto acima mostra as faíscas de mísseis no céu de Gaza. Na guerra, estima-se que 1,3 mil palestinos morreram. Abaixo, o primeiro- ministro de Israel, Benjamin Netanyahu, que expôs a intenção de um acordo de paz entre palestinos e israelenses

Nos últimos meses, o único avanço em rela- ção ao conflito decorreu da Conferência Interna- cional pelas negociações de paz, capitaneada pelo Egito, realizada no mês de março, que resultou no posicionamento para a liberação de recursos financeiros por parte de países desenvolvidos e em desenvolvimento, para a reconstrução de Gaza. De acordo com a Organização das Nações Unidas (ONU), os ataques israelenses foram res- ponsáveis pela destruição de aproximadamente 14 mil casas, 219 fábricas e 240 escolas palesti- nas. Os Estados Unidos e a Arábia Saudita já se prontificaram em destinar aproximada- mente US$ 2 bilhões. Pela primeira vez, o Brasil também se posicionou diplomati- camente neste sentido. O embaixador brasileiro em Israel, Pedro Motta, disse que o País planeja doar US$ 10 milhões.

Em 22 dias de conflito, pelo menos 13 israelenses e 1,3 mil palestinos morreram em Gaza

Durante os primeiros dias deste ano, nem com- boios com alimentos e medicamentos escaparam dos ataques, assim como escolas onde estavam abrigados refugiados. Com isso, a dificuldade de entregar gê- neros de primeira necessidade às vítimas dos bom- bardeios foi ampliada. O Conselho de Segurança da ONU aprovou a resolução nº 1.860, de 8 de janei- ro, que pediu o cessar-fogo imediato e permanente, o que ainda é uma incógnita. A Assembleia Geral da organização ratificou a determinação em 12 de janeiro, e Israel e o Hamas declararam a "trégua" em 18 de janeiro. Mas em fevereiro, novos ataques chegaram a ocorrer antes de um mês do cessar-fogo. Entre os argumentos para a continuidade da guerra, segundo Israel e o Hamas, estava a permanência de um soldado israelense e militantes do Hamas reféns. Israel exige a suspensão de tráfico de armas entre as fronteiras.

FOTO: GARY ACKERMAN

Analistas temem o ressurgimento do conflito, que já se tornou crônico. O governo egípcio está intermediando o acordo de paz de pelo menos 18 meses.

O contexto se torna mais grave já que a Faixa de Gaza é uma das áreas do pla- neta com maior taxa de crescimento demográfico mundial. Segundo rela- tório da ONU, mais de 50% dos lares no território têm renda menor do que US$ 2 por dia. Especialistas aguardam a postura a ser adotada pelo novo presidente dos EUA, Barack Obama.

Navi Pillay, alta comissária da ONU para Di- reitos Humanos, anunciou o pedido de uma inves- tigação independente quanto aos possíveis crimes de guerra cometidos tanto por Israel quanto pelo grupo islâmico Hamas, já que milhares de vítimas civis foram atingidas, principalmente em Gaza. O apelo é que as fronteiras com Gaza sejam liberadas total- mente por Israel para que possa entrar a ajuda hu- manitária, atendendo ao Acordo sobre a Circulação e Acesso, estabelecido desde novembro de 2005. Os israelenses alegam que o bloqueio é feito para evitar o tráfego de armamento ao Hamas, e, por esse motivo, a liberação das fronteiras não é total.

A União Europeia (UE) chegou a emitir uma resolução à Gaza, que reivindica às autoridades is- raelenses a autorização para a organização de um fluxo permanente e adequado de ajuda humanitária, que inclua todo o material necessário às agências da ONU. Javier Solana, chefe da diplomacia da União Europeia, chegou a declarar que essa é a única for- ma para haver a reconstrução da área atingida.

UM CONFLITO SECULAR
São mais de 3 mil anos de história que envol- vem esse trecho estratégico do Oriente Médio,de passagem ao Mediterrâneo. Até a Primeira Guerra Mundial (1914-1918), o Império Otoma- no dominou o território de Gaza. Um novo cená- rio geopolítico surgiu com a queda da liderança turca, substituída pelo mandato britânico pales- tino. Na sequência, o Egito assumiu o controle da região. Em 1948, foi deflagrada a guerra entre árabes e israelenses, que resultou no estabeleci- mento do Estado judaico de Israel e de um terri- tório autônomo palestino, que até hoje almeja a soberania e o status de Estado.

Para Bernardo Kucinsky, jornalista e profes- sor da Escola de Comunicação e Artes da Uni- versidade de São Paulo (ECA/USP), a guerra ficou no plano da denúncia e indignação com as mortes, principalmente de crianças, na cobertura realizada pela mídia. "Mas não houve um apro- fundamento sobre o porquê dos protagonistas agirem dessa forma", diz. Segundo ele, é preci- so observar que na história política palestina há mais atores. "Não existe só o Hamas, mas outros grupos [Al-Fatah e Organização da Libertação da Palestina - OLP]", afirma.

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