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História Antiga
A queda de Cartago
Destruída pelas Guerras Púnicas, a antiga potência marítima do Mediterrâneo foi o último obstáculo enfrentado por Roma antes de se tornar o império mais poderoso do mundo

Por Ivan Hegenberg

Os cartaginenses, montados em elefantes, enfrentam os romanos na batalha de Zama, durante a Segunda Guerra Púnica, que resultou na derrota para o povo de Cartago

Há quem considere o desfecho das Guerras Púnicas (264 a.C.-146 a.C.) o maior caso de genocídio da Antiguidade. Se, em outros momentos, os romanos procuraram combinar força militar e diplomacia, neste caso não tiveram qualquer clemência. A ordem na expressão latina "delenda est Carthago" ("Cartago deve ser destruída", em português) foi executada com tamanho rigor que as casas foram demolidas, grande parte da população foi morta, os sobreviventes transformados em escravos e, sobre o solo, foi depositado sal para que nada germinasse. Tamanho foi o estrago em Cartago que não sobraram muitos registros sobre sua civilização, tornando um grande desafio para os historiadores e arqueólogos desvendar um pouco que seja do modo de vida que havia ali.

As Guerras Púnicas são lembradas pelos desdobramentos na História de Roma, já que após a vitória, Roma pôde iniciar um período de grande expansão em que dominaria o Mediterrâneo e se tornaria a principal potência da Antiguidade. No entanto, há mais que se aprender sobre a civilização derrotada, que teve seus dias de glória e esteve perto de derrotar os romanos, o que alteraria completamente a História, tal como a conhecemos.

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Personagens da mitologia greco-romana, os amantes Dido e Eneias teriam fundado Cartago. O quadro de Claude Lorrain (1600-1682) mostra a vista da cidade

Uma nova capital

Cartago, ou em fenício Kart-Hadasht, (nova capital), foi uma cidade-estado fenícia, fundada em 814 a.C. pela rainha Dido, irmã do rei Pigmaleão. Nos versos do poeta Virgílio (70 a.C.-19 a.C.), ouvimos que os dois irmãos dividiam o reinado de Tiro, a mais importante cidade da Fenícia, até o momento em que o marido de Dido é traiçoeiramente assassinado. Inconformada, ela ludibria o irmão para reunir o máximo de navios e de escravos e segue para o ocidente. Falta-nos documentação mais precisa do que a lenda. No entanto, deve ser verdadeira ao menos a ocorrência de alguma dissidência, já que, desde o nome, a "nova capital" não aspirava ser apenas mais uma colônia. Em 332 a.C., Tiro é ocupada por Alexandre, o Grande (356 a.C.-323 a.C.), após sete meses de cerco. Nesse momento, no entanto, Cartago já concentrava riquezas invejadas por todo o mundo antigo, além de gozar de enorme influência sobre as demais cidades fenícias.

Os donos dos mares

A localização de Cartago, ao norte da África, parece ter sido cuidadosamente escolhida tanto pelas suas vantagens defensivas quanto pela rota comercial. Apesar de se situar em uma faixa de clima agradável, o deserto se interpunha a qualquer um que pretendesse atacá-la pelo continente, e quem ousasse vir pelo mar teria de se haver com o povo de maior reputação sobre as águas. Tal como Tiro, a cidade era envolta por uma muralha e possuía prédios de vários andares. As ruas eram retas, formando quarteirões regulares. Seu famoso porto, escavado artificialmente, se dividia em duas bacias: uma retangular, destinada às embarcações comerciais; a outra circular, abrigando mais de 200 embarcações militares. Cada um desses navios era impulsionado por cem remos ou mais, dispostos em três níveis - chamados trirremes. Algumas embarcações eram ainda maiores, os pentarremes.

Não eram habilidosos somente na navegação, mas também no comércio, de onde provinha a maior parte de sua riqueza. Seus sofisticados trirremes estabeleciam rotas comerciais do Oriente Médio à Espanha, percorrendo todo o Mediterrâneo, chegando também à Bretanha, ao Mar Báltico e às Ilhas Canárias, na face ocidental da África. Suas embarcações levavam prata e estanho da Espanha, perfumes e tecidos do oriente, ouro africano, cerâmica grega, louça do Egito, mármore do Egeu, peles de cervos, leões, leopardos, presas de elefantes, dentre outros produtos. Seus produtos locais também tinham mercado, como as frutas, a vinha e a oliveira, cultivadas por escravos no interior do continente.

As estruturas de Cartago

Por cerca de 300 anos, a Fenícia, menos um Estado organizado do que uma rede de cidades comerciantes, acumulou grande riqueza. Em especial os metais adquiridos na Espanha lhe garantiam lucros significativos. Ao longo do Mediterrâneo, fundavam diversas feitorias, utilizadas como paradas de pernoite e de abastecimento em suas rotas mar afora. Inicialmente, Cartago não era muito mais do que um desses pontos, assim como a Ilha de Malta ou as colônias na Sardenha e na Sicília. Contudo, a partir do século IX a.C., a Fenícia começa a entrar em decadência devido aos ataques estrangeiros. Após séculos de relações amistosas com os povos vizinhos, os fenícios orientais sucumbem diante do domínio assírio, ao qual se seguiriam o dos babilônios, o dos persas, e o dos macedônios. Ao norte da África, Cartago gozou de relativa tranquilidade por todo esse período e pôde prosperar. Cartago cresceu politicamente ao oferecer proteção às demais cidades fenícias do Mediterrâneo.

O chefe de Estado era um juiz, chamado de sufete, eleito a cada ano. Todavia, o sufete não podia dispor do tesouro ou declarar guerra, restando-lhe, provavelmente, as decisões relativas à moral e aos costumes. O senado, que era quem exercia a política de fato, era chamado de Conselho dos Cem, apesar de contar com 104 membros, oriundos da aristocracia. Havia, também, a Assembleia Popular, acionada nos casos em que o sufete e o Conselho dos Cem divergiam. O corpo político contava também com ministérios designados para atividades específicas.

A relação entre gregos e fenícios parecia combinar admiração e inveja, havendo troca de conhecimento antes de se desentenderem

Poucos povos antigos possuíam constituição escrita, e é possível que os cartagineses a tenham elaborado especialmente para manter seus chefes militares sob rédea curta. Não mostravam grande apreço pelos generais, por mais que lhes dessem autonomia nas frentes de batalha, inclusive para questões diplomáticas. Quando estes falhavam, eram crucificados; e quando vitoriosos, eram logo convidados para a reserva. Comerciantes e políticos concordavam em evitar qualquer estrutura militar consistente, por medo de que os generais impusessem seu poder. Além disso, sendo sua população pequena e dispersa, não lhes convinha a formação de exército próprio, mas a contratação de mercenários. Ainda que Cartago se diferenciasse da Fenícia por ter maiores ambições militares, as forças armadas ainda eram vistas com certo receio por seus cidadãos, que preferiam um exército que pudesse ser dissolvido após cumprir sua missão.

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