Guerra da Maria Antônia A rua do centro da cidade de São Paulo foi palco da famosa briga entre alunos da USP e do Mackenzie. Envolvidos pelo clima tenso da ditadura militar, os estudantes universitários pegaram em armas e o conflito resultou na morte de um jovem
Por Gilberto Amendola
COMANDO DE CAÇA AOS COMUNISTAS
Para ingressar no grupo formado por membros da classe média, o candidato tinha de responder a perguntas sobre sua opção sexual, religiosa, livros que já havia lido e até cantar o Hino Nacional inteiro
A estimativa é que só no Estado de São Paulo, o Comando de Caça aos Comunistas (CCC) contava com mais de 5 mil membros. No meio universitário, eles habitavam, principalmente, o Mackenzie, a Faculdade de Direito do Largo São Francisco e a Pontifícia Universidade Católica (PUC).
O grupo surgiu em 1963 como uma reação ao avanço da esquerda no Brasil - nesse período de Guerra Fria, muitos temiam a chamada ameaça vermelha. O CCC era formado basicamente por "capangas" da classe média e por gente disposta a subir na hierarquia policial ou militar. Alguns candidatos a delegados, integrantes do Dops (Departamento de Ordem Política e Social) e membros da direita religiosa, como Opus Dei e TFP (Tradição Família e Propriedade).
Para pertencer ao CCC, o interessado passava por uma série de testes. Sua vida era revirada do avesso. A cúpula do CCC queria saber de tudo: quais livros o interessado já tinha lido, sua opção sexual e religiosa, se sabia cantar o Hino Nacional inteiro e o quanto ele odiava os esquerdistas. Só depois de três meses, convencidos da identificação ideológica do candidato, é que ele recebia treinamento militar.
Com o golpe de 1964 e o endurecimento da ditadura, o CCC ficou responsável por parte do trabalho sujo do regime. O grupo agia de forma truculenta dentro das universidades. Seus membros andavam quase sempre armados pelos corredores do Mackenzie e de outras instituições de ensino. Sua intenção era mesmo a de intimidar. Outro importante papel dos homens do CCC era o de agir como delatores. A ação mais famosa do CCC (antes do conflito da Maria Antônia) foi a invasão do teatro Oficina durante a peça Roda Viva, de Chico Buarque, em 17 de junho de 1968. |
É claro que a rixa entre eles subiu de temperatura depois do Golpe de 1964. A esquerda morava na Filosofia e a direita residia na universidade presbiteriana, o Mackenzie. Mesmo na clandestinidade, as principais entidades estudantis (UNE e UEE) dominavam os centros acadêmicos da USP. Células da Ação Popular (AP), do Partido Comunista e de grupos armados também começavam a frequentar seus corredores. Já no Mackenzie, policiais civis e militares misturavam-se aos universitários. O curso de Direito era o mais procurado por aqueles que sonhavam, por exemplo, tornar-se delegados.
A esquerda enraizava-se na USP, grupos paramilitares de direita encontravam abrigo no Mackenzie
Da mesma forma que a esquerda enraizava-se na USP, grupos paramilitares de direita encontraram abrigo no Mackenzie. Nessa universidade, estudavam membros da Frente Anticomunista (FAC), do Movimento Anticomunista (MAC) e do mais famoso e estruturado grupo, o Comando de Caça aos Comunistas (CCC). A presença deste foi decisiva para o confronto que será narrado a seguir.
Dos dois lados da trincheira, grupos antagônicos. A turma da faculdade de Filosofia e os estudantes de esquerda eram comandados pela UNE (União Nacional dos Estudantes) e pela UEE (União Estadual dos Estudantes). O controle dessas entidades era da Dissidência, grupo formado por estudantes filiados ou simpáticos ao partido comunista. Na década de 1960, a UEE (mais atuante em São Paulo do que a própria UNE) era presidida por um jovem líder, bonito e carismático, vindo da Pontifícia Universidade Católica (PUC). Seu nome era José Dirceu.
Do lado do Mackenzie, o CCC também tinha seu homem-símbolo: Raul Nogueira de Lima, vulgo Raul Careca. Tratava-se do membro do CCC mais empenhado em delatar, prender e prejudicar os "terroristas" da Maria Antônia. Sua fixação pela esquerda estudantil beirava à psicopatia. Era uma perseguição quase religiosa. Raul Careca é descrito por muitos estudantes como um sujeito paranoico: "O Raul Careca era um homem com ar de quem nunca tomou sol. Carequinha, baixinho e de bigode, uma figura triste mesmo. Sempre de paletó e gravata. Ele era bem mais velho do que a média dos estudantes. Já devia ter uns trinta e tantos anos. O Raul também era policial e atuava no Dops [Departamento de Ordem Política e Social]. Resumindo, ele era um personagem trágico", lembrou Lauro Pacheco de Toledo Ferraz, ex-aluno do Mackenzie e presidente de esquerda do Centro Acadêmico da Universidade.
AS OCUPAÇÕES NAS UNIVERSIDADES
Em outubro de 1968, o clima entre os dois lados da rua era o pior possível. Meses antes, faculdades do País inteiro iam sendo tomadas pelos estudantes. Na pauta de reivindicações, temas como a autonomia universitária e o repúdio às tentativas de privatização. Agora, a ideia mais ousada era a da paridade. Segundo essa proposta, alunos, professores e direção teriam o mesmo peso no planejamento da reestruturação universitária - tanto das questões administrativas quanto naquelas que diziam respeito ao currículo de cada curso.
 |
Centro Universitário Maria Antônia e Instituto de Arte Contemporânea durante a reforma pósguerra. A Faculdade de Filosofia deixou o endereço depois do embate. O Mackenzie continua no mesmo local |
A primeira faculdade a ser ocupada foi a de Filosofia, na Maria Antônia. Os estudantes não tiveram dificuldades para tomar o prédio inteiro (andar por andar). Até porque os professores demonstraram simpatia pela pauta de reivindicações. No prédio da Maria Antônia, os alunos pichavam as instalações, fechavam entradas com tijolos e espalhavam óleo pelos corredores, escadarias e salas de aula. O derramamento de óleo tinha uma função tática importante: caso a polícia decidisse atirar bombas contra os prédios invadidos, um incêndio de grandes proporções poderia destruir tudo.
Como parte dos professores estava do lado dos estudantes, aulas livres eram ministradas durante a ocupação. Cursos sobre marxismo, revolução, Filosofia, estética e História da Arte fizeram parte do cotidiano das ocupações. Os próprios alunos eram responsáveis por algumas das disciplinas - sobretudo aquelas que ensinavam a fazer coquetéis Molotov.
Não era raro algum artista também ser convidado para dar o ar da graça lá no prédio da Filosofia. O cantor Sérgio Ricardo aparecia sempre com seu violão. Atores do Oficina e do teatro de Arena também eram bem-vindos. Caetano Veloso e Gilberto Gil não tinham a mesma sorte. Parte do movimento estudantil ainda torcia o nariz para as inovações tropicalistas. Alunos do País inteiro vinham para São Paulo vivenciar a experiência da Maria Antônia.
"Acredito que a ocupação do prédio da Filosofia foi o embrião do movimento hippie no Brasil", comentou Percival Maricato, que na época era estudante de Direito no Largo São Francisco, mas frequentava, diariamente, a ocupação da Maria Antônia.
A vítima da Maria Antônia
José Guimarães, que morreu no meio da briga entre os estudantes, ainda era tão jovem que nem tinha uma ideologia política formada
O garoto José Guimarães tinha 20 anos e cursava o terceiro colegial na escola Professora Marina Cintra, localizada perto da Rua da Consolação, próxima à Maria Antônia. Ele morava na Rua Loefgreen, esquina com a Coronel Lisboa, na Vila Mariana. Desde o final de setembro de 1968, Madalena Topolovsk e seus filhos, José Guimarães e Maria Eugênia, haviam se mudado da Rua Pedro Taques para lá. Nesses dias, Guimarães dedicava-se com prazer à pintura da casa nova.
No dia 2 de outubro de 1968, o estudante ficou com a família, entretido na mudança e planejando a pintura da casa. Além disso, tinha programado com uns colegas de escola uma festa de despedida da casa velha. No sábado próximo, ele receberia os amigos para um bailinho na casa, já vazia, da Rua Pedro Taques.
Mas é claro que, apesar da pintura e dos planos para o fim de semana, o garoto se arrependeu de não ter visto a tal briga entre os universitários de perto. Guimarães queria estar lá também. Embora já tivesse participado de duas ou três reuniões do movimento estudantil no prédio da Filosofia, ele não se interessava muito por marxismo, revolução, Che Guevara. Era exclusivamente um ouvinte. Mas, se perguntado, responderia com certeza que estava do lado dos estudantes da Filosofia. Bem mais por simpatia pessoal do que por qualquer ideologia.
José Guimarães gostava mesmo de dançar (dizem que não sabia, mas gostava mesmo assim) e de pintar. Não paredes - como estava fazendo na manhã do dia em que morreu, em 3 de outubro de 1968. Seu negócio era a pintura de quadros abstratos.
É certo que sua mãe, dona Madalena, não deixaria que ele fosse até a Maria Antônia para dar uma "espiadinha" no que estava acontecendo. Guimarães inventou uma desculpa para assistir a briga, disse que ia comprar cartolina em uma papelaria. Ele estava no meio da Rua Maria Antônia, assistindo à briga dos universitários, quando foi atingido por um tiro, grosso calibre. A bala entrou pela orelha direita e saiu pelo lado esquerdo. O rapaz caiu na rua, entre o prédio do Mackenzie e o da USP. Ele chegou a ser levado para o Hospital das Clínicas, mas não resistiu. Hoje, sua família vive em Poços de Caldas, Minas Gerais, e não fala sobre o assunto. |
Dentro das ocupações e, principalmente, no interior do prédio da Filosofia da USP, discutia-se o futuro do movimento estudantil. Os agentes da ditadura tinham especial interesse em saber onde seria o 30º Congresso da UNE. Muitos apostavam que os estudantes aproveitariam as ocupações para a realização desse congresso no próprio prédio da Maria Antônia (hipótese que não foi confirmada. O desastrado congresso da UNE só aconteceria em novembro, em Ibiúna - e terminaria com a prisão dos principais líderes estudantis da época).
"Acredito que a ocupação do prédio da Filosofia foi o embrião do movimento hippie no Brasil"
Além disso, a turma do CCC não suportava o liberalismo comportamental que vinha do outro lado da rua, as meninas de minissaia, os cabeludos, a música e as drogas. Para o CCC, aquilo já tinha ido longe demais. Acabar com o prédio da Filosofia era desarticular a esquerda estudantil. Como isso seria feito?
PÁGINAS :: << Anterior | 1 | 2 | 3 | 4 | Próxima >> |