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Fórum social mundial: como tudo começou
"Como alternativa ao Fórum Econômico Mundial, resolvi propor um evento, no mesmo período, que propiciasse ideias e iniciativas de mudança de um modelo econômico que despreza as questões sociais e ambientais..."

Por Oded Grajew

FABIO RODRIGUES POZZEBOM/ABR
Lula cumprimenta a governadora do Pará, Ana Júlia Carepa, durante debates no painel América Latina e o Desafio da Crise Internacional, no Fórum Social Mundial de 2009

"Era janeiro de 2000. Eu estava com minha esposa Mara, em Paris, na França, onde a pauta principal da mídia se concentrava no Fórum Econômico Mundial (FEM), em Davos, na Suíça. Nessa época eu já trabalhava com a questão da responsabilidade social empresarial, tentando traduzir a agenda econômica. Na imprensa, só se falava sobre 'o fim da história' e se reacendiam as críticas ocorridas em Seattle, nos EUA, em novembro de 1999, quando aproximadamente 100 mil manifestantes foram às ruas contra os efeitos da globalização. A mobilização ocorreu à época da reunião ministerial da Organização Mundial do Comércio (OMC).

A situação era de insustentabilidade. Como alternativa ao FEM, resolvi propor um evento que pudesse ocorrer no mesmo período e propiciasse ideias e iniciativas de mudança de um modelo econômico que despreza as questões sociais e ambientais. Só 'jogavam pedras', mas não havia respostas ou sugestões para novos cenários. Foi nesse contexto que surgiu o Fórum Social Mundial (FSM).

A minha primeira ouvinte foi Mara, depois o arquiteto Francisco Whitaker e Bernard Cassen, diretor-geral do Le Monde Diplomatique. A ideia foi bem aceita por eles. Aí surgiu a questão: onde poderia ser a sede para a primeira edição? A cidade de Porto Alegre, no Rio Grande do Sul, foi considerada uma boa opção, já que registrava experiências diferentes bem-sucedidas, como o orçamento participativo.

Voltamos ao Brasil e liguei para o então prefeito Raul Ponte e para o governador Olívio Dutra para expor o projeto. A contrapartida do poder público seria a retaguarda logística e segurança ao evento. Para dar pluralidade à composição do FSM, ainda contatei Sérgio Haddad, da Associação Brasileira de Organizações Não Governamentais (Abong); José Correa Leite, da Associação pela Tributação das Transações Financeiras em Apoio aos Cidadãos (ATTAC), e Cândido Grzybowski, diretor do Instituto Brasileiro de Análises Sociais e Econômicas (Ibase).

BRASIL A VELA DEVERÁ VOLTAR À ATIVA

Em contraponto ao Fórum Econômico Mundial, que reúne os principais líderes políticos e empresariais, o FSM concentra membros de movimentos sociais para discutir os impactos causados pelo capitalismo

FABIO RODRIGUES POZZEBOM/ABR
Participantes do Fórum Social Mundial 2009, realizado na capital do Pará

FSM estabeleceu, por meio de seu comitê internacional, uma carta de princípios na qual se propõe ser um espaço democrático aberto a entidades e movimentos da sociedade civil que se oponham às políticas neoliberais e à globalização centralizada em grandes corporações multinacionais. Temas como direitos humanos, exclusão, educação, justiça social, meio ambiente, políticas de geração de renda e saúde são pautas consolidadas desde a primeira edição do encontro, em 2001. Com pautas como essas, o slogan do evento foi escolhido: "Um outro mundo é possível".

Apesar de não ser uma instância deliberativa, propõe metas que são difundidas pelas organizações participantes. Discute os impactos provocados pelo capitalismo, em contraponto às pautas do Fórum Econômico Mundial, realizado desde 1971 por representantes de grandes corporações e políticos dos países mais ricos do mundo.

As primeiras três edições do FSM (2001, 2002 e 2003) ocorreram em Porto Alegre. Em 2004 foi em Mumbai, na Índia, voltando para a capital do Rio Grande do Sul no ano seguinte. Em 2006, o FSM ocorreu em três lugares: Bamako/Mali, na África; em Caracas, na Venezuela; e Karachi, no Paquistão.  Em 2007 foi em Nairóbi, no Quênia. No ano seguinte, o evento não foi centralizado - houve uma "Semana de Mobilização Global" que resultou no Dia de Ação Global, em 26 de janeiro de 2008. Já em 2009, o FSM foi realizado em Belém, no Pará. Os registros de todas as edições do evento podem ser encontrados no site oficial do FSM: http://www.forumsocialmundial.org.br.

Ao grupo que formaria o comitê brasileiro, no final de fevereiro de 2000, também se somou a ativista social Maria Luiza Mendonça. Ainda foram ouvidos João Pedro Stédile, do Movimento Sem-Terra (MST), e representantes da Central Única dos Trabalhadores (CUT), entre outros.

Para colocar o projeto em prática, recorremos à estrutura de hotéis da cidade, à Pontifícia Universidade Católica (PUC) de Porto Alegre, e contamos primeiramente com o apoio financeiro da Fundação Ford, totalizando US$ 200 mil, do Brasil e dos EUA.

O próximo passo foi o estabelecimento da secretaria executiva do FSM, que ficou responsável pela instauração do evento. Dessa forma, começamos a fazer a articulação global, criando um comitê internacional. Em junho de 2000, levamos a proposta a uma reunião na Organização das Nações Unidas (ONU), o que resultou na amplitude de alcance do fórum.

De 25 a 30 de janeiro de 2001 foi realizada a primeira edição até chegar à nona, realizada em Belém, Pará, em 2009. A análise que faço dessa trajetória é que o desafio até hoje é fazer que organizações com posições diferentes se sentem à mesma mesa para discutir objetivos em comum, além de arregimentar fontes de financiamentos para a realização do encontro.

A edição deste ano teve um destaque importante, porque apresentou a oportunidade de mostrar que a crise financeira é 'fichinha' relacionada à socioambiental. Caso em 15 anos não haja ações concretas, os cenários pessimistas serão irreversíveis.

 

ODED GRAJEW, 65 anos, é israelense e migrou para o Brasil com a sua família aos 12 anos. É formado em Engenharia Elétrica pela Escola Politécnica da Universidade de São Paulo (USP) e pós-graduado em Administração de Empresas pela Fundação Getúlio Vargas (FGV). Criou a Fundação Abrinq pelos Direitos da Criança, fundou o Instituto Ethos de Responsabilidade Social e idealizou o Fórum Social Mundial. É conselheiro do Ethos e do Instituto Akatu pelo Consumo Consciente e coordenador da secretaria-executiva do Movimento Nossa São Paulo. 

Depoimento coletado e editado pela jornalista Sucena Shkrada Resk

O FSM conseguiu assumir o papel de indutor de mudanças de políticas públicas, com a representação de cerca de 150 países. Desde o início, com o auge do neoliberalismo, muito se avançou nesse aspecto de articulação. As discussões no fórum simbolizam o fracasso do modelo de desenvolvimento vigente. O paradigma mudou ao se propor o fim das discussões baseadas somente sobre os tamanhos dos recursos, para que se estabeleça a justiça ambiental.

Nesse contexto, até mesmo a sociedade civil americana hoje já reivindica mudanças na condução dos rumos do país, que é de hegemonia no mundo. Com a eleição do presidente Barack Obama, esperam-se mudanças. É preciso acompanhar como seu discurso se aplicará na prática. Um dos problemas dos fóruns sociais nos EUA, por exemplo, é a criminalização dos ativistas sociais. Um desafio é conseguir realizar uma edição lá, como também no Oriente Médio. O objetivo é promover a universalidade contra o destaque dos Estados nacionais."

 

 

 

 

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