Luiz Antonio Aguiar o guardião da tradição machadiana de histórias Especialista em um dos escritores mais importantes da história nacional, Luiz Antonio Aguiar, um velho conhecido das crianças por seus livros infantis, consagra-se como um nome de destaque com a nova adaptação para as histórias em quadrinhos de O alienista. e avisa: não descansará enquanto não mostrar o valor de seu autor preferido para a nova geração
Por Sérgio Pereira Couto
Absolutamente ninguém fala com mais entusiasmo sobre Machado de Assis do que Luiz Antonio Aguiar. Desde que lançou um álbum em quadrinhos que adapta a obra O alienista para um público infantojuvenil numa edição especial que nada deve aos álbuns importados, tem colecionado admiração de adolescentes que passaram a se interessar pela obra machadiana.
O lançamento do álbum aconteceu exatamente quando se comemoraram 100 anos do nascimento do autor. Porém, a repercussão continua até hoje e promete fazer que o roteirista, fã confesso de Machado, consiga exatamente seu intento: fazer crianças e adolescentes lerem mais a obra de seu autor predileto.
Essa luta é apenas parte de um trabalho mais amplo. Aguiar é presidente da Associação de Escritores e Ilustradores de Literatura Infantil e Juvenil, na qual batalha para divulgar a literatura juvenil brasileira. Mesmo assim, reserva tempo para apreciar os trabalhos de outros leitores nacionais como Milton Hatoum e Chico Buarque, que recentemente o cativaram com suas narrativas.
"Gosto dos epitáfios; eles são, entre a gente civilizada, uma expressão daquele pio e secreto egoísmo que induz o homem a arrancar à morte um farrapo ao menos da sombra que passou."
Machado de Assis em Memórias Póstumas de Brás Cubas |
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Foto do sobrado em Cosme Velho, Rio de Janeiro, onde o escritor Machado de Assis morreu doente, solitário e triste
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Mas é mesmo Machado de Assis quem o cativa por completo. Na entrevista a seguir ele analisa mais seu ídolo, fala sobre seus livros, a adaptação em quadrinhos e ainda conta algumas curiosidades dos tempos de O alienista.
Leituras da História - Você é um autor com vários prêmios recebidos como roteirista de histórias em quadrinhos. Com tantos livros publicados, por que este é diferente?
Luiz Antonio Aguiar - É uma questão de se adequar a uma celebridade histórica. Todo mundo conhece Machado de Assis, ou pelo menos já foi obrigado a ter um contato com ele em algum momento de sua vida acadêmica. Porém, essa obrigatoriedade impede-nos de apreciá-lo como deveria. Machado é um dos melhores cronistas de nosso país e suas observações dos modos da sociedade de seu tempo são completamente atemporais. A prova é que sempre há alguém disposto a recontar suas histórias com ligeiras adaptações temporais. Ninguém conhece a alma humana nacional melhor do que ele.
LH - Pelo jeito você é mais do que um simples admirador de Machado de Assis...
Aguiar - (Risos) Bem mais do que isso, de fato. Para mim é quase um estilo filosófico. Escolhi estudar sua obra justamente por esse aspecto. É algo que você tem em outros autores, porém com alguns detalhes que o tempo acaba por corroer de alguma forma. Isso não acontece com Machado. Quando paramos para apreciar uma história dele, passado o impacto da obrigatoriedade da leitura, começamos a descobrir um universo tão peculiar que se torna algo totalmente sui generis, algo com uma identidade própria e completamente atemporal. É como um vinho, que é necessário deixar maturar por algum tempo antes de ser apreciado com toda a atenção que merece. No final, a recompensa que nos espera é muito gratificante.
LH - Vamos nos concentrar um pouco em você. Acredito que deva ter alguns pontos em comum entre o seu trabalho e o de seu ídolo, não é?
Aguiar - (Risos). Falando assim parece que vou sair por aí fundando o fã-clube Machado de Assis (mais risos). Mas admito que sou mais do que um simples admirador. E depois, meu trabalho é mais voltado para crianças e adolescentes. Quando fui convidado para fazer o roteiro de uma nova adaptação de O alienista como história em quadrinhos, vi uma excelente oportunidade de levar para esse público jovem a obra de Machado de Assis. Mas também leio outros autores, pelos quais sou grato pelos excelentes momentos que me proporcionaram com suas histórias, como Mark Twain, Charles Dickens, a Condessa de Ségur e, claro, Monteiro Lobato. Historicamente todos são importantes como retratistas dos costumes de suas épocas.
LH - Essa é sua primeira experiência como roteirista de quadrinhos?
Aguiar - Não, já tive outras. Desde 1977 passei muito tempo roteirizando não apenas Sítio do Picapau Amarelo, mas também Disney, além de produzir livros de bolso com histórias de faroeste (na época assinava como Buck Gordon). A diferença é que como sou pesquisador de Machado, esta nova adaptação sai com algumas nuances que outros roteiristas deixaram de lado. E com uma vantagem: como escritor de histórias para crianças, ofereço uma abordagem que fala a língua delas. No próprio lançamento de O alienista, durante a última edição da Bienal Internacional do Livro em São Paulo, muitas me pararam para dizer que gostaram do que viram. Claro que muito disso se deve também à arte de Cesar Lobo, um excelente ilustrador e desenhista que já fez também roteiros para histórias em quadrinhos e publicou sua própria cota de livros. Ele é um profissional muito competente que faz sucesso tanto aqui quanto no exterior.
LH - Sua profissão envolve que outras atividades?
Aguiar - Dou oficinas de leitura de Machado de Assis no Casarão do Cosme Velho, Rio de Janeiro, e em vários Estados para plateias de professores e público em geral. Também sou um dos fundadores e membro da atual diretoria da Associação dos Escritores e Ilustradores de Literatura Infantil e Juvenil (AEILIJ).
LH - Este não é seu primeiro trabalho como autor, não é?
Aguiar - Não. Pouco antes de aceitar o convite para fazer a adaptação de O alienista, lancei o Almanaque Machado de de pesquisa intensa sobre sua obra. Tudo com um mesmo propósito: mostrar que a leitura desse extraordinário autor pode ser muito divertida, prazerosa e que suas histórias refletem ideias universais sobre a vida, nosso país e sobre nós mesmos. O livro possui fotos, muitas das quais inéditas, além de frases, cronologia, mapa completo de sua obra, uma extensa explicação de quem é quem em suas principais obras e outros recursos que ajudam o novato, ou mesmo aquele que já tem algum conhecimento sobre Machado, a se embrenhar cada vez mais nesse universo.
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