Guerra da Maria Antônia A rua do centro da cidade de São Paulo foi palco da famosa briga entre alunos da USP e do Mackenzie. Envolvidos pelo clima tenso da ditadura militar, os estudantes universitários pegaram em armas e o conflito resultou na morte de um jovem
Por Gilberto Amendola
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Briga entre estudantes na rua Maria Antônia, no centro da cidade de São Paulo
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A vida transbordava em 1968. Foi como se alguém esquecesse o leite da história fervendo sobre o fogão do mundo. Na França, em maio de 1968, a Universidade Sorbonne foi ocupada; nas ruas, passeatas, greves e barricadas estudantis. Milhares protestavam contra o governo de Charles de Gaulle (1890-1970). No Japão, protestos contra a chegada do submarino atômico USS Enterprise. Clímax no Vietnã. O movimento Panteras Negras. A Apollo 8. Tanques soviéticos invadiram a Tchecoslováquia. Acabou a primavera de Praga. Martin Luther King (1929-1968) e o senador Robert F. Kennedy (1925-1968) foram assassinados.
No Brasil, naquele ano, a situação também era tensa. O presidente era Costa e Silva (1899-1969) e a ditadura militar apertava o cerco contra os movimentos sociais. Tudo indicava que as coisas ainda poderiam piorar. Por influência dos irmãos, o então operário Luís Inácio Lula da Silva entrou para o Sindicato dos Metalúrgicos de São Bernardo do Campo.
Na cidade de São Paulo, todos esses conflitos que ganhavam as atenções do mundo inteiro podiam ser vistos na Rua Maria Antônia, localizada no bairro da Vila Buarque. Foi nesse pequeno espaço, com menos de 500 metros de extensão, que o País se reconheceu em 1968. A rua resumia a alma daquele ano tão intenso. As revoluções políticas e culturais e a Guerra Fria eram vizinhas naquele microcosmo.
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Fotos dos momentos de ataque e violência na rua Maria Antonia, com a Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras da Universidade de São Paulo ao fundo |
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Prédio da Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras da USP, na rua Maria Antônia, antes da reforma. A faculdade iniciou suas atividades nesse endereço em 1949 |
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Em meio à ditadura militar e ao golpe de 1964 (foto), pessoas do CCC (Comando de Caça aos Comunistas) se infiltravam em universidades, como o Mackenzie |
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DOIS MUNDOS, UMA SÓ RUA
Quis o destino que a Rua Maria Antônia abrigasse duas importantes instituições de ensino. De um lado, ficava o prédio da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas (FFLCH); do outro, o Mackenzie. Os dois gigantes da educação estavam tão próximos fisicamente, mas absolutamente distantes do ponto de vista ideológico. A definição mais instigante (e provocadora) da localização das duas faculdades é do professor de Filosofia Política, João Quartim de Moraes: "vindo da [rua] Consolação, o prédio da Faculdade de Filosofia ficava do lado direito. Do lado esquerdo, estava uma das alas da Universidade Mackenzie. Situação topográfica oposta, nessa perspectiva, à posição político-cultural das duas instituições. Mas tudo é questão de ponto de vista: vindo da [avenida] Higienópolis, restabelecia-se a correspondência entre a orientação espacial e ideológica".
A Faculdade de Filosofia foi criada em 1934, mas começou a funcionar na Maria Antônia em 1949. Na época, não havia, no Brasil, recursos humanos suficientes para exercer a docência em uma faculdade com disciplinas tão específicas e diversas. A solução foi buscar esses professores na Europa. Os europeus que vieram lecionar na USP eram já renomados ou se transformaram, depois, em referência mundial nas suas áreas de conhecimento. Um bom exemplo disso é o antropólogo francês Claude Lévi-Strauss.
Já o Mackenzie é uma instituição presbiteriana, regida pela fé cristã evangélica reformada, que começou suas atividades com um casal de missionários, George e Mary Chamberlain, em 1870. Em 1952, por meio de um decreto assinado pelo então presidente Getúlio Vargas, o Mackenzie foi reconhecido como uma universidade. Mais tarde, em 1965, a instituição teve a primeira mulher reitora em uma universidade brasileira, Esther de Figueiredo Ferraz (1915-2008).
Mas não era só a Filosofia e o Mackenzie que faziam da Maria Antônia uma espécie de Cidade Universitária espontânea daquela época. Outras faculdades se espalhavam pelo quarteirão e por outras ruas da região. Tinha a faculdade de Economia e Administração lá na Rua Dr. Vila Nova (um pátio ligava a faculdade de Economia à Filosofia); a Faculdade de Arquitetura e Urbanismo (FAU), na Rua Maranhão; a Fundação Escola de Sociologia e Política de São Paulo (FESPSP) e a Santa Casa, na Cesário Mota Júnior; e a Faculdade de Medicina, na Dr. Arnaldo.
Nos momentos mais amenos, alunos da USP não podiam estacionar seus automóveis do lado do Mackenzie. Assim como os do Mackenzie não deveriam parar no lado oposto da rua. Quem atravessasse a fronteira imaginária costumava ter seu carrinho riscado.
"Não podia mesmo. Nem frequentar os mesmos lugares a gente frequentava. Não assistíamos aos mesmos shows, não sentávamos nas mesmas mesas. Éramos adversários nos esportes e tudo mais. Aquilo tinha tudo para terminar do jeito que terminou", disse o escritor Mário Prata, ex-aluno da faculdade de Economia.
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