Os Homens Sábios da Sociedade Celta Caracterizados por filmes e histórias em quadrinhos como antigos, eram muito mais do que um simples grupo de sacerdotes. A chegada dos conquistadores estrangeiros, principalmente dos romanos, causou grave perda de informações sobre suas verdadeiras atribuições
Por Sérgio Pereira Couto
Uma das figuras mais misteriosas da história da magia continua sendo a dos druidas. Isso porque o que chegou até nós são relatos de conquistadores (principalmente de Júlio César, que deixa a entender que possui certo receio do que eles podem fazer) e milhares de representantes de movimentos esotéricos modernos que insistem em ir até o Círculo de Pedras de Stonehenge durante os equinócios de primavera e solstícios de inverno para venerar a cultura perdida desses líderes religiosos.
Muitos historiadores tentaram, com o passar dos séculos, explicar de maneira convincente quem eram e quais os poderes desses representantes. Hoje em dia o assunto é muito estudado por aqueles que pesquisam as sociedades secretas, já que eram poucos os que ganhavam o privilégio de se tornarem membros dessa classe social. Anda há muita informação errônea que circula sobre os druidas e seu papel principal na sociedade antiga. Afinal, eram sábios com conhecimentos ocultos ou selvagens que influenciavam as demais classes sociais com requintes de selvageria?
César, que se tornou a principal fonte sobre o assunto, afirma que eles se ocupavam dos assuntos da religião, presidem os sacrifícios públicos e privados, além de regulamentarem as práticas religiosas. Acrescenta ainda:
"Entregam-se a numerosas especulações sobre os astros e seus movimentos, sobre as dimensões do mundo e da terra, sobre a natureza das coisas, sobre o poder dos deuses e suas atribuições".
Também é César quem fala sobre o hábito que eles tinham de, a cada ano, se reunirem em assembléias num lugar consagrado localizado no "país dos Carnutos", que foi identificado como sendo na região de Orleans, no centro-norte da França, cerca de cento e vinte quilômetros ao sul de Paris. O local é muito citado nas histórias em quadrinhos de Asterix, o Gaulês, onde o druida Panoramix freqüenta as assembléias que apenas druidas podem freqüentar.
César continua a desfiar seus conhecimentos sobre essa casta sacerdotal e não esconde na narrativa certa admiração. Ele diz que os dignitários pensam que a religião "não permite confiar à escrita a matéria de seus ensinamentos", porque não querem que sua doutrina seja divulgada. Nas já citadas histórias de Asterix, por exemplo, é deixado claro o tempo todo que os segredos aos druidas só eram passados via oral, "da boca de druida ao ouvido de outro druida". Justamente por praticarem esse hábito, não sabemos muitos sobre eles, já que os registros orais pouco ou nada eram postos em forma escrita.
Há, claro, outras fontes além de César, que podem jogar certa luz ao assunto. O geógrafo romano Pompônio Mela, por exemplo, fala sobre os druidas em escritos que datam dos primeiros séculos da era cristã. Diz ele:
"(...) os druidas ensinam muitas coisas aos mais nobres da nação, em segredo, durante vinte anos, seja em cavernas, seja em florestas retiradas".
Desses textos podemos concluir que o caráter útil desses sacerdotes ia muito além de assuntos religiosos. Os druidas (e também as druidesas, já que as mulheres conseguiam participar da casta) eram responsáveis pelo ensino e aconselhamento de práticas filosóficas e até mesmo jurídicas dentro da sociedade celta.
Pelo mistério que envolve suas práticas e demais atribuições, é difícil apontar com certa precisão de onde teria vindo o termo "druida". Historiadores do mundo todo ainda pesquisam essa questão e, pelo menos até a época em que este artigo foi escrito, havia uma espécie de consenso de a palavra teria vindo das junções de oak (carvalho) e wid (raiz indo-européia que significa saber). Assim, o título significaria algo como "aquele que tem o conhecimento do carvalho". Pela simbologia druídica tal árvore, por ser uma das mais antigas de uma floresta, assume o significado de representante das demais que estão compartilhando o mesmo espaço. Ou seja, aquele que possui esse conhecimento compartilha também do saber das demais árvores.

Ilustração que representa uma invocação druídica perante a rainha ou soberana para ver o futuro |
Imagens e Mitos
A imagem que a maioria possui dos druidas é a de que eles são os homens e mulheres que passam o tempo todo ao lado de seu caldeirão cozinhando poções, como foi popularmente retratado nas aventuras de Asterix. Essa imagem, para muitos historiadores, pode estar equivocada, já que o papel deles na sociedade celta eram bem mais amplo. Os textos clássicos, por exemplo, insistem que eles era filósofos que presidiam cerimônias religiosas, o que pode parecer até certo ponto conflitante na definição. O druidismo em si era uma religião considerada natural e que não era revelada, como o cristianismo ou o islamismo. Os druidas eram como diretores espirituais que conduziam a realização dos ritos. Assumiam, assim, um papel diferente do tradicional intermediário entre Deus e os homens, visto nas religiões maiores dominantes.
Alguns dos conceitos druídicos chegaram até nós por diversas fontes. Algumas ainda possuem sua autenticidade colocada em dúvida, mas para a maioria dos estudiosos, podem ser consideradas como verdades herdadas dos druidas antigos. Por exemplo, ao contrário da linearidade imposta pelas religiões modernas (o ciclo de nascimento, envelhecimento e morte), o druidismo acredita que vivemos nossas vidas em espirais ou círculos de repetidas vidas. Nessa filosofia (que muitos a consideram como tal e não como religião) há a eterna necessidade de busca pelo equilíbrio, que liga nossa vida pessoal a elementos de fonte espiritual presenpresentes na natureza. Para eles havia, por exemplo, oito períodos ao longo do ano, com quatro solares (ou masculinos) e quatro lunares (ou femininos), cuja passagem era comemorada por certos ritos especiais.
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