Hieróglifos Modernos O fascínio que o homem moderno sente pelo Antigo Egito pode ser constatado no número de utilizações no dia-a-dia de seus principais símbolos, entre eles a pirâmide, a esfinge e o obeslisco, este último presente até em cidades brasileiras
Por Margaret Bakos

Esfinge da cidade de San Ildefonso, Sergovia, Espanha |
A escrita que os egípcios antigos chamavam de divina e que os gregos apelidaram de hieróglifos (que significa escrita sagrada) é usada para fins profanos, na atualidade! Há um motel em São Paulo, chamado O Faraó, que é decorado com hieróglifos egípcios. E, em um bairro boêmio parisiense, há um muro monumental, em local público, que exibe a expressão “nós nos amamos” em hieróglifos, ao lado de dezenas de declarações de amor em línguas modernas.
Como entender ambas as situações? Elas evidenciam a rendição da modernidade ao charme da escrita antiga, considerada a mais bela do mundo. Ainda mais, os usos atuais dos hieróglifos, resultam da força mágica deles que, por sua vez, se perpetua a cada repetição, em um processo de circularidade de uma cultural milenar: a egiptomania.
Há graus de erudição diversos nos usos dos hieróglifos. No motel, as imagens são parte da decoração. No contexto parisiense, o escriba sabe o que está escrevendo. Ele traz à baila uma polissemia divertida, pois os hieróglifos escrevem de igual maneira os verbos comer, beber e amar, usando dois hieróglifos fonéticos e a figura de um homem sentado, com a mãozinha na boca, que dita o sentido dos sinais anteriores e se desconhece como são lidos. E, ali, pretende-se que o leitor declare amor em várias línguas universais.
A língua egípcia, que foi criada há mais de três mil anos antes de Cristo, morreu depois de proibida pelos romanos que dominaram o Egito, a partir da vitória das forças de Augusto sobre Cleópatra e Marco Antonio, na batalha de Actium, em 31 a.C. Restou-nos apenas a grafia, cujos significados, por sua vez, também foram sabidos dez séculos após a proibição. A decifração se deve ao sábio francês François Champollion, a partir do achado da Pedra de Roseta, escrita em duas línguas, a egípcia e a grega e em três escritas: a hieroglífica, a demótica e a grega. Encontrada, em 1799, pela expedição cultural levada por Napoleão Bonaparte ao Egito (conforme pode ser conferido em matéria própria nesta edição), esta lousa levou à decifração dos hieróglifos e à criação da Egiptologia.
Apesar de silenciados, os hieróglifos jamais deixaram de serem admirados e usados, desde a antiguidade pelos povos vizinhos. Eles foram trazidos, ao longo da modernidade, pelos europeus para o seu continente e, de lá, levados às respectivas colônias, passando a ser conhecidos em todas as terras do planeta a partir de então.
Existem centenas de hieróglifos que determinam os sentidos de vocábulos das coisas cósmicas: céu, terra, estrelas, animais, pássaros, peixes, edificações, barcos, plantas, incluindo todos os pequenos objetos da vida diária dos antigos egípcios.
Há hieróglifos que indicam atitudes, ofícios, sexo e idades dos seres humanos. Entre eles (os chamados sinais determinativos) três hieróglifos se destacam de modo espantoso. A tal ponto que suas imagens se tornaram ícones da própria capacidade criativa: as pirâmides, as esfinges e os obeliscos. Essas figuras entraram no imaginário coletivo planetário e raramente se faz referência à sua gênese milenar, o continente africano. As pirâmides, por exemplo, são consideradas um patrimônio da humanidade.

Obelisco na cidade norte-americana de Asheville, na Carolina do Norte |
Criação
Esses três hieróglifos foram inventados por volta de 2800 a.C., quando o primeiro rei, Djoser, da III dinastia, inaugurou o Antigo Império. Este monarca vivenciou um período de riquezas e deu início ao projeto arquitetônico que levou à criação das pirâmides de Gizé, da esfinge de Quéfrem e dos obeliscos. Estes últimos foram então escolhidos e criados, de forma simultânea, indestrincável, como símbolos gráficos (egiptogramas), tidos como primeiros suportes concretos da memória escrita da humanidade de caráter monumental.
No Antigo Império constituiu-se, do ponto de vista estético, sócio-econômico, político e religioso, um conjunto de elementos e instituições bastante representativo da civilização egípcia, com destaque no caráter divino do poder faraônico. Essa instituição gerou rituais mortuários magníficos, mitos fundados no imaginário literário, com hibridizações de imagens humanas e divinas, da fauna e da flora, que, de tão fortes e presentes no cotidiano, passaram a expressar uma segunda natureza egípcia: original, fascinante e mágica, a ponto de perdurar no tempo e chegar até a atualidade.
De todos os monumentos que permaneceram do Antigo Egito, as pirâmides são as que contêm maior força de apelo no imaginário popular. Construídas por razões de ordem puramente mágica e religiosa, elas tornaram-se um dos símbolos mais corriqueiros da egiptomania.
A Pirâmide
O primeiro ícone (pirâmide) deriva do termo pyramis, que os gregos empregavam para designar um tipo especial de bolo de trigo. Em língua egípcia, elas eram sempre denominadas de mer, palavra cujo sentido e vocalização exata desconhecemos. Todas as pirâmides, sem exceção, serviram de tumbas aos reis e, às vezes, às rainhas da III ª dinastia (cerca de 2750 a.C.) e também às da XVIIª dinastia (cerca de 1600 a.C.) e, posteriormente, aos governantes etíopes da XV ª (cerca de 750-650 a.C.) e a seus sucessores, que reinaram sobre o Sudão setentrional até o século IV d.C.
Com base nas imagens das pirâmides o mundo inteiro atribuiu-lhes tantos sentidos que passaram a ser símbolos de longevidade, perenidade e imortalidade por todo o planeta. O fascínio pelas pirâmides no mundo ocidental é explicado, muitas vezes, pela magia que emana de tudo aquilo que pertence à civilização egípcia. Também deve-se, ainda que em parte, à permanência dessas construções até a atualidade.
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