Álvaro Allegrette: O explorador de Mália O incansável arqueólogo, professor da PUC-SP e pesquisador da École Française D'Athènes, Álvaro Allegrette, tem dedicado todos os seus esforços para desvendar os segredos da civilização minóica, uma das mais antigas a ocupar a ilha de Creta, na Grécia. E teve muitas
POR RODRIGO GALLO
O arqueólogo Álvaro Allegrette, graduado pela Universidade de São Paulo (USP) e professor da Pontifícia Universidade Católica (PUC) de São Paulo, é um dos poucos brasileiros que teve o privilégio de trabalhar em sítios arqueológicos na Grécia. Pesquisador da École Française D’Athènes, instituição ligada ao governo da França, mas sediada em território grego, o historiador foi o responsável pelas escavações da Cripta Hipostila na cidade de Malia, na ilha de Creta, por um período de dois anos. Com essa experiência, aperfeiçoou seus conhecimentos em civilização minóica e, hoje, é considerado um dos maiores especialistas do tema na América Latina.
Em conseqüência de sua atuação em Creta, Allegrette também desenvolveu estudos importantes sobre os micênicos, já que este povo substituiu os minóicos ainda no século XV da era pré-cristã, e sobre os dórios, população indo-européia que se expandiu no Peloponeso nos séculos seguintes.
Por conhecer profundamente a estrutura dos edifícios minóicos, Allegrette fala com propriedade: o palácio de Cnossos, em Heráclio, onde o herói ateniense Teseu teria matado o Minotauro, realmente é um labirinto. O prédio possui sete pavimentos, inclusive quatro abaixo do pátio central, tornando-o confuso para quem não conhece bem sua arquitetura. Isso comprova que a mitologia cretense tem uma base fundamentada na realidade daquele povo.
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| Visão geral da Cripta Hipostila do palácio Mália, na ilha de Creta, em 1996 |
Allegrette afirma ainda que, dentro de 15 anos, será possível conhecer muito mais sobre o povo minóico. O motivo é que a linguagem conhecida como Linear- A, ainda não decifrada, está sendo decodificada aos poucos pelos especialistas por conta de novos achados arqueológicos escritos neste idioma. A importância disso é que, com esse conhecimento, será possível desvendar melhor os antigos hábitos e rituais religiosos do povo de Mália e Cnossos. Hoje, sabe-se apenas que eles cultuavam duas divindades principais, uma masculina e outra feminina, e que realizavam os cultos no pátio central dos palácios. Porém, resta ainda descobrir qual era a natureza dessas crenças.
O arqueólogo argumenta ainda que a mitológica Guerra de Tróia, narrada pelo poeta Homero, pode realmente ter ocorrido na Antiguidade. Porém, ele acredita que o conflito não foi ocasionado pelo rapto de Helena de Esparta, mas sim pela hegemonia das rotas comerciais da região. Enfim, para Allegrette, mitologia e história se misturam, dando origem às culturas gregas pré-helênicas.
Leituras da História - Você é um dos poucos brasileiros que teve a oportunidade de atuar, como pesquisador, na École Française D’Athènes, na Grécia. Como foi essa experiência?
Álvaro Allegrette - Fiquei na École Française na condição de membro estrangeiro, que eles concedem para algumas pessoas normalmente vindas de países de língua francófona, como suíços, belgas e canadenses, e excepcionalmente para alguns pesquisadores que não têm essa língua de origem, como egípcios e brasileiros. Eu sou o terceiro membro brasileiro da escola desde a década de 1960. A instituição já tinha feito alguns contatos com pesquisadores do Brasil há muito tempo, mas havia um longo intervalo da participação brasileira nesta escola. Os outros dois brasileiros que tiveram essa condição de membro da escola são dois professores e pesquisadores da Universidade de São Paulo (USP). O primeiro foi Ulpiano Toledo Bezerra de Meneses, do Departamento de História, e depois a professora Haiganuch Sarian, que é ligada ao Museu de Arqueologia. Fui orientando dela na graduação de história. Entrei no museu para fazer estágio técnico-científico no segundo ano. Tempos depois, ela sugeriu a possibilidade de ligar para a escola e indicar meu nome: conversou com alguns colegas franceses e encaminhou um pedido para a escolha de um pesquisador do Brasil, que foi aceito. Assim, faltava apenas um financiamento adequado, e o Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq) forneceu uma bolsa sanduíche (tipo de curso em que o doutorando assiste a parte das aulas no Brasil e depois completa os estudos no exterior). Então, fui para a École Française e me sugeriram a possibilidade de trabalhar em uma escavação que havia sido iniciada na década de 1950, no sítio de Mália, na ilha de Creta. Essa proposição foi levada ao diretor da escola e depois fizemos uma visita conjunta ao sítio, quando atribuíram a mim a responsabilidade de gerenciar as escavações da Cripta Hipostila.
"As evidências NOS LEVAM A ACREDITAR que houve, na verdade, diversos CONFLITOS ENTRE OS PRÓPRIOS MINÓICOS."
Álvaro Allegrette
Houve a formação gradual de uma sociedade organizada por princípios teocráticos, administrativos e, por fim, religiosos |
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| Estatueta de Deusa Serpente minóica datada de aproximadamente 1600 a.C. |
LH - E como foi o seu trabalho de campo?
Allegrette - A escavação fica na ilha de Creta, a leste da cidade de Heráklio (capital da ilha). Mália é, na verdade, o terceiro sítio arqueológico da civilização minóica onde se encontram palácios. A arqueologia minóica começou com três palácios descobertos. O primeiro deles foi o de Cnossos, em 1900, com o professor Arthur Evans; depois, foi descoberto o palácio de Festus, pela escola italiana; em seguida, em 1915, houve a descoberta do palácio de Mália. Hoje, a escola francesa tem responsabilidade total sobre as escavações deste sítio. Trabalhei lá durante dois anos. Na pesquisa em arqueologia, passa-se uma parte do tempo em campo, escavando, e ficamos uma outra grande etapa do trabalho em laboratório ou em bibliotecas. Isso é importante porque você pega diversas informações e objetos que tirou do sítio e processa tudo. A preocupação maior é trabalhar esse material minuciosamente, com o máximo de cuidado e rigor, para deixar devidamente registrado e documentado, da forma adequada.
LH - Pelas descobertas que você captou nas pesquisas de campo, o que pode nos dizer a respeito das características do povo minóico de Mália?
Allegrette - Como já disse, há um palácio muito importante neste sítio arqueológico. Fora essa construção, tem uma pequena cidade ao redor. Portanto, é um dos poucos sítios arqueológicos considerados palaciais urbanos da cultura minóica. Mas quando se estuda arqueologia minóica percebe-se que a história desse povo não começou a partir desses palácios. Começou com a instalação de uma pequena comunidade pastoril com base agrícola. Depois, houve a formação gradual de uma sociedade organizada por princípios teocráticos, administrativos e, por fim, religiosos. A partir de um certo momento, por volta de 1900 a.C., os palácios finalmente passaram a ser o grande centro político, religioso e produtivo da cidade. De qualquer forma, o período palacial atingiu o momento mais fértil, com uma grande expansão política em Creta, entre 1.600 e 1.500 a.C.
"Creta é uma ilha com uma população que exerceu o DOMÍNIO DOS MARES de forma bastante intensa na Antiguidade. Eles tiveram CONTATO COM O EGITO, Síria, parte da Mesopotâmia, além de ter agido com presença marcante perto da COSTA ITALIANA E DO CHIPRE."
Álvaro Allegrette |
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