MOVIMENTOS DO SÉCULO XX Do Realismo Socialista à Pop Arte Com o fim da supremacia das Belas Ar tes, os movimentos artísticos proliferaram durante todo século XX, representando as inquietações e ideologias de uma época violenta e revolucionária
POR LETÍCIA DE ALMEIDA ALVES*

Quando pensamos em arte, dentro da grande maioria de nós, existe uma “mistureba” de conceitos do que realmente entendemos por arte. Imediatamente, a palavra ‘arte’ pode nos remeter a um quadro de inspiração renascentista como a Monalisa de Leonardo da Vinci. Isso porque é um quadro famoso, sim, mas também porque nossa visão de arte tem alicerces arraigados a um certo tipo de representação típica do Renascimento, dos anos 1400, movimento também chamado de neoclassicismo, que trouxe de volta à cena todo o ideal de beleza e harmonia greco-romano, nosso alicerce mais sólido da cultura ocidental. Mas então, arte é só isso? Não, mas para definirmos o conceito precisamos, antes de mais nada, das ferramentas que só a história pode fornecer.
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| ANDY WARHOL (1928 – 1987) O frágil e hipocondríaco filho de imigrantes austrohúngaros tornou-se um ilustrador de sucesso e, no começo dos anos 1960, fundou o movimento artístico “The factory”. Entrou para a história ao pintar produtos comerciais como as latas Campbel, subvertendo o sentido de produto para a posição da arte na sociedade de produção em massa por meio da saturação e deslocamento do contexto. Acima, Warhol e o dramaturgo Tennessee Willians |
No parâmetro acima, associamos arte à representação da realidade na forma figurativa e realista, basicamente. Alguns denominam arte o quanto mais uma obra se parece com a realidade. Quanto mais a representação de uma vaca parecer uma vaca de verdade, melhor arte é. Outros conseguem encontrar real beleza e força plástica na tela de Malevitch intitulada “Quadrado preto sobre fundo branco”, de 1915. Sim, a tela é exatamente isso: apenas um quadrado preto num fundo branco.
O fato é que arte, sociedade e história sempre caminharam juntas. E nosso olhar em relação à arte também. Ela já teve momentos, vamos chamá- los de movimentos, em que era aquilo que expressava o mais próximo do que a realidade era alcançada ao olhar (o caso da vaca), que é o que chamamos de realismo. Já chegou a ser desligada de qualquer formalidade, ou seja, da forma em si, que é o que conhecemos como abstracionismo; já foi puramente cor e ligada a formas que não existem na natureza, que é o suprematismo, movimento fundado pelo artista russo Kazimir Malevitch, nosso amigo do quadrado preto. E já chegou até a não ser mais a representação de algo e, sim, puro objeto – os conhecidos ready-mades (veja quadro) – muito usados pelos artistas da pop art.
O que acontece é que, às vezes, misturamos tudo num caldeirão só e não pensamos em determinada obra e seu tempo, seu marco histórico e o que o homem estava vivenciando naquele determinado período. E a arte não só traduz um determinado tempo histórico, mas também o representa das mais belas e inimagináveis formas possíveis. Se pensarmos em arte moderna, ou seja, na arte do final de século 19 e primeiras décadas do século 20, podemos encontrar tantas obras e tantos movimentos de experimentação que não é possível classificá-la em um único gênero. E, se formos mais além e fizermos um paralelo entre arte e história, encontraremos movimentos da arte moderna que se distinguiram totalmente um do outro como o Realismo Socialista da extinta União Soviética e a Pop Art marcante dos Estados Unidos. Isso porque, ora a arte foi usada como propaganda política de um regime totalitário, baseado nas ideologias de Josef Stalin que seguiam a linha da não-individualização e da sociedade igualitária, ora porque, do outro lado do oceano e da cortina de ferro, a mesma arte foi usada como paródia ou afirmamento do consumismo, em que se valoriza o esforço individual em busca da felicidade, recompensado pelo consumo de bens. O mais marcante entre esses dois movimentos foi justamente o abismo entre arte e sociedade que se configurou. O movimento russo foi galgado na repressão aos artistas que deveriam usar a arte para servir ao Estado. Já o movimento americano usava o consumismo exacerbado do pós-guerra em suas composições, sem comprometimento algum com a política ou com quaisquer ideologias. Para entender então esses dois movimentos, devemos compreender o contexto histórico e social de ambos.
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| Os russos da fase inicial da revolução soviética utilizavam o experimentalismo de vanguarda para a difusão da causa bolchevique pelo país. Após Stalin, a liberdade é cerceada e as formas engessadas em uma estética de grandeza eterna |
A RÚSSIA EFERVESCENTE
No momento da Revolução Russa, o painel da arte acompanhava os movimentos da arte moderna do pós-revolução industrial. Os artistas seguiam tendências como o construtivismo (através da experimentação formal e de uma linguagem universal), o suprematismo (caracterizado pela cor pura, com uma geometria que tinha a linha como a forma suprema, revelando a ascendência do homem sobre o caos da natureza) e o abstracionismo (ausência do figurativismo, em termos básicos). Esses movimentos foram denominados, nesse contexto, de vanguarda russa.
Nos primeiros anos do século 20, os artistas russos experimentavam e criavam assim como franceses faziam com o impressionismo, os alemães com o expressionismo, os italianos com o futurismo etc. Não que cada país tivesse seus movimentos próprios mas se produziam diversas formas da arte, diversos movimentos na Europa como um todo.
Na revolução Russa, os artistas não desistiram do experimentalismo moderno |
No âmbito da Revolução Russa (acontecimentos concomitantes que resultaram na queda da monarquia czarista) a ideologia libertária que norteava as vanguardas européias em geral adquire feições particulares com a revolução de 1917. A sociedade projetada no contexto revolucionário mobiliza os artistas em torno de produções que remetem a essa efervescência – a qual propunha uma revolução política e cultural que bateria de frente com o padrão estético acadêmico adotado pela monarquia czarista.
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