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PITÁGORAS
Santíssimo Quaternário
Para os pitagóricos a saúde era mais do que uma questão de bem-estar: significava harmonia numérica e a correlação exata entre os elementos naturais e a essência universal, tradição que continua viva até hoje

POR ROBERTO PASSOS NOGUEIRA*

Pitágoras e sua doutrina ainda hoje despertam grande interesse não só entre os estudiosos de história das religiões, da Filosofia e das ciências, como também entre os que se ocupam com temas peculiares ao ocultismo, à alquimia e à magia, os quais, nos nossos tempos de pós-modernidade, parecem estar tão em voga quanto estiveram na Renascença. Há uma onda mundial de fascinação pela chamada geometria sagrada e pela idéia de que a natureza e até mesmo as formas do corpo humano contêm certas relações de harmonia que se expressam por meio de números, como a noção de simetria da beleza, por exemplo. A seguir, veja como o primeiro homem a se denominar filósofo (amante do saber) iniciou a forma de pensar que iria mudar o mundo au unir a razão abstrata a ritos místicos.

PITÁGORAS (570 a.C.- 490 a.C.) Nasceu na ilha grega de Samos, perto da Ásia Menor. Deixou sua terra natal por causa de divergências com o tirano Polícrates e partiu para o Egito. Reza a tradição que após 30 anos de viagens foi morar em Crotona, no sul da Itália, onde fundou sua seita e viveu até ser expulso, no fim da vida. Morreu na cidade de Metaponto com cerca de 90 anos. Abaixo Pitagóricos celebram a alvorada, de Fyodor Bronnikov

O testemunho mais antigo de que dispomos acerca do valor pitagórico dado a uma figura geométrica provém do escritor sírio Luciano de Samósata (130 d. C.), que diz ser o pentagrama o símbolo da saúde dos pitagóricos. Em Sobre um Lapso Cometido ao Saudar, uma de suas mais de oitenta obras, Luciano narra o episódio acontecido durante uma caminhada matutina, quando encontrou uma eminente figura da sociedade local, a quem saudou com a palavra hygiaínein (tenhais saúde). Ao fazer isso, ele quebrara uma convenção social, pois na saudação dirigida a pessoas respeitáveis, era habitual o uso da fórmula kaírein (alegrai-vos). A justificativa de Luciano para o ato falho desdobra-se num comentário acerca do tipo de saudação preferida pelos filósofos antigos. E menciona que Pitágoras e seus seguidores Arquitas de Taranto e Ocelo de Lucânia sempre iniciavam suas cartas expressando o desejo de boa saúde. Do ponto de vista dos pitagóricos, uma boa saúde seria aquilo que mais convém à alma e ao corpo, encerrando todos os bens que o homem possa almejar. Diz Luciano que assim esses filósofos exprimiam que “a alegria e a prosperidade poderiam, sim, ser conseqüentes à saúde, mas que nem sempre a saúde é conseqüente à prosperidade e à alegria”. É em tal contexto que Luciano faz uma alusão ao “tríplice triângulo enlaçado”, o pentagrama, que ele afirma ser um símbolo de identidade da escola pitagórica e uma espécie de emblema da saúde.

As evidências citadas por Luciano para fundamentar sua opinião a esse respeito, são de má qualidade. Não se sabe de nenhuma carta escrita por Pitágoras, o qual, de resto, não deixou nada por escrito em vista da imposição de sigilo que era própria da sua escola. Ademais, a mencionada missiva de Arquitas a Platão é considerada uma fraude na opinião dos especialistas. É possível que tanto a saudação hygiaínein quanto a promoção do pentagrama a símbolo da saúde tenham origem em autores do período helenista e não remontem ao próprio Pitágoras e seus seguidores imediatos.

DE CIENTISTA A SHAMAN
Como Pitágoras provavelmente nasceu em torno ao ano 570 a. C., Luciano está separado dele por nada menos que sete séculos. No entanto, as três biografias de que dispomos sobre Pitágoras provêm de autores posteriores a Luciano, a saber, Diógenes Laércio (180 d. C.), Porfírio (233 d. C.) e Jâmblico (280 d.C.). Desses autores, Porfírio e seu discípulo, Jâmblico, pertenceram ao grupo de filósofos neoplatônicos, e foram formados sob forte influência do pitagorismo. Luciano, ao contrário, era um cético em matéria de religião e, portanto, neste particular, seu testemunho merece bastante crédito, porque não tem parti pris religioso. Mas é estranho que nenhuma das biografias de Pitágoras faça menção ao pentagrama como símbolo da saúde. De outra parte, o livro Teologia da Aritmética, atribuído a Jâmblico, mas que consiste numa compilação de diversos autores, afirma que o número da saúde é o seis (e não o cinco), devido a representar a “integridade dos membros do corpo”.

ESTRELA DA SAÚDE

REPRODUÇÃOA proporção entre certos segmentos da estrela de cinco pontas chamada pentagrama obedece à chamada média de ouro1, que depende do conhecimento dos números irracionais e cuja descoberta é atribuída aos pitagóricos antigos. Por outro lado, na história da geometria está registrado que os pitagóricos foram os primeiros a descrever as propriedades do pentagrama. Além disto, esta figura deveria ter tido um significado simbólico especial para eles, porque costumavam usar a geometria para representar certas idéias morais, religiosas e cosmológicas.

Por alguma razão que é desconhecida, mas sobre a qual se especula no final deste artigo, o pentagrama se impôs como símbolo da saúde e da perfeição do corpo durante a Idade Média e a Renascença. Ele inspirou o trabalho de alquimistas e ocultistas como Paracelso e Agrippa. Esse tipo de evolução levou à junção entre as crenças pitagóricas e a teologia cristã, combinação complexa e contraditória que ocorreu claramente na alquimia ocidental. A própria concepção de salvação na alquimia, como estudada por Jung, está profundamente imbuída de conteúdos simbólicos extraídos do pitagorismo, inclusive no que se refere à interpretação mística dos primeiros quatro números.

1- A média de ouro (ou número phi) corresponde a 1.6180339887499... Trata-se de um número irracional porque sua parte fracionária nunca termina nem se torna periódica.

"O número é o REGENTE DAS FORMAS e idéias e a causa de DEUSES E DEMÔNIOS."
Pitágoras segundo Jâmblico da Cálcia
O DEUS GREGO As dimensões do pensamento pitagórico mundo de hoje são imensas. O filósofo influenciou o astrônomo Kepler (1571 – 1630) nas idéias das órbitas elípticas dos planetas e dos sólidos geométricos perfeitos. Os Rosacruzes e Maçons buscam nos pitagóricos suas origens. E é impraticável imaginar um mundo sem o Teorema de Pitágoras ou raízes quadradas, números irracionais e seus desenvolvimentos posteriores.

O pitagorismo mantinha algumas crenças e práticas relativamente heterodoxas para a época, como a transmigração da alma e o vegetarianismo, duas características que o conectam ao orfismo sem que se possa dizer quem influenciou quem. À semelhança dos cultos de mistérios, as fraternidades pitagóricas impunham a exigência de pureza moral prévia do candidato, isto é, a exigência de não haver cometido nenhum crime, e o voto de manutenção de segredo. Mas não se pode dizer que existiu uma verdadeira religião pitagórica. É reducionista a interpretação da figura de Pitágoras na qualidade de fundador de uma seita religiosa. Ele exerceu papéis sociais muito díspares, foi líder político, doutrinador religioso e curador. Por outro lado, os estudiosos atualmente contestam que Pitágoras tenha sido o iniciador das concepções matemáticas e geométricas que vieram a caracterizar posteriormente sua escola. A autoridade de Pitágoras como cientista não é mais aceita, ao contrário do que foi propagado durante o Iluminismo.

Pitágoras não era um filósofo nem um cientista, mas um adepto da “polimatia”, conforme a denominação um pouco jocosa que lhe deu Heráclito

O filólogo alemão Walter Burkert, autor do mais aclamado estudo moderno sobre o pitagorismo, divulgou a interpretação bastante polêmica de que Pitágoras era uma espécie de shaman, porque se caracterizou por realizar feitos extraordinários, como o de ser visto em dois lugares ao mesmo tempo. Para Burkert, a firme crença de Pitágoras na metempsicose ou reencarnação só pode ter origem em experiências pessoais de transe, que o transportavam ao mundo do divino e do sobrenatural.

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