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GANDHI
O pai de uma Nação
Para alcançar uma Índia independente e justa, Gandhi valeu-se das armas mais poderosas que tinha à mão: inteligência, amor à verdade e determinação

POR PATRÍCIA PEREIRA*

REPRODUÇÃO

Pelo perfil, ninguém apostaria se tratar de um líder: homem franzino, pouco eloqüente e incapaz de cometer ou estimular qualquer forma de violência. Mas Mohandas Karamchand Gandhi (1869-1948), mais conhecido como Mahatma Gandhi, cativou milhões de seguidores e, sem usar armas, conquistou a independência da Índia e se tornou o pacifista mais notável da História. Usou princípios de base religiosa, mas nunca quis que o tratassem como profeta, tendo, inclusive, rejeitado o título de Mahatma (“Grande Alma”) que o povo insistia em lhe atribuir. Sua ação era política. Uma política pouco usual, é certo, já que suas estratégias incluíam jejuns e prisões sem resistência - ele passou 2.338 dias de sua vida na cadeia. Em uma Índia com conflitos entre muçulmanos e hindus, ele defendia a união dentro da diversidade. Foi sua mais notável derrota. Mas comecemos pelo caminho das vitórias.

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Tendo sido contratado como advogado por uma firma indiana, Gandhi parte para a África do Sul em 1893. Lá ele sente na pele a discriminação brutal cometida contra negros e indianos: apanha, é jogado de um trem e expulso de um tribunal, sempre por insubordinação aos costumes racistas. A partir daí, estabelece sua resistência pela não violência, que iria abalizar o resto de sua trajetória

Gandhi nasceu em 2 de outubro de 1869, em Porbandar, no oeste da Índia. Pertencia à subcasta baniana dos vaixás, de comerciantes. Mas, contrariando a tradição, decidiu seguir por outro caminho: foi estudar Direito na Inglaterra. Nenhum membro baniano havia feito isso antes. Nesta época, já havia se casado com Kasturbai Makanji - os dois tinham 13 anos.

Foi na Inglaterra, quase por acaso, que deparou com muitas das influências que iriam mostrar- se centrais na formação de seu pensamento. Catherine Bush, no livro “Gandhi - Os grandes líderes”, conta que, pelo fato de não comer carne, ele sofreu muito em Londres até encontrar um restaurante vegetariano. Lá conheceu membros da Sociedade Vegetariana de Londres, que lhe proporcionaram a leitura da Bhagavad-Gita (Canto do Bem-Aventurado), poema teológicoético indiano, considerado a expressão máxima da literatura da Índia antiga. Na Bhagavad-Gita Gandhi encontrou o conceito de ahimsa (“nãoviolência”), marca de sua trajetória futura.

“A Bhagavad-Gita era o texto de cabeceira do Mahatma. Ele o decorou quase na íntegra e fez um lúcido e esclarecedor comentário sobre seus postulados”, diz Lia Diskin, co-fundadora da Associação Palas Athena e membro-fundador da Rede Gandhi.

ÉTICA DO CRISTIANISMO
Lia também lembra que na Inglaterra Gandhi teve contato com o cristianismo. “Durante o seu período de formação em Direito, na Inglaterra, tomou conhecimento do cristianismo, afeiçoando-se aos Evangelhos e, em especial, ao Sermão da Montanha”, diz Lia.

Frank Usarski, cientista da religião e professor do programa de pós-graduação em Ciência da Religião da PUC-SP, explica que Gandhi era hinduísta, mas na Inglaterra foi confrontado pela ética do cristianismo e ficou balançado. “Ele sentiu a tentação de se converter ao cristianismo, mas acabou não o fazendo”, diz o professor. Gandhi via no cristianismo uma religião mais tolerante. “O Sermão da Montanha falava em amor ao próximo e em aceitar as fraquezas do outro. Pregava que as pessoas deveriam ser tratadas como iguais, independentemente do status. E essa era exatamente a crítica que Gandhi fazia ao hinduísmo, que separava as pessoas em castas e excluía alguns - os intocáveis - do convívio”, explica Usarski.

REPRODUÇÃO
Jawaharlal Nehru ao lado de Gandhi no Comitê Geral do Congresso indiano, em 1942. Nehru era um grande seguidor dos ensinamentos de Mahatma e tornou-se seu braço direito na luta contra a dominação inglesa. Em junho de 1947 assumiu o cargo de primeiro-ministro da Índia recém-liberta

Usarski diz que Gandhi representa o hinduísmo de reformas ou neo-hinduísmo. “É um hinduísmo purificado no sentido ético”, explica. Para ele, a exclusão dos membros da casta dos intocáveis era uma perversidade do hinduísmo tradicional e essa crítica partia da ética cristã. “Não que ele fosse contra o sistema de castas. Ele aceitava as castas, mas acreditava que os seres humanos têm talentos diferentes e complementares e a sociedade precisa de cada um. O que Gandhi rejeitava era a hierarquia baseada nas castas”, explica o professor.

Depois de feitas as críticas, concluiu que a ética do cristianismo era mais universalista. No entanto, o hinduísmo tem um caráter inclusivo muito abrangente. “Não é preciso rejeitar o cristianismo para ser hindu. Pode-se implementar elementos, aprender com o cristianismo”, explica o professor. Gandhi define o hinduísmo como algo superior por ser capaz de integrar outros caminhos da espiritualidade.

Do Ocidente, Gandhi ainda recebeu mais influências. “Outras fontes que marcaram seu pensamento e suas ações foram as idéias de Th oreau, de Ruskin e, principalmente, de Tolstoi”, diz Lia. Usarski lembra que a “resistência passiva”, atitude que caracteriza a principal estratégia de Gandhi, foi inspirada no pensamento do norte-americano Henry David Th oreau.

CAMADAS DE PESSOAS
SHUTTER STOCKNinguém sabe como começou. Mesmo a teoria antes amplamente aceita, de que invasores arianos, tendo conquistado parte da Índia, estabeleceram uma discriminação entre eles mesmos e os nativos, foi desacreditada por meio de exames de DNA. O que se sabe é que a sociedade hindu segue ainda hoje a divisão apresentada pelos registros sagrados chamados Vedas (conhecimentos), escritos em 1500 a.C.. Neles são apresentadas quatro classes ou castas que detêm diferentes funções: Os brâmanes (filósofos, religiosos e escolares em geral), os xátrias (militares e governantes) os vaixias (mercadores e artesãos) e os sudras (trabalhadores braçais e camponeses). Essas castas antes eram escolhidas por fatores diversos, como mapa astrológico, posição social e aptidão pessoal, mas com o tempo se tornaram hereditárias e supercomplexas, ramificando-se em centenas de subdivisões. Porém, até o mais humilde dos sudras agradece a Purusha pelo seu lugarzinho nos versos. Sim, porque a camada mais baixa é aquela não mencionada nos vedas, a dos Dalit, também conhecidos por “intocáveis”. Esses marginalizados somam mais de 140 milhões de indivíduos a quem são oferecidos apenas os trabalhos considerados degradantes ou impuros, relacionados geralmente ao recolhimento do lixo e contato com os mortos.*
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