editora Escala
 
Filosofia  
   
 
 
 

 

Os primórdios da arqueologia histórica
O arqueólogo brasileiro e professor da Unicamp conversou com Leituras da História sobre esta modalidade eurocêntrica e fala sobre as origens e o campo de atuação no Brasil.

Por Sérgio Pereira Couto

Divulgação

Por definição, a chamada arqueologia histórica é uma modalidade que estuda sociedades por meio de registros escritos. É, assim, disciplina bastante abrangente e considerada uma das mais eurocêntricas, ou seja, que coloca a Europa como centro da constituição da sociedade moderna. O objetivo de seus estudos é justapô-los com os outros que investigam e grupos mais antigos e até mesmo pré-históricos. Por vezes se concentra nas atividades de classes operárias, mulheres e até mesmo de crianças.

Como uma modalidade tão específica pode encontrar um campo de trabalho em nosso país? Para tanto, fomos em busca de um nome nacional que discute as aplicações da arqueologia histórica há algum tempo. Pedro Paulo Funari é, além de professor, pesquisador do Núcleo de Estudos e Pesquisas Ambientais (Nepam/Unicamp). Participa do conselho editorial de pelo menos trinta revistas científicas nacionais e 14 estrangeiras. Dentre estas últimas destacam-se publicações como o “Public Archaeology”, o “Journal of Social Archaeology” e o “International Journal of Historical Archaeology”. É autor de mais de 330 artigos publicados em revistas de todo o mundo e escreveu ou coescreveu mais de 80 livros na área de História e Arqueologia.

O professor, que hoje é também assessor do reitor da Unicamp, apresentou alguns resultados obtidos com o Grupo de Pesquisas que coordena junto com o professor André Chevitarese. Dentre os artigos científicos já publicados estão aqueles que saíram em revistas de renome, como “World Archaeology”, “Journal of Roman Archaeology”, “Journal of Social Archaeology” e “Current Anthropology”. Vários dos estudantes que já passaram pelo crivo de Funari tornaram-se professores de universidades como a UFMG, UFPR, Unifesp e UFRJ, entre outras.

Na entrevista a seguir, Funari fala sobre as definições de arqueologia histórica e suas aplicações práticas.

LEITURAS DA HISTÓRIA – O que vem a ser arqueo logia histórica e qual a diferença desta modalidade para a arqueologia convencional?

ADRIAN PINGSTONE
Arqueólogos participam de escavações no Fórum Romano em 2007

PEDRO PAULO FUNARI – A arqueologia histórica pode ser definida de duas maneiras. Para alguns especialistas, ela estuda a cultura material das sociedades modernas, resultantes da expansão do capitalismo, a partir do século XV. Desta perspectiva, a arqueologia histórica estaria centrada na globalização e na modernidade. Para outros, dentre os quais me incluo, a disciplina está centrada no estudo da cultura material das sociedades que utilizam a escrita, desde o Egito Antigo, até os dias atuais.

Portanto, esta definição não é cronológica, mas epistemológica, ao enfatizar a convivência de discursos escritos sobre a sociedade e a cultura material dessas sociedades. Em ambas definições, contudo, a arqueologia histórica é uma disciplina especializada da Arqueologia que se diferencia, em primeiro lugar, da arqueologia pré-histórica, que estuda a cultura material de sociedades que não se utilizaram da escrita.

LDH – Como e quando surgiu cronologicamente a arqueologia histórica?
PPF –
A arqueologia histórica, com esse nome, surgiu nos Estados Unidos, na década de 1960, voltada para o estudo da cultura material associada aos fundadores da nação, os protestantes anglo-saxões brancos, cujo acrônimo é WASP (White Anglo-Saxon Protestant). Nas duas décadas seguintes, com o crescimento dos movimentos sociais, a disciplina passou a incluir outros grupos constitutivos americanos, como os católicos, os afroamericanos, os irlandeses e as mulheres. De toda forma, a disciplina surgiu voltada para a modernidade.

O livro clássico que apresenta esta abordagem foi escrito por Charles E. Orser, “A Historical Archaeology of the Modern World” (1996). A partir da década de 1990, estudiosos de outras partes do mundo, em particular da América Latina, África, Europa e Ásia, propuseram uma definição mais ampla da disciplina, voltada para o estudo da cultura material de todas as sociedades, no passado e no presente, que conhecem a escrita, tal como apresentado no volume “Historical Archaeology, Back From the Edge”, organizado por mim, Martin Hall e Sian Jones em 1999.

LDH – Qual é a contribuição de um arqueólogo histórico para a melhor compreensão das civilizações do passado?
PPF –
As sociedades com escrita produziram informações de diferentes tipos: documentos escritos transmitidos pela tradição literária e uma imensa e crescente quantidade de objetos, alguns com escrita e imagens, provenientes da pesquisa arqueológica. Graças à Arqueologia, conhecemos uma grande quantidade de textos do Egito Antigo, assim como temos imagens, estátuas e edifícios inteiros escavados. Tudo isso nos fornece informações únicas sobre a vida dos faraós, mas também das pessoas comuns. Sabemos mais sobre as sociedades da antiga Mesopotâmia por vestígios arqueológicos, do que sobre períodos recentes, mas menos estudados, o que pode parecer um paradoxo, mas demonstra a importância de estudarmos a materialidade.

“Tradicionalmente, a formação dá-se numa graduação de História ou outra ciência (Ciências Sociais, Geografia, Biologia), seguida de mestrado e doutoramento focado no tema arqueológico”

LDH – Há algum exemplo da atuação da arqueologia histórica para uma melhor compreensão das eras mais modernas?
PPF –
Dentre os exemplos mais recentes e relevantes está o estudo arqueológico dos períodos ditatoriais. Por meio da arqueologia histórica, tem sido possível identificar pessoas que foram assassinadas e enterradas sem identificação. Na Europa, hoje, há escavações em curso na Espanha, referentes ao período da Guerra Civil (1936-1939). Na América Latina, em particular, essa recuperação da memória tem sido muito importante em diversos países, inclusive no Brasil. Não se trata, apenas, da possibilidade de identificação de corpos de desaparecidos, mas também do estudo das prisões clandestinas e de outros temas, como atesta o livro recém-lançado “Memories from Darkness, Archaeology of Repression and Resistance in Latin America” (Nova Iorque, Springer, 2009), organizado por mim, Andrés Zarankin e Melisa Salerno e que havia sido publicado, em versão anterior, no Brasil (“A Arqueologia da Repressão e da Resistência na América Latina”, São Paulo, Annablume, 2008).

LDH – Como é a formação do arqueólogo histórico? Quais os cursos para se obter esta especialização?
PPF –
Há diversas possibilidades. Tradicionalmente, a formação dá-se numa graduação de História ou outra ciência (Ciências Sociais, Geografia, Biologia), seguida de mestrado e doutoramento focado no tema arqueológico. Nos últimos anos, surgiram cursos de graduação em Arqueologia e isso abre novas oportunidades na formação acadêmica de alto nível. O estudo da arqueologia histórica, em particular, tem crescido muito nos últimos anos no Brasil, pois cada vez mais se valoriza o patrimônio histórico.

1 | 2 | Próxima >>

 

 

 

 

Assinaturas
 
Assine as publicações do núcleo Ciência & Vida.
Matérias, novidades acadêmicas, reportagens e muito mais.
Filosofia História historia Psique
 
Edição nº50
SUMÁRIO DA EDIÇÃO
MATÉRIA DE CAPA
REPORTAGENS
TESTEMUNHA OCULAR
EDIÇÕES ANTERIORES
EXPEDIENTE
FILOSOFIA
LEITURAS DA HISTÓRIA
PSIQUE
SOCIOLOGIA
AGENDA
ARTIGOS
 
Busca
Buscar
 
 
Newsletter
Cadastre-se e fique atualizado diariamente com nosso conteúdo.
  OK
 
 
Institucional
Publicidade
Adicionar Favorito
Links Úteis
 
 
Legenda
O acesso ao conteúdo do portal Ciência&Vida é identificado por cards.
Assinante
Cadastrado



Faça já a sua assinatura!

Psique

Desvende a mente humana

Assine por 1 ano
11x de R$ 9,71
Assine!
Outras ofertas!

Sociologia
Um olhar sobre o mundo que no para.

Assine por 2 anos
9x de R$ 9,71
Assine!
Outras ofertas!

Filosofia

Pensamentos universais de forma objetiva e sem complicaes.

Assine por 1 ano
9x de R$ 9,71
Assine!
Outras ofertas!

Leituras da Histria

Fatos e personalidades que deixaram suas marcas.

Assine por 1 ano
9x de R$ 9,71
Assine!
Outras ofertas!


  ContentStuff - Sistema de Gerenciamento de Conteúdo - CMS