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Sociedade
Advento do poder
O conceito de democracia natural, as perdas para a humanidade com a sua derrocada e a ascensão de grupos específicos

Por José Vasconcelos

Como se tratava de uma contextura fora dos liames naturais, aquele novo poder acima dos demais geraria objetivos diversos daqueles destinados ao bem da comunidade, se restringindo a atos de acordo apenas com a vontade do xamã, do sumo-sacerdote.

Inevitavelmente, o líder sacerdotal foi aumentando seus serviçais e clientes (os apadrinhados), os quais eram beneficiados com mais bens e prerrogativas. Guerras e rituais contra outras comunidades lhes traziam mais mulheres e mais serviçais, transformados a seguir em escravos, que engrossavam a legião dos servidores do Templo, do clã sacerdotal e de sua corte. Não demorou muito para que o líder sacerdotal, com seu poder absoluto e filhos diferenciados, implantasse a monarquia hereditária.

Com efeito, dessa forma, a democracia natural se viu abolida em todas as sociedades civilizadas.

Pesquisadores presumem que a democracia natural tenha sobrevivido entre os primitivos povos mesopotâmicos. Pelo menos a arqueologia apresenta alguns indícios de sociedade democrática. Os sinetes de chamada dos cidadãos encontrados se assemelham aos da democracia de Milão dos séculos XII e XIII. Os túmulos não indicam diferenciamento, como os das fases posteriores durante os reinados dos soberanos da Antiga Caldeia, o que representa o igualitarismo a todos os membros.

De qualquer maneira, algumas comunidades humanas chegaram até o século XX, ainda exercitando a democracia natural. Foi encontrada em todos os continentes, da América à Europa, da África à Polinésia. Em alguns lugares a democracia natural se apresentava em estágio de transformação na monarquia absoluta, mas trazia ainda relativo processo de decisão comunal e controle dos poderes por todos os membros, como foi o caso das comunidades da Germânia, antes da aculturação romana.

Podemos agora retornar à democracia natural e estudar o seu funcionamento. O ponto fundamental de sua operacionalização é o comando nas decisões fomentado sob propensões naturais dos seres humanos. Estes são dotados de instintos gregários que os estimulam a objetivar o bem da sociedade. Conforme observado, não havia lideranças fixas, nem governo. Todos agiam voluntariamente e todos tinham participação nas decisões. Os bens eram comunais.

Em sociedades de nossa atual civilização não resta dúvida que a complexidade cultural produziu comportamentos humanos perniciosos à vida social, mas não tanto a ponto de bloquear totalmente as tendências naturais dos indivíduos.

Evidente que a desnaturalização das comunidades humanas prejudicou o desempenho dos indivíduos em termos de solidariedade. Entrementes, mesmo com as deturpações ocorridas no conjunto cultural dos povos, os cidadãos de uma forma geral são estimulados por seus instintos sociais em função do bem da comunidade.

Numa nação qualquer, quanto menor forem a má distribuição de rendas, as desigualdades previdenciária e salarial, os privilégios a grupos políticos, religiosos, sindicais, maior será a vazão dos instintos sociais, fato esse demasiadamente comprovado pelas pesquisas.

Na democracia natural não havia líder fixo e imutável, mas lideranças naturais, específicas a
cada tarefa social e que se dissolvia com a consecução dos objetivos alcançados pela comunidade

Observa-se que a média em decisões coletivas se encaminha bastante ao bom-senso, mesmo que os indivíduos separadamente considerados possam ter atributos não recomendáveis. É a força do instinto social embora sensivelmente prejudicado por falsos conceitos e a ação de grupos sumamente egoístas e dominantes dos poderes da sociedade.

Sim os seres humanos estão destinados a serem sensatos e cooperadores. Se a situação demonstra o contrário em muitos casos, trata-se de algum erro social, mas não o suficiente, vale repetir, para destruir de vez com as tendências naturais de todos os indivíduos.

O que equivale a dizer que não se deve partir da hipótese de que a democracia natural não funcionaria a contento, porque, em relação aos humanos, temos de atender à perspectiva da existência do Bem e do Mal na natureza humana.

Ora, filosoficamente falando, não persiste nenhum fundamento para esse dualismo. Existem realmente entes humanos bons e maus no conceito em que são empregadas essas palavras?

 

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