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Sociedade
Advento do poder
O conceito de democracia natural, as perdas para a humanidade com a sua derrocada e a ascensão de grupos específicos

Por José Vasconcelos

Noção de bem e mal

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Em decorrência da decadência cultural perpetrada na humanidade, deparamos com a noção de que há o Bem e o Mal, e por consequência indivíduos bons e maus. É a essência da doutrina maniqueísta, a qual consiste na crença da realidade simultânea de dois princípios divinos: o Bem e o Mal. Foram esses mesmos Bem e Mal que muito preocuparam os zoroastrianos, e ainda o espírito do Bem e do Mal que atormentou os autores dos Vedas.

Um mal que tem feito milhões de pessoas, há mais de mil anos se dirigirem a Ganges, outros tantos a Meca, e igualmente a Roma e a Jerusalém, para se verem livres do mesmo. Muitas religiões, procurando fundamentar adequadamente os seus princípios, utilizaram-se dessas criações. A doutrina judaico-cristã, por exemplo, além de afirmar a existência do Bem e do Mal, e de que o homem é, por natureza, mau, procura até mesmo indicar a origem desse fato. De modo que, simbolizando o erro humano no pecado de Adão, tratou de mostrá-lo em forma de desobediência. Assinala-nos São Gregório: "A tragédia do homem é que pelo pecado original sua natureza é corrupta e o inclina para o mal; e esta má-formação espiritual básica é transmitida de pai para filho por meio da procriação sexual".

E chegaram, infantilmente, a alvitrar que o mal estaria nas partes sexuais do corpo humano, especialmente no da mulher. Foram mais além e propuseram que a causa sendo imanente na representante feminina, taxaram-na a origem de todos os males que afligem a humanidade. Como essas criaturas têm sofrido ao longo dos anos as conseqüências de tão curta e falsa visão do mundo! Essa parvoíce abrangeu os judeus com o papel representado por Eva. Outros apontavam à lua, ao sol, aos animais e determinados fenômenos e objetos, o motivo do Mal; com certeza, muito se tem tentado enfeitar essa fantasia, todavia sem êxito.

As palavras Bem e Mal sempre preocuparam os civilizados, elevando-os a princípios, e em torno dos quais suscitaram as mais absurdas conotações, resultando em símbolos os mais ridículos, e finalmente, advindo divindades, espíritos, demônios, e os persas anunciando que somente no fim do mundo, com a vinda de um Messias nascido de uma virgem e da semente de Zaratustra, esse dualismo seria extinto, dualismo esse que se entranhou nas grandes religiões, e vigora nas atuais crenças, reduz-se, entretanto, a um simples fator biológico.

Não tem sentido acentuar filosoficamente ser boa ou má uma coisa. No reino animal inexiste substância a esse conceito. Nenhum animal é mau ou bom pelas suas atitudes; todos agem simplesmente pela sua sobrevivência com as aptidões que a natureza lhes adaptou. O predador e a sua presa têm as tendências e instintos necessários à conservação de suas espécies respectivamente, nada tem a ver se são maus ou bons. E o homem também está incluso nesse sistema. Um guepardo não é mau porque mata uma gazela, nem bom porque alimenta seus filhotes.

Ilógico pensar que um ser social, como o homem, nasça destinado a fazer o mal aos outros membros da sociedade. Se assim fosse, não seria social nem haveria sociedades. O indivíduo é uma parte com uma função a cumprir para o funcionamento da corporação comunitária. Todos necessitam da colaboração e da solidariedade de cada um. O contrário seria uma aberração no mundo natural. Esta lhe dotou de faculdades, tendências e instintos, próprios de um ser social: predisposições a realizar atos para sobrevivência de sua espécie.

Em suma, a democracia natural funciona em tribos indígenas de uma forma racional, harmônica e sensata, por força das próprias propensões naturais de cada indivíduo, que o impulsiona a agir pelo bem da sociedade

Foi com base nessas falsas premissas, que durante séculos, insistiram em formas de governo contrárias a natureza humana, como a Monarquia. Diante da presumível malignidade ingênita dos cidadãos, admitiram o Absolutismo e a Autocracia dos monarcas. Códigos draconianos vigoraram para debelar a maldade dos homens, ao mesmo tempo em que eram desprezados estudos sobre as causas primeiras.

Nesta época, jamais poderiam imaginar que o verdadeiro regime na organização política dos povos era baseado justamente nos bons propósitos dos cidadãos. Entretanto, esses são os alicerces que fizeram funcionar perfeitamente a democracia natural, tanto entre os pré-históricos como em povos de cultura primitiva.

 

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