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Política | Argentina versus Chile (1891-1929)
Tensão no cone sul
No início de 1982, apenas a mediação do Vaticano impediu que os governos de Buenos Aires e de Santiago lançassem seus países em uma guerra pela soberania no Canal de Beagle. Mas essa era uma rixa antiga

Da redação


Foto: Shutterstock

Nas primeiras semanas de 1893, enquanto o Minis- tro dos Estados Unidos em Berlim, William Phelps, tentava arranjar “um bom partido” para sua filha Marian, algo efetivamente grave – e que deveria incomodá- lo diretamente (caso ele não estivesse tão concentrado em outras prioridades) – se desenrolava sob a atmosfera de aparente calma da Legação do Chile, comandada pelo his- toriador Gonzalo Bulnes Pinto e sua mulher Carmela. Algo que envolvia a diplomacia brasileira, mas dizia respeito aos Estados Unidos e à rivalidade do Chile com a Argentina.

O assunto era o “Baltimore”, o cruzador americano que, a 7 de abril de 1891, atracara no porto chileno de Valparai- so, alegadamente, para garantir a vida e os bens dos cida- dãos norte-americanos residentes naquele país da Améri- ca, banhado pelo Pacífico. O Chile vivia dias tumultuosos. Na noite de 16 de outubro, um grupo de tripulantes do “Baltimore” envolveu-se em confusão em uma taverna da cidade portuária. Dois marinheiros morreram, alguns ou- tros ficaram feridos. O governo de Santiago rotulou o inci- dente como uma “vulgar rixa de rua”. Os norte-americanos, contudo, descreveram um verdadeiro enfrentamento com forças policiais locais. O episódio precipitou um affair diplomático, que só foi resolvido em julho de 1892, quando a Chancelaria chilena colocou à disposição do Departamento de Estado americano, a quantia de 70 mil pesos ouro, des- tinada às famílias das vítimas. Na capital do Império Alemão, contudo, o chileno Bulnes redescobriu o incidente do “Baltimore”, conforme ele próprio descreveria, brevemen- te, a 2 de fevereiro de 1893, para seu colega Augusto Matte, representante de Santiago em Paris:

Foto: Shutterstock
Réplica do cruzador Baltimore, preservada nos Estados Unidos: atenção para os canhões principais do navio, alojados no costado.

 

Foto: Google maps
Mapa do Canal de Beagle, após a assinatura do Tratado de Paz e Amizade entre Chile e Argentina, ocorrida em 1984, com mediação do Vaticano

“Querido Augusto:
Li, sob o compromisso de guardar a maior reserva, uma carta escrita pelo Chefe do Departamento de Relações Exte- riores do Rio de Janeiro, na qual ele conta que acabam de descobrir em Washington que, em Março de 1892, no período crucial da questão ‘Baltimore’, a República Argentina bus- cou a cooperação dos EEUU para atacar o Chile em conjunto com eles, ou seja por terra e por mar. A carta é de Itajubá (Marcos Antônio de Araújo e Abreu, 2º Barão de Itajubá) e tem a advertência de que é muito secreta e confidencial. Segundo isso, esse ultimato yankee foi dado de acordo com o governo de Pellegrini (Carlos José Pellegrini, presidente ar- gentino de 1890 a 1892). Eu lhe conto sob muita reserva e sem fazer comentário. Se é certo, como creio, seria uma infâmia cem vezes maior que o tratado secreto do Perú com a Bolívia (referência ao pacto entre Lima e La Paz para enfrentar os chilenos na Guerra do Pacífico)”.

Diques do porto chileno de Valparaíso; a tela, de Ramón Subercaseaux Vicuña, foi pintada em 1884


Investigações posteriores, conduzidas pelas autorida- des chilenas, concluíram que os argentinos ofereceram livre passagem por seu território às tropas estadunidenses in- cumbidas de atacar o Chile, bem como o aprovisionamento de carvão para os barcos da U. S. Navy. O plano teria sido apresentado ao Secretário de Estado Blaine, pelo então Ministro Plenipotenciário argentino em Washington, Vicente Quesada, de 62 anos, que servia há sete nos Estados Uni- dos. Apertado pelo chefe da diplomacia ianque, Quesada teria admitido que, no caso da cooperação militar entre os dois países vir a ser bem sucedida, seu Governo tencionava apossar-se da “parte austral do Chile”. E para não deixar dú- vidas quanto a real disposição de seus superiores para agir, enquanto Quesada procurava o Departamento de Estado, em Buenos Aires, o Ministro das Relações Exteriores argentino, Estanislao Zeballos, convocava o Encarregado de Negócios americano Feahback para tratar do mesmo assunto. Segun- do essa versão, Zeballos valeu-se de um mapa da América do Sul para indicar a seu visitante o porto de Antofagasta, como o mais adequado ao reabastecimento da Esquadra estadunidense. Não resta dúvida que o Barão de Itajubá facilitou a informação a seu colega do Chile, sob a condição de que ele a lesse, sem fazer uma cópia do texto da comunicação recebida do Rio de Janeiro.

 

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