PAULO DE ASSUNÇÃO O IMPÉRIO DO BRASIL: EFEITO COLATERAL DA REVOLUÇÃO FRANCESA Especialista no Brasil do período imperial, o historiador conta a trajetória da Família Real Portuguesa que, ao fugir das forças de Napoleão, acabou criando as condições para a independência de sua colônia mais importante.
POR RODRIGO GALLO
A transferência da família real portuguesa para o Brasil vai completar 200 anos em 2008. Essa mudança foi importante para o desenvolvimento comercial e industrial do País, que antes era uma simples colônia, e também para a construção de espaços públicos de lazer, como o Teatro Municipal do Rio de Janeiro e a Biblioteca Nacional. Contudo, engana-se quem pensa nessa viagem como uma jornada gloriosa: desde os primeiros preparativos até a chegada ao porto carioca, a trajetória de Dom João VI às terras tupiniquins foi marcada por uma série de problemas nada corteses.
O historiador Paulo de Assunção, doutor pela Universidade Nova de Lisboa (Portugal), pós-doutor pela École des Hautes Études en Sciences Sociales (França) e professor da Universidade São Judas Tadeu, debruçouse por muito tempo sobre a história do Brasil no período imperial e, com isso, pôde afirmar com propriedade: a viagem da família real começou a se tornar desastrosa por conta da pressa com que a corte portuguesa foi obrigada a embarcar rumo ao Brasil.
Os portugueses decidiram sair da Europa com destino à colônia por conta da ameaça da França: os europeus tinham visto recentemente a força da Revolução Francesa e acompanhavam o avanço de Napoleão Bonaparte sobre o continente. A única alternativa foi fugir para o Brasil.
Segundo ele, quem esperou pela chegada da comitiva real no porto do Rio de Janeiro com certeza ficou decepcionado, pois o navio de Dom João se perdeu da esquadra e foi parar na Bahia - ou seja, não houve nenhum desembarque digno da monarquia européia. “Não houve uma cena deles chegando todos ao mesmo tempo no Brasil”, disse o historiador em entrevista à Leituras da História.
Contudo, esta foi apenas uma das adversidades por que a corte passou. Já em terra, os membros da família real enfrentaram muitas dificuldades para se adaptar ao clima brasileiro, considerado muito quente, além de sofrer sérios problemas de saúde por conta da alimentação inadequada. O próprio relacionamento entre os membros da família foi conturbado. Enquanto Dom João passava a maior parte do tempo no Palácio de São Cristóvão, sua esposa, Carlota Joaquina de Bourbon, vivia com as filhas no Palácio de Botafogo. Eles se juntavam em eventos sociais para não desgastar a imagem dos monarcas perante o povo.
Mesmo assim, com todas essas confusões nada honrosas para um rei, a transferência desses portugueses ao Brasil foi responsável pelo crescimento do País e para consolidar os interesses da colônia em relação à política, economia e cultura.
Com a volta da corte para Portugal, Dom Pedro I permaneceu no País para tomar conta dos negócios reais - sem muito talento, segundo o historiador. “Ele tinha uma postura um pouco autoritária e turbulenta”, contou Assunção. “Um dos motivos que o levou à abdicação foi a falta de sustentação das elites”, completo
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| A ocupação francesa da península ibérica estimulou as idéias liberais que mais tarde culminariam na guerra civil de Portugal (1828-1834) |
Leituras da História: Fala-se que a viagem da família real para o Brasil não teve muitas glórias. O que aconteceu no trajeto para tornar a jornada e a transferência para o País tão penosas?
Paulo de Assunção: Realmente não houve nada de glorioso nesta viagem. Eles sabiam que os franceses estavam invadindo Portugal desde o começo de outubro, quando os inimigos já estavam na fronteira da Espanha. Além disso, havia um interesse da Inglaterra de fragilizar Portugal porque assim o grau de dependência ficaria maior. Quando percebeu que não tinha mais como negociar, Dom João VI acabou optando pela saída do País. Tudo isso vai fazer com que a família real venha no atropelo para o Brasil, numa situação sem muito conforto. Percebe-se que a própria população não sabia o que estava acontecendo. Era um período chuvoso, estava entre o outono e o inverno. Então, a pressa e a desorganização mostravam toda uma temeridade de realizar a viagem nesta época do ano, que era inadequada. Em um primeiro momento, em 5 de dezembro de 1807, os barcos se distanciaram por causa de uma tempestade. Depois eles conseguiram se reagrupar e acabaram parando na Ilha da Madeira, que era um ponto de passagem. Depois, novamente se separam. Daí a embarcação de Dom João VI foi parar na Bahia, enquanto o navio onde viajava parte das filhas foi para o Rio de Janeiro. Então, não houve uma cena da chegada de todos ao mesmo tempo no Brasil. O grupo que chegou ao Rio de Janeiro ficou esperando: não sabia o que tinha acontecido com Dom João VI e pensavam até mesmo que a embarcação tinha afundado. Era a primeira família real a sair de Portugal e vir para a América Latina. Logo, com tantos contratempos, foi uma aventura sem nenhum conforto.
Leituras da História: Em 2008, vamos completar 200 anos da chegada da família real ao Brasil. Apesar das turbulências da viagem, qual foi a importância, para o desenvolvimento do País, da vinda dessas pessoas para o Brasil?
Paulo de Assunção: Eles saíram da Europa em novembro de 1807 e chegaram ao Rio de Janeiro entre 7 e 8 de março de 1808. O primeiro ponto importante dessa viagem é que a situação de colônia acabou sendo rompida com a abertura dos portos às nações amigas estimulando a atividade comercial com outros países. O príncipe regente, que era Dom João VI, eliminou as interdições relacionadas às atividades industriais na estrutura colonial: antes, era proibido fazer tecidos ou qualquer coisa do tipo. Então, com as mudanças, passou a ser permitida uma série de atividades de base industrial. No mesmo período, também houve o estabelecimento de escolas, como, por exemplo, uma escola de engenharia, que envolveria o ensino de matemática, engenharia civil e estratégia militar. Foi um período de transição no Brasil, que futuramente passaria à independência.
Com as mudanças, passou a ser permitida (no Brasil) uma série de atividades de base industrial
Leituras da História: Quer dizer que, antes da vinda da família real, a produção industrial era proibida?
Paulo de Assunção: Até então, qualquer tipo de produção de manufatura era proibida no Brasil, pois todos os produtos manufaturados vinham de fora. Com as liberações autorizadas por Dom João VI, passou a ser permitida a produção de tecidos e outros objetos.
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| Por causa de sua personalidade amarga Carlota Joaquina (1775-1830) ficou conhecida como A megera de Queluz |
Leituras da História: E quais foram as mudanças em relação ao comércio, após a chegada da família real?
Paulo de Assunção: Como existia o Pacto Colonial, o porto do Rio de Janeiro só podia fazer transações comerciais com Portugal. Com as mudanças, passou a ser permitido fazer comércio com a Inglaterra e, posteriormente, com os Estados Unidos. Então, mudou- se completamente a dinâmica dessas relações comerciais. Quer dizer, muitas amarras existentes no período foram retiradas, o que contribuiu para o desenvolvimento do Brasil.
Leituras da História: Como era a rotina da família real no Brasil? O que eles faziam por aqui?
Paulo de Assunção: Essa rotina é um pouco complexa. A família real era muito maior do que se imagina. É um fato que as pessoas entendem errado. Parece que só vieram para o Brasil, Dom João VI, Carlota Joaquina, Dona Maria I e Dom Pedro. Mas não foram só eles. Na verdade, vieram um casal, Dom João e Carlota Joaquina, Dona Maria e duas de suas irmãs, mais os filhos e filhas de Carlota com Dom João. São praticamente seis filhas, mais dois filhos, e ainda um sobrinho do Dom João VI cuja mãe tinha falecido. Era uma família real numerosa, composta por muitas pessoas. Podemos notar que as filhas mais novas ficaram sempre ao lado de Carlota Joaquina. As referências de documentação mostram que elas viveram mais no Palácio de Botafogo, enquanto Dom João passou mais tempo no Palácio de São Cristóvão. Os documentos registram que essa proximidade e o convívio da família parecem não ter sido constantes entre os membros da família real no Brasil a não ser em eventos públicos, porque era uma situação de imagem. Sabemos que a elite convidou a família para jantares e passeios em muitas ocasiões, além de ter tentado agradar Carlota Joaquina de várias formas. A predileção de um ou outro por ela acabava gerando intrigas políticas. Às vezes ela acabava favorecendo algumas pessoas, fazendo com que outros se sentissem ofendidos. Um pouco dessa rotina era registrada nas crônicas da época. As notícias eram publicadas principalmente na Gazeta do Rio de Janeiro, e depois seguiam para Portugal, para serem publicadas na Gazeta de Lisboa. Eles registravam, sobretudo, aquilo que chamamos de “coluna social oficial”, contando sobre as caçadas do rei, o casamento da filha de Dom João VI ou as bodas de Dom Pedro com Dona Leopoldina. Outro fato conhecido é que eles encontraram aqui algumas dificuldades, pois não tinham uma alimentação muito rica e fi- cavam doentes em vários períodos, com dores de cabeça ou disenterias. A própria higiene da cidade foi um problema. O Rio de Janeiro não estava preparado para acomodar tantas pessoas: faltava água, não tinha infra-estrutura urbana e não havia moradias adequadas. Então, toda uma vivência e sociabilidade foram sendo construídas a partir de 1809 ou 1810 com a construção de teatros e outros espaços públicos para que eles pudessem ter condições de lazer parecidas com as da Europa.
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