Guerra Fria Revisitada Durante quase todo século XX as duas superpotências mundiais se enfrentaram em um colossal braço de ferro. O desenrolar da luta, no entanto, é motivo de controvérsia entre os historiadores
POR SIDNEI J. MUNHOZ
Passados quase 20 anos da queda do Muro de Berlim (1989) e da desagregação do mundo soviético (1991), muitas pessoas ainda se perguntam o que foi, quando e como terminou a Guerra Fria. Para a maioria dos estudiosos do tema, a Guerra Fria, como a que existiu entre o final da II Guerra Mundial (1939-1945) e a crise dos regimes de economia planificada (1989-1991), não mais existe. No entanto, o conceito ainda não foi definitivamente aposentado. Atualmente, alguns autores o utilizam em sentido diverso da sua acepção original, dessa vez, para caracterizar conflitos não declarados, emergentes em nossa época. Assim, alguns se referem ao surgimento de um conflito Norte-Sul (entre ricos e pobres) em substituição ao antigo conflito Leste-Oeste (capitalismo e comunismo).
O CONCEITO DE GUERRA FRIA
Desde 1947, quando o jornalista estadunidense Walter Lippmann publicou um artigo, em que denominava as tensões emergentes entre os EUA e a URSS como Guerra Fria, a expressão se espraiou pelo mundo e tornou-se senso comum. Lippmann não foi o primeiro a fazer uso do termo. Muito antes dele, durante o século XIV, D. Juan Manuel, no reino de Castela, afirmou que havia uma guerra fria entre cristãos e muçulmanos. Para o nobre castelhano, aquela era uma guerra que não era guerra. Nela, não havia o combate direto, mas também não se alcançava a paz. Mais uma vez, o termo foi utilizado de forma precoce na última década do século XIX, no contexto da corrida armamentista que antecedeu à I Guerra Mundial (1914-1918). Ainda, ao final da II Guerra Mundial, o escritor britânico George Orwell empregou o termo para denominar as tensões que então se iniciavam entre os EUA e a URSS. Outros autores, lembram ainda que o assessor do governo Truman, Bernard Baruch, haveria feito uso da expressão em junho de 1947. Porém, o próprio Baruch negou a sua originalidade e afirmou que repetiu o termo empregado por Herbert B. Swope, no ano anterior.
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| De jovem poeta georgiano anti-rússia na juventude, Josef Stalin (1878 – 1953) passou a militante marxista. Após a morte de Lênin, em 1924, ganhou força no partido até se tornar ditador da URSS em 1928. Assim que chegou ao poder, implantou planos de industrialização e coletivização no país que, ao fim de uma década, seria a segunda superpotência mundial |
Como se nota, muita gente utilizou o termo, mas há quase um consenso na historiografia de que o emprego da expressão, no seu sentido contemporâneo, foi uma decorrência da repercussão dos artigos publicados por Walter Lippmann, no New York Herald Tribune, depois, transformados em um livro intitulado Th e Cold War. Assim, a partir de 1947, a expressão Guerra Fria passou a ser empregada para qualificar o conflito entre os EUA e a URSS e, de forma correlata, para se referir às tensões daí derivadas que confrontavam o chamado mundo ocidental e a área de influência soviética.
Não há concordância no que se refere à periodização do conflito, mas predomina o entendimento de que a Guerra Fria surgiu em 1947 e terminou com a desagregação do mundo soviético (1989- 1991). Contudo, alguns autores entendem que o conflito haveria terminado em 1953 com a morte de Joseph Stalin e com a eleição de Dwight Eisenhower. Para outros, o período haveria se encerrado em 1963, com a assinatura de acordos visando à redução e ao controle dos armamentos nucleares. Há ainda aqueles que defendem a idéia de que a eclosão do conflito seria bem anterior, com início logo após a Revolução Bolchevique (1917) e a posterior invasão do país por tropas estrangeiras, durante a guerra civil ocorrida entre 1918 e 1921. Para esses, após a II Guerra mundial o conflito ganhou uma dimensão global. Por fim, há aqueles que empregaram a expressão Nova Guerra Fria para se referir aos confrontos verificados no interior do bloco socialista.
ORIGENS: UMA GUERRA APÓS A OUTRA
Ao final da II Grande Guerra, não veio a paz tão esperada, pois as crescentes tensões e disputas entre os blocos em consolidação provocaram guerras regionais, revoluções e golpes militares que cobrariam a vida de mais de vinte milhões de pessoas.
Com o início da Guerra Fria ocorreu a intensificação de conflitos em diferentes regiões do Planeta. Neles mesclavam-se os interesses geopolíticos das duas potências centrais e de cada um dos seus respectivos blocos. Além disso, não se pode pensar cada um desses campos como homogêneos. Neles, havia tensões, rivalidades e conflitos. Assim, periodicamente, emergiam querelas em busca de hegemonias regionais e outros interesses de Estado.
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| A partir do fim da II guerra mundial, os EUA se tornaram imperialistas ativos e buscaram manter o controle político nos países periféricos. No entanto, a maior parte dos conflitos da guerra fria foi lutada por facções locais que recebiam apoio indireto das superpotências, como doação de armas e empréstimos financeiros. |
Dessa forma, observa-se que a imagem do mundo bipolarizado, tão útil para a compreensão da Guerra Fria, não pode ser cristalizada, pois como é possível verificar na literatura relativa ao tema, esse processo era bastante dinâmico. Os países integrados a cada um dos blocos possuíam interesses próprios e nem sempre se subordinavam automaticamente às potências centrais. Desse modo, havia disputas de interesses no interior dos blocos e alguma autonomia relativa dos atores coadjuvantes. Porém, era notória a fragilidade dessa autonomia como demonstram as freqüentes intervenções, tanto dos EUA quanto da URSS.
A posse de Harry Truman, em decorrência da morte de Franklin Roosevelt, ocorrida em abril de 1945, imprimiu alterações na política externa dos EUA. Para o novo presidente e seus assessores, haviam ocorrido excessivas concessões aos soviéticos e era necessário corrigir essa direção. Essa postura gerou na URSS suspeitas de que se pretendia eliminar a sua área de influência no Leste da Europa. Temeroso de perder o controle sobre a região, que era considerada vital para a segurança da União Soviética, Stalin interrompeu o seu frágil processo de democratização. Assim, no Leste da Europa, a partir do início de 1946 e durante os anos seguintes aumentou- se drasticamente a repressão às oposições, cerceou-se a liberdade, abandonou-se o pluripartidarismo e o regime de economia mista.
Alguns autores vêem já nos bombardeios nucleares a Hiroxima e Nagasaki uma primeira declaração da Guerra Fria. Para eles, o fato tem muito mais a ver com o futuro conflito que está a se iniciar do que com o fim da II guerra Mundial. Em outras palavras, seria uma demonstração de força para que a URSS moderasse as suas ambições na Europa. Outros vêem o pronunciamento do ex-chanceler britânico Winston Churchill, em 05 de março de 1946, em Fulton, (Missoury), EUA, como um marco dos novos conflitos que estavam a emergir. No entanto, o grande marco do início da Guerra Fria foi o anúncio da Doutrina Truman, ocorrido em 12 de março de 1947. Pouco depois, em 5 de junho de 1947, os EUA anunciaram o Plano Marshall que teve um papel fundamental na estratégia mundial dos EUA.
REAÇÃO E PERSEGUIÇÃO
O certo é que cada nova ação em um campo levou a respostas do outro. O Golpe tcheco, ocorrido em 25 de fevereiro de 1948, levou à expulsão dos comunistas franceses e italianos de seus respectivos governos. Isso fez com que os comunistas colocassem na ilegalidade os partidos de orientação não comunista, ao mesmo tempo em que pressionaram os socialistas, obrigando-os a se fundirem aos comunistas. Simultaneamente, lideranças democratico- burguesas foram presas e muitas delas executadas após julgamentos no mínimo viciados.
A perseguição político-ideológica foi constante nos dois blocos. Prisões e execuções no campo soviético, o macarthismo nos EUA e seus simulacros no campo ocidental arruinaram a vida de milhares de cidadãos. Nos EUA, entre 1950 e 1954, o macarthismo perseguiu pessoas e instituições, expondo-as à execração pública, silenciou a média, interferiu na liberdade acadêmica, promoveu exclusão de centenas de docentes e cientistas das universidades e centros de pesquisa.
Com a intensificação dos conflitos, a perseguição político-ideológica tornou-se exacerbada tanto no campo soviético quanto no estadunidense. Os trabalhos da House Un-American Activities Committee – HUAC transformaram-se em um grande teatro que levou milhares ou mesmo milhões cidadãos estadunidenses a acreditarem que o país estava prestes a ser invadido por forças soviéticas. Dois episódios exemplificam o clima do período. Um, mais conhecido, foi a execução, em 1953, de Julius e Ethel Rosemberg, sob a duvidosa acusação de espionagem. No outro, bem menos conhecido, foram construídos em 1952 campos de concentração com o intuito de deter comunistas estadunidenses (Allenwood, na Pensilvânia: El Reno, em Oklahoma: Florence e Wickemburg, no Arizona e Tule Lake, na Califórnia), com capacidade para receber até 26 mil e quinhentos prisioneiros, no total. Os campos foram construídos para uso imediato em caso de necessidade, contudo, desconhece-se sua utilização para os fins inicialmente propostos.
| A DÉTENTE |
Esta palavra de procedência francesa foi utilizada na diplomacia para denominar a distensão política entre Estados. Na década de 1960, o termo foi empregado por Charles de Gaulle (1890-1970) ao se referir ao relaxamento ocorrido nas tensões entre a França e a URSS. Logo, foi aplicado para denominar a aproximação nas relações entre os EUA e a URSS. Por fim, détente foi empregada para definir a distensão entre os blocos soviético e ocidental. No idioma russo o termo análogo é razryadka napryazhennosti.
Embora haja controvérsias, a delimitação mais aceita para demarcar o fenômeno abarca o período que se estende de 1969 a 1979. Essa fase não esteve livre de conflitos, e nela verificou-se a expansão da Guerra da Indochina. Contudo, as duas potências, ao reconhecerem os seus interesses mútuos, definiram rituais e padrões aceitáveis para a solução de dissensões. Essa fase da Guerra Fria foi marcada por relações que comportavam tanto a cooperação quanto a competição. De forma recorrente, o clima de tranqüilidade era quebrado por divergências na interpretação das ações da rival ou dos seus aliados, por vezes consideradas como quebra de protocolos e de tratados. Tanto em um campo quanto no outro não foram poucos os obstáculos à execução das políticas de distensão. Principalmente nos EUA, a oposição acusava o governo de efetuar concessões inaceitáveis e procurava convencer à opinião pública que elas denotavam sinais de fraqueza prontamente explorados pela adversária. Na União soviética, as tensões no campo das elites foram menores. Porém, dissidentes que apoiavam à Détente afirmavam que ela não implicou a expansão das liberdades democráticas no país.
No período, houve aproximações entre EUA e URSS em diversos campos. Destacam-se os tratados de limitação de armas nucleares (Salt-I); o Tratado de Helsinque, em que os EUA reconheceram a esfera soviética no Leste da Europa; a cooperação na área científica, expressa na missão espacial Apollo-Soyuz. Nesse período, os EUA se aproximaram da China e exploraram a rivalidade sino-sovética. A China ingressou na ONU e passou a fazer parte do seu Conselho de Segurança. A emergência de conflitos no chamado Terceiro Mundo, a invasão do Afeganistão pela URSS, em 1980, a posse Ronald Reagan, em 1981, inviabilizaram a détente e a Guerra Fria adquiriu contornos semelhantes àqueles da sua primeira fase. |
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