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Especial | Abandono de crianças
Os pequenos enjeitados
A rejeição, o infanticídio e a prática do abandono de crianças recém-nascidas pelas mães já eram uma realidade social na cidade de São Paulo no período dos anos oitocentos...

Por Robson Roberto da Silva

Desejo de Deus?
Os clérigos também viam com preocupação esse bárbaro costume de abandono de bebês recém nascidos pelas ruas da cidade. Contudo, a morte desses inocentes era encarada com naturalidade pela população mais empobrecida - algo como um desejo de Deus que fazia levar os "anjinhos" para não sofrerem uma vida de misérias na Terra.

Pintura de Jean-Baptiste Debret - Uma Senhora Bras
Na família patriarcal os membros eram ligados pelos laços paternalistas de dependência

As crianças mortas, pertencentes às famílias abastadas, eram enterradas em caixões ornamentados. Já as crianças mortas provenientes de famílias pobres, que não tinham condições de comprar um esquife, eram enterradas em caixotes de papelão.

Os bebês expostos sempre estavam envolvidos em cueiros, embrulhados em seus enxovais, roupinhas e algumas vezes vinham acompanhadas por bilhetinhos em que estava escrito o nome da criança, se era batizada e, especialmente, as razões para o abandono. Geralmente, as mães alegavam não possuir as mínimas condições de criação da criança - e sempre com a promessa de reaverem seus filhos quando tivessem condições de criá-los. Em outros casos eram de mulheres que, para esconder sua desonra diante da família, devido a uma relação amorosa mal-sucedida, entregavam seus filhos a caridade. O reverendo americano Daniel P. Kidder criticava a Roda em 1840, pois afrouxava os bons costumes e incentivava as mulheres à depravações morais, sexuais e às ligações amorosas ilícitas, por permitir o anonimato das mães ao depositarem seus filhos em tal dispositivo.

 

Segundo o historiador Renato Pinto Venâncio, havia uma grande diferença entre expor e enjeitar uma criança recém-nascida. Enquanto que o primeiro era deixar a crianças em qualquer lugar, expostas aos maiores perigos; o segundo referia-se a entregá-la aos cuidados de outras pessoas ou a entidades religiosas

 

Acervo 2D
Funeral de um anjinho, em 1865
Acervo 2D
A amamentação das amas de leite foi um instrumento fundamental para a sobrevivência das crianças expostas no Brasil

Condições precárias
Os expostos que davam entrada no Hospital da Santa Casa de Misericórdia recebiam os primeiros cuidados, eram registrados no Livro de Entrada e, depois, batizados. O sistema de atendimento das crianças expostas não era satisfatório, suas instalações eram acanhadas e as condições higiênicas eram péssimas.

 

A sociedade exigia providências com relação às mortes e ao excesso de abandonos de crianças pelas ruas e portas das casas. Somente no início do século 19, o governo provincial e a Igreja Católica inauguraram a Roda dos Expostos, em 2 de setembro de 1825, no Hospital da Santa Casa de Misericórdia de São Paulo. Foram inaugurados também o Recolhimento Feminino - denominado Seminário da Glória e o Internato Masculino, denominado Seminário de Sant'Anna.

 

Essas entidades não recebiam ajuda financeira do governo provincial, especialmente depois da promulgação da Lei dos Municípios de 1828 que transferia toda a responsabilidade sobre os expostos para a Santa Casa. Assim, sobreviviam por meio de doações das famílias ricas ou de outros rendimentos menores. Diante de tal quadro de carestia, não é de surpreender a alta mortalidade infantil dentro dessas instituições. Além disso, havia casos das crianças expostas estarem em estado doentio tão avançado que era impossível qualquer atendimento médico - sendo que muitos bebês eram encontrados mortos dentro da roda.

O acolhimento dos expostos não era um "asilo de crianças" e elas não permaneciam por muito tempo. Após entrada, registro, batismo - e dos primeiros cuidados -, os recém-nascidos eram enviados para amas de leite mercenárias para amamentá-los, elas recebiam cinco mil réis por criança, e as amas secas, quatro mil réis. A mortalidade acompanhava as crianças durante a amamentação, devido à falta de cuidados das amas de leite com a higiene, contraindo doenças por meio do leite materno.

Como as amas eram negras livres e pobres, ou escravas alugadas pelos seus senhores, cada uma tinha que amamentar o maior número possível de bebês abandonados para aumentar seu rendimento, assim, não tinham como dar os cuidados necessários para a grande quantidade de recém-nascidos que amamentavam. Raríssima era a cena de uma única ama de leite cuidar e zelar por uma única criança, isso seria um privilégio dos filhos dos senhores de escravos.

 

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