NEC PLURIBUS IMPAR O Espetáculo da Realeza Solar Luís XIV nasceu sob a estrela do milagre, governou para uma nobreza cortesã e foi execrado em sua morte. Mas foi preservado pela História como o Júpiter francês
POR MARCOS ANTÔNIO LOPES
ASCENSÃO E QUEDA DO REI SOL – 1638 -1715
Luís XIV nasceu no castelo de Saint-Germain, em 5 de setembro de 1638. Filho tardio do casamento de Luís XIII com Ana d’Áustria, a sua vinda ao mundo foi festejada em toda a França. A chegada inesperada do Delfim foi considerada como o “milagre capetíngio”, uma graça divina atribuída à intervenção providencial, após uma provação coletiva de mais de duas décadas. Como afirma Jean-Paul Houx, os cristãos conservaram a idéia de que Deus não pode abandonar seu povo, e que Ele interviria para salvá-los quando a necessidade se fizesse sentir. Os franceses do Antigo Regime estavam convencidos disso. Essa idéia guiara suas vidas.1 A esterilidade de Ana d’Áustria, durante cerca de surpreendentes 23 anos, provocou a angustiante questão sucessória numa conjuntura em que Gaston d’Orléans, irmão de Luís XIII e, portanto, o herdeiro mais próximo da coroa, era o inimigo mais detestado da corte, por sua liderança em diversos levantes contra a política de Richelieu. O nascimento de Luís XIV inscreveu-se num sistema de crenças que associou a realeza a uma missão divina: preservar a unidade e a própria continuidade da França.2
Mas existem aspectos bastante curiosos a cercar esse nascimento misterioso. De forma imprevista e improvável, depois de duas décadas de matrimônio, o rei passou uma noite com a rainha. Foi assim que Ana d’Áustria pôde trazer ao mundo um filho que, de tão inesperado, fez os franceses estourarem de alegria. Ainda que de maneira um tanto obscura, o problema da sucessão fora resolvido. Com efeito, é sabido que o jovem Luís XIII teve uma infância para lá de estranha, segundo as famosas anotações do Journal de Héroard, o médico encarregado de zelar pela saúde do príncipe, e que o acompanhou até a idade adulta.3 A misoginia de Luís XIII tornou-se conhecida desde a primeira juventude, quando se pôs em dúvida o fato de ter consumado o seu casamento. Já rei da França, gostava de fazer docinhos e passava tardes inteiras ao forno, deixando as coisas do Estado nas mãos de Richelieu. Em certa ocasião, foi interpelado pela única mulher da qual não lhe repugnava aproximar-se, Medemoiselle de La Fayette: “Estais casado há vinte e dois anos, Sire, e ainda não destes um delfim à França”.4
Há de fato fortes nuvens que obscurecem o nascimento de Luís XIV, o que levou alguns autores a considerar que esta paternidade, bem mais do que outras, era uma questão puramente de fé. E tanto mais ainda quando se comparam os traços físicos de pai e filho, em tudo bem diferentes. Historiadores argumentam que foi uma terrível tempestade o fenômeno que obrigou Luís XIII a se deitar com Ana d’Áustria. “Mas não tardaram a contar em Paris”, afirma Guy Breton, “que a tempestade fora habilmente explorada pela rainha que, segundo pessoas bem informadas, tinha realmente grande necessidade de ver o rei, ‘porque ela acabava de cometer uma grande imprudência...’”. E a rainha foi deveras muitíssimo hábil em “legitimar o fruto de um comércio culposo”. Em linhas gerais, esse foi o clima que deu origem à aparição do Rei Sol.
1 CF. JEAN-PAUL HOUX. LE ROI: MYTHES ET SYMBOLES. PARIS: FAYARD, 1995
2 CF. JEAN MEYER. LA NAISSANCE DE LOUIS XIV. PARIS: ÉDITIONS COMPLÈXE, 1989.
3 CF. PHILIPPE ARIÈS. L’ENFANT ET LA VIE FAMILIALE SOUS L’ANCIEN RÉGIME. PARIS: SEUIL, 1975.
4 CITADO POR GUY BRETON. AS PROEZAS ERÓTICAS DE HENRIQUE IV E OUTRAS HISTÓRIAS DE AMOR DA HISTÓRIA DE FRANÇA. RIO DE JANEIRO: CIVILIZAÇÃO BRASILEIRA, 1972.
 |
| Louis XIII, auxiliado por seu primeiro ministro, o Cardeal de Richelieu, fortaleceu o poder do Estado francês ao enfraquecer a capacidade de decisão dos grupos de famílias nobres como os Habsburgos. Acima, o monarca em retrato feito por Peter Paul Rubens (1622-25) |
Por suas facetas inusitadas, histórias como a de Luís XIII fizeram a alegria dos escritores e dos cortesãos do Ancien Régime. E muitas foram as conjecturas sobre a impotência do rei, em tudo diferente do pai, Henrique IV, e do filho, Luís XIV, os mais fogosos amantes que se sentaram em trono francês. No século XVIII, Voltaire não deixou passar em branco essa singularidade da vida sexual de Luís XIII. Numa passagem do conto filosófico O touro branco, ele abordou o assunto utilizando-se das liberdades facultadas a tal gênero literário: “Há vinte e cinco mil anos, o Rei Gnaof e a Rainha Patra ocupavam o trono de Tebas das cem portas. O Rei Gnaof era muito belo, e a Rainha Patra ainda mais bela; mas não podiam ter filhos. O Rei Gnaof instituiu um prêmio para quem indicasse o melhor método de perpetuar a linhagem régia. A Faculdade de Medicina e a Academia de Cirurgia fizeram excelentes tratados sobre essa importante questão: nenhum vingou. Mandaram a rainha banhar-se; ela rezou novenas; deu muito dinheiro ao templo de Júpiter Amon, de onde vem o sal amoníaco: tudo inútil. Afinal, apresentou-se ao rei um jovem sacerdote de vinte e cinco anos, que lhe disse: - Sire, creio que sei fazer o exorcismo necessário para o que Vossa Majestade deseja com tanto ardor. É preciso que eu fale em segredo ao ouvido da senhora vossa esposa; e, se ela não se tornar fecunda, consinto em ser enforcado. -Aceito a vossa proposta - disse o Rei Gnaof. A rainha e o sacerdote ficaram juntos apenas durante um quarto de hora. A rainha fi- cou grávida, e o rei quis mandar enforcar o sacerdote. 5
GUERRA FRIA
"E um rei é a tal ponto rei QUE NADA MAIS PODE SER. A realeza forma em torno dele uma ATMOSFERA LUMINOSA que o envolve, o esconde e faz que escape à nossa vista ofuscada pelo seu brilho."
Montaigne
A FORMAÇÃO DEFICIENTE DO MONARCA
Acerca da formação intelectual de Luís XIV o duque de Saint-Simon conta que, na infância do príncipe, sua educação fora prejudicada, e até certo ponto negligenciada pela Rainha-Mãe e pelo ministro Mazarino, em função de uma conjuntura política turbulenta, as revoltas da Fronda. A primeira formação de Luís XIV fora muito precária, numa época em que os reis da França recebiam uma instrução clássica. De acordo com Saint-Simon, o próprio Mazarino havia desleixado propositadamente de sua educação, talvez imaginando lidar, no futuro, com um rei mais facilmente manipulável. Segundo o memorialista, que decididamente não se pode incluir entre os admiradores do rei, Luís XIV.
“nascera com um espírito abaixo do medíocre, capaz, entretanto, de se formar, de se limar, de se afinar, de tomar emprestado de outrem sem imitação. [...] Ele queria reinar por si mesmo. Seu ciúme neste ponto foi até a debilidade. Reinou efetivamente nas coisas pequenas; nas coisas importantes não pôde consegui-lo; mesmo nas pequenas foi muitas vezes governado. [...] Sua primeira educação foi de tal modo abandonada, que ninguém ousava aproximar-se de seu aposento. Muitas vezes falava desses tempos com amargura, a ponto de contar que fora achado em abandono uma noite no tanque, do Palais Royal. [...] Mal lhe ensinaram a ler e a escrever, e manteve-se tão ignorante que as coisas mais conhecidas de história, de fortunas, de comportamentos e de leis lhe eram inteiramente alheias. Por causa desta falha caiu muitas vezes em público nos absurdos mais grosseiros."6
 |
Luis XIV retratado aos 8 anos por Simon Vouet (1590-1649). Segundo o duque de Saint-Simon o jovem monarca era detentor de um espírito “abaixo do medíocre” e recebera uma formação deficiente até a adolescência |
Analista atento, ainda que muitas vezes incoerente em seus juízos carregados dos valores da nobreza de sangue do Antigo Regime — que ele julgava traída por Luís XIV —, Saint-Simon traçou, em seus mais tênues detalhes, uma extraordinária galeria de retratos e cenas que reconstituem a vida cortesã ao tempo do Rei Sol. Duque e par da França, nunca perdoara ao rei ter desvinculado a nobreza de sangue das altas esferas do poder, confiando exclusivamente aos burgueses os mais distintivos cargos da administração. As Memórias de Saint-Simon exprimem, sobretudo, seus rancores aristocráticos contra o príncipe. Como ele próprio confessou, foram escritas como consolo de suas ambições políticas mal satisfeitas junto ao soberano.
Tendências e animosidades à parte, o fato é que o nobre memorialista é um dos melhores testemunhos de sua época. Seus retratos da ânsia por grandeza e glória de Luís XIV são quase todos desconcertantes. Apesar de suas prevenções, Saint-Simon teve a pretensão da objetividade ao produzir seus relatos. Para ele, “as únicas boas memórias são as perfeitamente verdadeiras, e só podem ser verdadeiras quando escritas por quem viu pessoalmente as coisas que descreve, ou que as obteve de pessoas dignas de fé, que as tenham visto pessoalmente”. Isso parece significar que importa bem mais a proximidade do observador em relação ao objeto do que propriamente o ângulo da observação. Se a história também pode ser servida “em brasas” — conforme a expressão consagrada por Fernand Braudel, no sentido de ser escrita no calor dos acontecimentos —, qualquer versão que se dê dos fatos será confiável.
5 VOLTAIRE. “LE TAUREAU BLANC”. IN: EDOUARD GUITTON. (ORG.). ROMANS ET CONTES. PARIS: LIBRAIRIE GÉNÉRALE FRANÇAISE, 1994. 6LOUIS DE ROUVROI, DUC DE SAINT-SIMON. MÉMOIRES. PARIS: HACHETTE, 1951.
PÁGINAS :: 1 | 2 | 3 | 4 | Próxima >> |