Teatro Amador Paulista: voz libertária em tempos de silêncio (1964- 1985) POR NEY VILELA
Na sexta-feira, dia 1º de maio de 1500, frei Henrique Soares de Coimbra construiu um grande palco e caprichou nos detalhes cênicos. Toda a tripulação da esquadra de Cabral foi autorizada a deixar as naus e, “cantando em maneira de procissão”, com os estandartes da Ordem de Cristo bem erguidos a sua frente, mais de mil homens seguiram em direção ao local “onde nos parecera ser melhor fincar a cruz, para melhor ser vista”. Cruz de sete metros de altura, tão pesada que os índios ajudaram os marinheiros a carregá-la. A missa, na verdade, foi conduzida como um evento teatral. Atraiu a atenção de aproximadamente 150 índios: nossa primeira platéia. Como se vê, o Teatro Amador brasileiro é tão velho quanto o Brasil.

O primeiro diretor e escritor teatral amador a atuar no Brasil foi José de Anchieta. Homem dotado de refinada sensibilidade, logo percebeu o quanto os pequenos índios se encantavam com as encenações. Anchieta escreveu uma dúzia de esquetes, com objetivos didáticos e de proselitismo religioso, reproduzindo-os algumas centenas de vezes.
As qualidades pedagógicas do Teatro foram exaustivamente utilizadas pelos jesuítas nos três séculos seguintes. Nas escolas jesuíticas, não havia muitas alternativas ao Teatro, uma vez que a Coroa Portuguesa determinou a proibição da instalação de equipamentos de impressão em território colonial. Como os conhecimentos não podiam ser divulgados em livros, acabavam sendo ministrados por meio de encenações.
A chegada da Família Real, em 1808, multiplicou a atividade teatral: a inexistência de temporadas operísticas, de debates acadêmicos, de imprensa e de mostras artísticas na capital colonial provocou uma monotonia cultural que acabou sendo quebrada com os ensaios e encenações teatrais.
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A Paz, de Aristófanes, dirigido por Walter Rodrigues, e encenado pelo Teatro Estudantil Vicente de Carvalho, de Santos. O espetáculo foi o vencedor do Festival Estadual de Teatro Amador de 1970, cuja final foi realizada em Santos, no Teatro da Rádio Clube |
Construíram-se, dessa forma, as bases para a produção amadora no Brasil: ou os grupos formam-se nos estabelecimentos educacionais, com objetivos didáticos e sob supervisão direta de professores, ou as apresentações teatrais amadoras são construídas a partir de saraus em casas de latifundiários que querem demonstrar cultura. Com poucas exceções, esta era a paisagem teatral brasileira até 1950.
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O Padre José de Anchieta
(1534 – 1597) conduziu a primeira missa realizada no Brasil de forma teatral para chamar atenção dos índios nativo |
No segundo número da revista de Teatro Amador, em setembro de 1955, Coelho Neto descreveu os tipos particulares de grupos amadores, com poucas diferenças em relação ao que se via no século anterior. Na descrição, o “Teatro escola” e o “Teatro universitário” são colocados em primeiro plano; o “Teatro operário” é apresentado com um carinho paternalista, mas com pouca relevância na paisagem teatral existente. Coelho Neto registra uma evolução do Teatro de saraus da juventude bem nascida: tratase dos “Clubes de Teatro”, que funcionavam à base de sócios que pagavam mensalidades, recebendo em troca apresentações teatrais.
O POPULISMO (1946-1964) E O GRANDE DEBATE
Um grupo de Teatro Amador, que logo a seguir se profissionalizaria, inicia o período de grandes debates na ribalta brasileira. O Teatro Brasileiro de Comédia surge, em 1946, para mostrar que se pode fazer teatro, no Brasil, “tão bom” quanto os europeus. Para garantir a qualidade de nossas apresentações, surge a Escola de Arte Dramática, em 1949.
A linguagem e as temáticas brasileiras sobem ao palco em 1952, quando surge o Teatro de Arena. Os temas são populares, mas o público é restrito: na platéia, quase todos são universitários. Com o surgimento do Teatro Paulista do Estudante, na Faculdade de Filosofia da USP (em 1955) todos, no palco e na platéia, são da academia. Os debates sobre a realidade brasileira são candentes, mas totalmente opacos para a sociedade.
Em dezembro de 1961, surge uma dissidência do Teatro de Arena que irá liderar as discussões culturais nos três anos seguintes: o Centro Popular de Cultura (CPC). O manifesto de fundação do CPC foi escrito por Carlos Estevam Martins e apresenta algumas posições radicais. Para o CPC, arte e artista não estão desligados dos processos materiais da sociedade; a classe dominante só se mantém na medida em que sua cultura é dominante; a arte da elite não representa adequadamente a realidade em movimento. A tese mais controversa desse momento inicial do CPC é a de que o intelectual revolucionário produzirá a “cultura popular”: será “uma doação de cima para baixo”, uma vez que “o povo não consegue chegar sozinho à cultura”.
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