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Os Temos da Moda
Desde o surgimento da humanidade, as roupas, mais que um simples utilitário, servem como expressão visual. Saiba como as vestimentas passaram do campo da tradição para a vida fashion

POR LETÍCIA DE ALMEIDA ALVES

“A questão da moda não faz furor no mundo intelectual”, assim Gilles Lipovetsky começa o livro O império do efêmero (1944, Companhia das Letras). E, de certa maneira, o autor, sessenta anos depois, continua tendo lá sua razão. Nem os desfiles de moda de Paris, Nova Iorque e Milão, nem mesmo Gisele Bündchen conseguiram fazer com que a moda fosse absolvida da auréola permanente do superficial, e, para alguns, até mesmo do ridículo. Não estamos aqui falando da moda como tendência, estilo, mas da moda como um fenômeno importante na esfera sócio-histórica e econômica do mundo. Assim, Lipovetsky continua: “a moda é relegada à antecâmara das preocupações intelectuais reais; está por toda parte: na rua, na indústria e na mídia, e quase não aparece no questionamento teórico das cabeças pensantes. Esfera ontológica e socialmente inferior, não merece a investigação problemática; questão superficial, desencoraja a abordagem conceitual; a moda suscita o reflexo crítico antes do estudo objetivo, é evocada principalmente para ser fustigada, para marcar sua distância”.

Mesmo relegada à antecâmara das preocupações intelectuais, a moda está por toda parte

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A filme O Diabo veste Prada (2006) foi sucesso de crítica e de público. Conta a trajetória de uma jornalista aspirante no traiçoeiro e deslumbrante mundo da moda. Durante o desenrolar da trama, a protagonista aprende as nuances dos códigos de vestimenta e conduta do mundo fashion

REPRODUÇÃO
A fabricação das vestimentas deu um salto quando foram inventadas as agulhas, por volta de 40 mil anos atrás

No filme O Diabo veste Prada, estrelado por Meryl Streep no papel da estilista Miranda Priestly, existe uma cena curiosa e que ilustra bem como a moda está incrustada no nosso look de cada dia – mesmo que nos consideremos alheios ao fenômeno. A personagem Andrea (Anne Hathaway) assistente de Miranda, enquanto ouve a poderosa chefe discorrer sobre algumas peças de roupa, deixa escapar um risinho meio escrachado como quem pensa “que futilidade! que besteira!”. Nesse momento, a chefona se vira para ela e diz algo como: “você, que se leva tão a sério e acha graça no que eu digo, quando escolheu esse suéter no seu armário, hoje de manhã, não percebeu que ele não é azul turquesa ou royal, é azul celúreo. Em 2002, Oscar de la Renta usou azul celúreo em sua coleção e, logo depois, Yves Saint Laurent também fez modelos desse mesmo azul. Essa cor foi trazida, aos milhões, para essas terríveis lojas de departamento que colocaram esse suéter em liquidação. E você, que escolheu ficar fora da moda, está usando uma peça que foi escolhida por pessoas que estão nesta sala”.

PRÉ-HISTÓRIA DAS VESTIMENTAS
Se hoje não se tem muito jeito de escapar da moda, nem sempre foi assim. Antes das bolsas Louis Vuitton e dos ternos Armani, o homem se contentava com uma boa pele de bisão com um buraco no meio, para enfiar a cabeça. O traje nem ao menos era recortado, não era macio e muito menos chique, apesar de se tratar de um casaco de pele – só passamos a usar casacos de pele com a pelagem do animal voltada para lado de fora no século XX. Sim, porque antes de tudo, a pele servia para proteger o Homo sapiens (que havia perdido boa parte de sua penugem) do frio. Já tinha pensado nisso?

IMPERADOR JUSTINIANO E SUA ESPOSA TEODORA
REPRODUÇÃOJustiniano I, imperador bizantino que reinou entre 527-565, usava roupas bem diferentes dos primeiros imperadores. Sua veste era de tecido dourado e bordada com desenhos florais. Presa por pedras, usava uma clâmide púr- pur a . Sua túnica tinha mangas estreitas ou usava uma dalmática, ambas incrustadas com jóias. Usava um tipo de coroa também adornada com jóias presas e pendentes em fios dos dois lados. A roupa tinha um ar eclesiástico, pois o imperador era um rei-sacerdote. Em Bizâncio, como na China imperial, as roupas eram hierárquicas. Outro toque imperial era o modo de se escolher a imperatriz. Através de uma espécie de concurso de beleza, com moças trazidas de todo o império. Foi dessa maneira que Justiniano escolheu Teodora. Ela era uma moça humilde, atriz e dançarina – profissões que a Igreja reprovava com veemência. Foi necessário se criar leis novas para que a moça se casasse com Justiniano. Nos mosaicos de San Vitale, em Ravena, vemos o casal chiquerésimo. A vestimenta de Teodora mostrava uma túnica branca e longa, adornada com uma faixa vertical recoberta de bordados. Outra faixa, chamada maniakis, era bordada com fois de ouro, pedras preciosas e pérolas. A imperatriz usava um cinto enfeitado com franjas na barra além de uma capa púrpura com a figura dos Reis Magos. Na cabeça trazia uma diadema mais bonita que a do imperador, com longos fios de pérolas. Nos pés, sapatos de couro macio, tingidos de vermelho e cuidadosamente bordados

O uso de peles não servia apenas para proteger o homem, mas também pelo exercício de poder

Ainda hoje, esquimós e povos siberianos modernos conservam métodos primordiais na produção das vestimentas, como a mastigação do couro para amaciá-lo

Essas primeiras vestimentas tinham a função de proteger; pois mesmo nas últimas culturas paleolíticas, o homem ainda vivia junto às geleiras que cobriam grande parte da Europa devido às sucessivas eras glaciais. Mas não podemos nos esquecer do lado mágico e ritualístico como enfatiza Miti Shitara, professora de História da Moda da faculdade Santa Marcelina: “Esse homem, ao vestir a pele do animal, incorpora em si a força deste. O uso de peles não servia somente para proteger o homem de intempéries de um modo geral, mas servia pelo exercício do poder. Quem pode se adornar com a presa de um animal, exibe um trunfo”. Tanto quanto quem exibe uma bolsa Prada exibe o poder de compra, de status etc. Concluindo, as primeiras vestimentas não surgiram por uma questão de pudor ou mesmo de estética, mas o homem descobriu inicialmente que, além de abater um animal em busca de alimento, ele podia usar seu couro para proteção da sua pele, mais frágil. O grande problema dos primeiros modelitos de que se tem notícia era que, de modelitos não tinham nada. Eles deixavam grande parte do corpo descoberta, portanto, era preciso dar-lhes alguma forma. Outro problema é que o couro, ao secar, ficava duro. Para resolver o problema, uma intensa mastigação era feita. É isso mesmo, as mulheres esquimós mastigavam o couro do animal caçado por seus maridos.

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