Diesel e sangue POR MARIA AMÉLIA DE ALMEIDA TELES
"Ao contrário do poeta, não foi exatamente por delicadeza que naqueles nove meses perdi parte de minha mocidade, o que restava dela. A guerra, repito, é nojenta. E o que ela anos tira (quando não nos tira a vida) nunca mais nos devolve."
Joel Silveira em
O Inverno da Guerra
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| A Força Expedicionária Brasileira (FEB) enviou para a Itália, em julho de 1944, 25.300 soldados, conhecidos como pracinhas. Uma vez na península, os brasileiros lutaram várias batalhas contra forças alemãs, entre elas a Batalha de Montese e a famosa tomada do Monte Castelo. Ao final da guerra, mais de 20 mil soldados inimigos haviam sido aprisionados e quase 500 brasileiros mortos. Na foto acima italianos de Montese dão boas vindas aos pracinhas, em 14 de abril de 1945 |
A guerra para este típico representante da atual Wermacht terminou ontem à noite, quando foi feito prisioneiro por uma patrulha brasileira, aqui na frente. É um homem de 42 anos de idade, o rosto rasgado de rugas, os olhos pisados e úmidos, unhas sujas e compridas, as divisas de cabo quase soltas no uniforme batido e cheio de remendos. A bala do fuzil de um pracinha lhe acertou a mão esquerda, que ele agora traz numa tipóia. Os pés estão enterrados em duas lembranças remotas de sapatos - uma confusão de pedaços de mantas cortadas em tiras enlameadas. A águia germânica, no seu casquete, tem uma asa partida.
Quem nos leva até sua presença é o tenente Gustavo Carlos Alexandre Stal, um dos nossos intérpretes. "Fritz" - chamemo-lo assim - acaba de ser interrogado pelas autoridades militares brasileiras, e agora está à disposição dos jornalistas para uma entrevista de alguns minutos. Pergunto- lhe, primeiramente, o que ele pensa da guerra. Fritz responde:
- Nós perdemos a guerra. Todos nós, no Exército, sabemos disso.
E mais:
- Dias atrás, quando Goering nos prometeu a Luftwaff e, alguma esperança chegou para alguns de nós. Mas até agora os aviões não vieram e possivelmente não virão mais.
Ele nos diz que antes da guerra trabalhava nas docas de sua cidade, Bremen. Foi convocado há quatro anos e mandado para a frente russa.
- Passei três anos na Rússia. Estive na Sataraya Russa e recuei depois, com meu batalhão, para a Polônia. Tive dias de licença na Alemanha e depois me mandaram para a frente italiana.
| PASSEIO DEMONÍACO |
De vez em quando, alguém ainda me pergunta: "Seja sincero e confesse: a vida de vocês, jornalistas lá na guerra da Itália, foi uma sopa, não foi? Um passeio."
Até anos atrás a pergunta me irritava profundamente. E me feria. Mas agora pouco ligo pra ela. Limito-me a pensar comigo mesmo que o diabo é testemunha de que não foi um passeio. Muito pelo contrário: sofremos bastante lá nos Apeninos. Medo, frio - muito frio -, desconforto, e aquele constante odor de sangue velho e óleo diesel, que é o cheiro da guerra. E mais o tédio dos longos dias noites em locais inviáveis, sitiados pela neve. Onde o passeio? Onde a sopa?
Ficha técnica
Título: O Inverno da Guerra (da
coleção Jornalismo de Guerra)
Autor: Joel Silveira
Editora: Objetiva
176 páginas |
Pergunto-lhe sua opinião sobre o soldado russo. Ele respondeu:
- Nunca vi o soldado russo brigar. Quando eu estava na frente soviética, era considerado velho e fazia serviço de retaguarda, nos hospitais. Pessoalmente, sempre me dei bem com os russos. É uma gente alegre e forte.
- Quando é que você acha que a guerra termina?
- Pode acabar de uma hora para outra. As coisas na Alemanha andam muito ruins. A Gestapo domina tudo, é verdade, mas a situação pode mudar de uma hora para outra.
- Você é nazista?
- Nunca fui.
- Que pretende fazer depois da guerra?
- Se me mandarem de volta para a Alemanha, começo tudo de novo. Mas quero encontrar uma Alemanha diferente, livre dos nazistas. Hitler foi a nossa desgraça.
- Como é que você passou o Natal? Então os olhos de Fritz fi- caram úmidos. Ele disfarçou e passou a manga do uniforme pelo rosto. Respondeu:
- Eu havia recebido uma carta de casa na véspera. Estava de licença, e na noite de Natal organizei uma pequena festa com alguns companheiros.
- Vocês receberam alguma mensagem ou presentes especiais no Natal?
- Alguns oficiais receberam embrulhos não sei de quê. Nós não recebemos nada.
- E roupas para o inverno?
- Até agora não vieram. Eu, por exemplo, me arrumei como pude. Quando estive me casa pela última vez, em novembro, trouxe de lá um pulôver civil e dois pares de meias de lã. Dias atrás, comprei de um italiano estas calças grossas que visto por cima da ceroula. Disseram que logo que caísse a primeira nevada, seríamos substituídos por tropas especiais de inverno. Muitas dessas tropas já chegaram, aparelhadas para o inverno, mas até anteontem não havia indícios de que iam nos mandar para a retaguarda.
- Que tal a comida de vocês, aqui na frente?
- Não é grande coisa, mas é melhor do que a do civil alemão.
- Como é que os alemães estão atravessando este inverno?
- Falta carvão. Falta também batata. Há dois anos, porém, que o inverno tem sido assim. Não acredito que este de agora seja pior do que o do ano passado.
Meu colega Francis Hallawey, da BBC, perguntou ao cabo alemão o que ele achava dos soldados brasileiros. O cabo respondeu:
- São muito violentos e agressivos. Lá na nossa frente, os tenentes e os sargentos nos avisam diariamente para termos muito cuidado com os brasileiros.
- Hitler já visitou a frente italiana, depois da queda de Mussolini?
- Que eu saiba, não.
- Você ouviu o discurso dele no dia 1º?
- Soube que ele ia falar, mas não escutei. Que é que ele disse?
- Que os alemães devem fazer um pouco mais de sacrifício e que a vitória é certa.
O cabo Fritz não respondeu nada. Sorriu tristemente para o nosso intérprete, tirou o casquete e passou a mão pelos cabelos crescidos e emaranhados.
- Há muitos homens de sua idade nas divisões alemãs da frente italiana?
- Há muitos. Há também muitos veteranos, como eu, da frente russa. Mas as tropas SS geralmente são constituídas de gente moça.
- Qual será o fim de Hitler?
O cabo voltou a sorrir seu sorriso triste e sem vontade. Fez um gesto com a mão, e respondeu:
- Sei lá. Mas se eu fosse ele, me matava.
Dois PMs brasileiros, altos e fortes, entraram na pequena sala e pediram licença ao tenente para levar o prisioneiro. "Fritz" bateu continência para o tenente e fez menção de nos estender a mão. Mas ficou só na intenção. Retirou-se depois, de cabeça baixa, e lá se foi encolhido e friorento entre os dois pracinhas brasileiros.
| PALAVRAS DE ADAGA |
Dizia Manuel Bandeira: "O texto do Joel é maciamente perfurante, como uma punhalada que só dói quando esfria". O jornalista Joel Silveira [1918- 2007] ganharia de Assis Chateaubriant o apelido de "víbora", pela sua visão ferina e crítica, venenosamente destilada em seus textos. Silveira também é freqüentemente citado como maior repórter brasileiro. Em sua carreira, recusou cargos "internos", em nome de sua predileção por se dedicar à reportagem. Em suas declarações, não poupou de considerar ridículos alpinistas, tocadores de cavaquinho e João Gilberto.
Sergipano da cidade de Lagarto, o jornalista mudou-se para o Rio de Janeiro (RJ) em 1937 e lá morou durante toda sua vida. Possui aproximadamente 40 livros publicados. Foi agraciado com os prêmios Machado de Assis (mais importante da Academia Brasileira de Letras), Líbero Badaró, Prêmio Esso Especial, Prêmio Jabuti e o Golfinho de Ouro. Recebeu, ainda, homenagem no Segundo Congresso Internacional de Jornalismo Investigativo, realizado em maio de 2007 pela Associação Brasileira de Jornalismo Investigativo.
Ele não pode comparecer, por problemas de saúde, e foi representado pela filha. Joel Silveira faleceria em agosto. Uma entrevista concedida ao jornalista Geneton Moraes Neto, disponível na íntegra em www.geneton.com.br/archives/000025.html, revela o sarcasmo característico do escritor. Neto perguntou a Silveria: "Se fosse escrever uma autobiografia, que fato vexaminoso o senhor faria questão de esconder?". Ao que o último respondeu: "Uma vez, em Roma, depois da guerra, vi Ernest Hemingway tomando conhaque sozinho num bar que ele costumava freqüentar. Fiquei em dúvida sobre se deveria abordá-lo. Fui ao banheiro remoendo a dúvida. Quando voltei, ele já tinha ido embora. É um dos meus grandes fracassos profissionais. O pior que poderia acontecer seria levar um soco de Hemingway. Nesse caso, pelo menos o lead [abertura de matéria jornalística] estaria garantido". |
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