Crimes insolúveis Mortes e assassinatos inexplicáveis: conheça a seguir os grandes casos que conseguiram enganar os policiais e transformaram criminosos desconhecidos em lendas, apenas por terem desafiado as autoridades
Por SÉRGIO PEREIRA COUTO
Implacáveis e evasivos. Duas palavras que vêm à mente quando estudamos os grandes crimes sem solução da história. A aura de mistério e suspense que cerca esses casos é tanta que mais parecem roteiros de filmes do que casos da vida real, tanto que a maioria deles foi mesmo adaptada para os cinemas. Também por estarmos longe das cenas destes crimes, seus relatos mais parecem com histórias contadas em acampamentos do que com a violência cotidiana nacional.
Porém não se deixe enganar: as vítimas desses assassinos sem nome realmente existiram e até hoje clamam por vingança em relatos que se tornaram atrações turísticas e que fazem a festa de vários turistas que tiveram a oportunidade de conhecer os cenários desses crimes brutais. Convenções de estudiosos dos casos pipocam pela Europa e Estados Unidos e atraem tantas pessoas quanto as similares de ficção científica.
Muitos criminologistas, hoje tão populares entre as pessoas graças à fama de seriados como CSI - Crime Scene Investigation, acreditam que a tecnologia moderna é capaz de revelar os segredos desses casos, como atestam os esforços da escritora norte-americana Patricia Cornwell, que gastou uma pequena fortuna pessoal avaliada em mais de quatro milhões de dólares para poder provar sua tese sobre a suposta verdadeira identidade de Jack o Estripador, considerado o primeiro grande serial killer de todos os tempos. O resultado, que se tornou o livro Retrato de um Assassino, é debatido até a exaustão e desacreditado pela maioria dos ripperologistas (nome dado aos pesquisadores do caso Jack o Estripador. A outra alternativa seria estripadorologistas, não muito sonoro).
Mortes sem solução não são uma novidade dos tempos modernos. Com o passar dos séculos muitos casos insolúveis foram registrados (confira três deles nos boxes). Porém, muitos antropólogos e psicólogos afirmam que este tipo de 'assassinato em série' é um produto de nossos dias. Outros já preferem apenas analisar os fatos para tentar deles extrair a causa particular de tais atos hediondos.
Mas o que teria deixado esses casos sem solução? Incompetência da polícia em identificar o assassino? Sorte do criminoso? O nível de elaboração do crime? Para conhecer melhor esses casos, vamos analisar quatro dos mais comentados de todos os tempos. O leitor poderá, desta forma, exercitar seus dotes de detetive e arriscar seu palpite. Quem sabe a verdade esteja bem na nossa cara e simplesmente não podemos ver...
JACK O ESTRIPADOR (WHITECHAPPEL, LONDRES, INGLATERRA, 1888)
O caso mais famoso de todos se passou quase simultaneamente ao lançamento do livro O Médico e o Monstro, do escritor escocês Robert Louis Stevenson, e de sua primeira adaptação para o teatro, o que lhe conferiu uma aura de mistério infindável. É considerado o primeiro grande caso de um assassino em série, e justamente o fato de sua verdadeira identidade ser um mistério é que suscitou uma grande quantidade de teorias, a maior parte delas tão fantasiosas que geraram uma quantidade de suspeitos enorme a ponto dos pesquisadores do caso escolherem seu favorito. Curiosamente não se sabe nem mesmo se o apelido que o tornou notório para as pessoas foi mesmo dado pelo assassino, já que sua origem, como veremos, dá margem a desconfianças.
O Estripador atacava no chamado East End (algo como zona leste) de Londres, num bairro de classe pobre chamado Whitechappel. Tudo começou com a morte de uma prostituta, Maty Ann "Polly" Nichols, encontrada numa ruela localizada a cerca de 180 metros do hospital de Londres. O modo como foi morta, com a garganta rasgada e alguns órgãos retirados, já prenunciava a selvageria de precisão cirúrgica que marcaria as mortes atribuídas oficialmente ao misterioso assassino.
Quando a segunda vítima, Anne Chapman, foi identificada, o medo começou a crescer entre as mulheres daquela região. Chapman é descrita como uma prostituta em fim de carreira, já com a saúde debilitada. Mesmo assim algo atraiu o assassino, que a selecionou para ser sua segunda vítima. As "extrações" foram ainda mais violentas do que as observadas na vítima anterior.
O mito do elusivo matador de Whitechappel, que havia ganhado a alcunha de Avental de Couro, ganhou a forma como conhecemos hoje após um jornal da região receber inúmeras cartas, supostamente do assassino, assinadas como Jack o Estripador. Essas cartas estão hoje nos Arquivos Nacionais, uma espécie de Arquivos Públicos, e podem ser consultadas pelos interessados.
Todos esperavam com um misto de curiosidade e ansiedade para saber quando a Scotland Yard conseguiria por as mãos no criminoso. Os habitantes do bairro até mesmo organizaram patrulhas particulares para ajudar a polícia. Enquanto isso o Estripador preparava seu novo golpe. Numa mesma noite atacou Elizabeth Stride bem em frente a um clube de cavalheiros. Porém a aproximação de uma carroça impediu que o "trabalho" fosse completado e a vítima teve apenas a garganta cortada (um modo de impedir que houvesse gritos). Ela foi encontrada com um cacho de uvas na mão e alguns doces. Alertados, os homens do clube chegaram a sair de seu estabelecimento e ajudar nas buscas. Porém mais uma vez Jack parecia ter simplesmente sumido, um fato que se torna mais tnotável quando sabemos que, na mesma noite, as tais patrulhas particulares estavam em ação também. O fato de Stride não ter nenhum órgão retirado levou muitos ripperologistas a duvidar que ela foi vítima do mesmo assassino.
Apenas 45 minutos depois de descobrirem Stride, na Mitre Square, em plena Londres, o Estripador atacou de novo. Desta vez pegou Catherine Eddowes e fez seu macabro trabalho. O legista deu pela falta de meio rim, que mais tarde apareceria numa carta recebida por George Lusk, presidente do Comitê de Vigilância de Whitechappel. O pedaço de rim foi conservado "nos espíritos do vinho" (uma maneira vitoriana para se referir ao álcool etílico) e muitos acreditam que se trata do mesmo rim roubado da vítima.
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| Mesmo que o termo serial killer (assassino serial) tenha sido cunhado na década de 1970, o vitoriano Jack, O Estripador foi o representante mais famoso do gênero psicopata. Matou ao menos 5 prostitutas no miserável bairro londrino de Whitechappel e retirou cirurgicamente partes de seus corpos |
O quinto e último crime atribuído ao Estripador foi o de Mary Kelly e foi o único que aconteceu dentro de um quarto e não na rua. O assassino entrou no local pela privacidade do quarto para realizar seu trabalho: grande parte do rosto da vitima foi simplesmente removida, bem como um de seus seios e parte da coxa, além dos intestinos e de seu coração. Um verdadeiro espetáculo que revoltaria os estômagos mais fortes, a julgar pela fotografia da época.
"Minha faca está tão boa e afiada que QUERO VOLTAR AO TRABALHO JÁ, se tiver uma chance"
PRIMEIRA CARTA DO SUPOSTO JACK, O ESTRIPADOR DE 27, DE SETEMBRO DE 1888
MÚLTIPLAS ALTERNATIVAS
Depois deste ataque as mortes atribuídas ao Estripador simplesmente cessaram. Isso levou muitos a crer que ele era mesmo o estranho advogado chamado Montague John Druidd, cujo corpo havia sido resgatado do Tâmisa algum tempo depois da morte de Mary Kelly. Havia uma nota de suicídio, que nunca foi exposta para o público. Druitt, de fato, tinha boas relações com a alta sociedade inglesa e teria freqüentado um colégio de prestígio. Fazia parte de uma sociedade chamada Os Apóstolos, cujos membros vinham das famílias mais tradicionais da época e foram esses mesmos confrades que o acusaram de odiar as mulheres, o que lhe dava um motivo para ser o assassino. A mãe dele havia sido internada com problemas mentais e ele, com medo de que teria o mesmo destino, afogou-se. Para alguns havia uma conspiração em que Os Apóstolos poderiam ter usado sua influência para fazer com que Druitt se matasse, afim de não serem ligados aos assassinatos.
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