Utopia e Ficção Científica: a "geografia real" e os futuros (im)prováveis Criado no século XIX, gênero tornou-se um fértil veículo de especulação do futuro e união com o passado
Por MARCOS LOBATO MARTINS
"A NOSSA IMAGINAÇÃO (...) pode ULTRAPASSAR de muito as grades daquilo que chamamos de ‘REALIDADE’ E ESTABELECER, ALÉM, UMA MULTIDÃO DE MUNDOS. Esses mundos imaginários serão tão consistentes, ou mais, do que o mundo da ‘realidade’, desde que nossa imaginação criadora de mundos seja informada pelo rigor do nosso intelecto. Imaginação rigorosa é a mola mestra da atividade criadora. O mundo da ‘realidade’ não passa de uma criação da imaginação imperfeitamente rigorosa."
VILÉM FLUSSER, FICÇÕES FILOSÓFICAS

Minha geração, cuja infância e adolescência transcorreram nas décadas de 1960 e 1970, assistiu na TV e no cinema a muita ficção científica. De certo modo, minhas expectativas sobre o futuro foram moldadas por séries como Jornada nas Estrelas e filmes como Guerra nas Estrelas. As narrativas de ficção científica proliferaram ao nosso redor. E nelas, ingenuamente, eu procurei respostas para perguntas difíceis: Que é a vida? O tempo e o espaço? O futuro do universo? Poderá haver híbridos de máquinas e homens? E energias prodigiosas que levarão naves aos confins da galáxia, existirão? Para quê realizar viagens muito além do sistema solar? Seremos capazes de conviver com inteligências extraterrestres?
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| Jornada nas Estrelas: O seriado dos anos 60 originou 10 filmes e 6 continuações e instigou o interesse pelas ciências em gerações de crianças e adolescentes |
É difícil medir o tamanho da influência que a ficção científica exerce sobre os seus aficionados, mas ela não é desprezível. Não há dúvida de que a ficção científica incitou gerações a optarem pela carreira científica. Uma indicação disso apareceu na edição de janeiro de 1998 da prestigiada Scientific American. A revista publicou notícia sobre pesquisa realizada com estudantes da Pardue University, cuja conclusão principal foi a de que eles consideraram que os filmes Jornada nas Estrelas foram decisivos para promover seu interesse por ciência. Por outro lado, a ficção científica também exerce impacto preparatório sobre o público e a comunidade científica, no sentido de ampliar o repertório de reações à mudança. Ela faz os leitores e espectadores lidarem com possibilidades que normalmente não seriam consideradas, habilitando-nos a perceber o potencial das novas tecnologias e a encontrar os ambientes em que poderemos conviver com os novos conhecimentos e invenções. A ficção científica molda expectativas do público, não raro irrealistas. Ao incentivar as pessoas a sonhar, a ficção científica produz uma pressão pelo avanço do saber e da técnica, já que pelo menos uma parte desses sonhos tem que ser concretizada.
Então, a ficção científica é mais do que um gênero literário e cinematográfico, cuja popularidade explodiu a partir dos anos 1940 e 1950. Ela é uma força que pode orgulhar-se de ter concorrido bastante para criar o mundo que hoje nos cerca. Afinal, nada acontece sem ser primeiro sonhado. Portanto, é conveniente saber mais sobre a história, os temas e os mundos imaginários que a ficção científica explora, e sua proximidade com as questões da cultura contemporânea.
A FANTASIA FUTURISTA NA MODERNIDADE
Para evitar mal-entendidos, antes de falar a respeito da história da ficção científica, convém delimitar mais precisamente os tipos de narrativa que consideramos integrar o gênero. A ficção científica põe em cena metáforas da ciência e da tecnologia, geralmente em uma narrativa de viagem por espaços-tempos incomuns. Ela é um gênero literário baseado em idéias científi- cas que não tenham sido provadas impossíveis, cujas histórias tentam, dentro de certos limites, respeitar as leis conhecidas da Ciência. Tanto o futuro quanto o passado, a Terra ou outros planetas podem ser os cenários das narrativas de ficção científica. O decisivo é que exista, na narrativa, o exercício de lidar com hipóteses que possuam probabilidade de ocorrer, que não configurem coisas impossíveis e improváveis.
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| Mesmo se tratando de uma narrativa fantástica, A Viagem de Guliver não pode ser considerada ficção científica. Abaixo ilustração de Ferdinand-Philippe d’Orléans |
Conforme a delimitação acima, História Verdadeira e Icaromenipo, narrativas de Luciano de Samósata, grego do século II d. C., não pertencem à ficção científica. Nem as sátiras e paródias de Francis Godwin (1562-1633), autor de O Homem na Lua. Também não é ficção científica as obras Cyrano de Bergerac (1619-1655), Viagem à Lua (que contém as histórias cômicas dos Estados da Lua e do Sol), ou as Viagens de Gulliver, de Jonathan Swift (1667- 1745). Muito menos Voltaire (1694-1778), autor de Micrômegas (história na qual a Terra é visitada por extraterrestres de Sírius e Saturno, que criticam os costumes e instituições dos terráqueos), produziu obra do gênero. A ficção científica é recente, associada à Modernidade ocidental, aos tempos marcados pelo convívio crescente com máquinas e saberes que devassam a intimidade da matéria e da vida.
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