O Nascer das Ruas e Pontes de São Paulo Antes de se tornar uma megalópole, a capital paulistana tinha ares provincianos. Porém, muitos dos problemas atuais já despontavam
Por PAULO DE ASSUNÇÃO

As vias de São Paulo no século XIX formavam uma imensa teia. Ruas que se atravessam, estreitas e tortuosas, marcadas pela irregularidade da largura e cheias de becos. Eram locais privilegiados, onde uma diversidade de indivíduos circulava com os mais diferentes ofícios. Vendedores ambulantes cruzavam o caminho com escravos que carregavam barris cheios dos despejos de dejetos fecais e lixo. Ao cair da noite, a cidade descansava numa esplêndida escuridão. Aqueles que se arriscavam a sair pela noite levavam consigo uma lanterna. Nas noites de luar, o andarilho noturno poderia aventurar-se pelas ruas da cidade, o que não impedia que surpresas e imprevistos acontecessem.
Nos primeiros tempos os caminhos foram sendo construídos de forma espontânea, sem planejamento, ligando a região central aos arredores. A Câmara da cidade, reiteradas vezes, decidiu pela participação dos moradores na construção dos caminhos, os quais se recusavam a participar ou enviar mãode- obra para a realização das obras públicas.
O desenvolvimento da cidade levou a população a ocupar as terras que ficavam além do Tamanduateí, Anhangabaú, Pinheiros e Tietê. Os avanços para o interior e o crescimento de aldeias e povoações exigiram a criação de pontes a fim de facilitar o deslocamento dos moradores dessas regiões para o centro da cidade.
PONTES NA URBE PRIMITIVA
Na região central destacava-se a Ponte do Lorena, sobre o Anhangabaú, que ligava a Ladeira do Piques com a Ladeira da Memória (atual Praça da Bandeira). O caminho que ligava São Paulo à aldeia de Pinheiros era conhecida como Estrada do Araçá (rua da Consolação e Av. Rebouças). Por este trajeto era possível também utilizar uma das vertentes que ia em direção ao Rio Tietê, seguindo para Jundiaí. A ponte existia desde as primeiras décadas do século XVII. Todavia, é durante o Governo de José Bernardo de Lorena (1788 – 1797) que reformas são feitas e a ponte passa a ser conhecida como Ponte do Lorena, passando, após a abdicação de Dom Pedro I em sete de abril de 1831, a ser conhecida como Ponte Sete de abril. Apesar de a pequena ponte ser vital para o desenvolvimento da cidade e caminho obrigatório para aqueles que vinham do interior e da região da aldeia de Pinheiros, ela vivia em reparos
Muitas delas foram construídas de maneira rudimentar nos primeiros anos de ocupação, e no período seguinte, o poder público ocupou-se em mandar fazer e reparar as pontes, como aquela que ficava sobre o Rio Pinheiros, conhecida por Jurubatuba. As condições da Ponte Grande, como era conhecida a que passava sobre o Rio Tietê, não eram diferentes. Reconstruída no século XVIII, por diversas vezes, a ponte sofreu com as inundações.
As pontes periodicamente eram reparadas, pois a circulação de animais e pessoas causava deterioração rápida. Além disso, as chuvas de verão causavam enchentes e enxurradas promovendo erosões do solo, contribuindo para que as pontes ficassem com suas estruturas comprometidas. Nestas ocasiões, o órgão municipal proibia a passagem de tropas e boiadas a fim de preservar as estruturas que haviam restado das inundações.
Pedras utilizadas no calçamento tinham rápida deterioração, quando danificadas.
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| BELLE ÉPOQUE DO TIETÊ: navegabilidade e paisagem inigualáveis mesmo em perímetro urbano da capital paulista |
A NEGLIGÊNCIA COM O CALÇAMENTO
O crescimento da vila e posteriormente da cidade fez com que as ruas existentes fossem mais bem preparadas, bem como a abertura de novas ruas e becos, que facilitavam o acesso dos moradores aos campos e ao litoral. Apesar das melhorias que surgiam pouco a pouco com a pavimentação, Saint-Hilaire observou que o calçamento era mal feito.
Na verdade, era péssimo, feito de pedras irregulares e não oferecendo nenhuma resistência, o que provocava uma deterioração rápida, após ser danificada. A circulação de pessoas e animais fazia com que as condições da via ficassem comprometidas. Faltavam recursos financeiros e técnicos para que as vias fossem pavimentadas de forma conveniente para uso. Além disso, o calçamento danificado, o mato crescido e a sujeira de animais contribuíam para um aspecto desagradável registrado pelos próprios moradores e visitantes.
A Câmara solicitara reiteradas vezes que os proprietários de moradias na cidade cuidassem do calçamento defronte as suas residências. Contudo, nem todos tinham recursos para realizar as obras. As ruas e caminhos que cortavam a cidade eram cheios de valetas e buracos que causavam incômodo aos que passavam, exigindo que o poder público investisse na pavimentação. Desta maneira, o poder municipal solicitou ao governo das províncias adiantamento de recursos para que fossem feitos os calçamentos de proprietários pobres.
O PROJETO DA MODERNIDADE NO SÉC. XVIII
O calçamento da cidade São Paulo, de forma mais intensa, iniciou-se durante o governo do capitão-general Francisco da Cunha Meneses (1782-1786). Durante o seu governo, novas ruas foram abertas na região da Igreja de São Bento em direção aos Campos do Guaré.
João da Costa Ferreira foi o engenheiro responsável pelo calçamento que melhorou as condições de circulação de pessoas e animais. Em primeiro de outubro de 1828, foram fixadas normas pela municipalidade que definiram critérios para o alinhamento, a abertura das ruas, o calçamento, a edificação e reedificação das casas e da concessão poude terrenos. As normas também regulavam sobre os edifícios em ruína, as escavações e os precipícios nas vizinhanças da cidade. Tentava-se desta maneira controlar o abandono de algumas propriedades e a exploração de áreas indevidamente.
| A VISÃO DE SAINT- HILAIRE |
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O francês Auguste de Saint-Hilaire (1779 -1853) foi o viajante que descreveu com mais cuidado algumas pontes da cidade. Por ocasião da sua visita em 1819, ele descreve as pontes que ficavam por sobre o Anhangabaú. A primeira a ser mencionada foi a do Lorena, que dava acesso para Sorocaba e Jundiaí, a qual era quase plana, com parapeitos e sem ornamento e que teria aproximadamente “12 passos de largura por 25 de extensão”. A segunda era a do Açu, que permitia a ligação com a região oeste e considerada a mais bonita. A ponte chamava a atenção por causa dos parapeitos que, segundo Saint-Hilaire, tinha certa elegância arquitetônica. A mesma possuía no acesso, um aclive com cerca “150 passos de extensão e 16 de largura”. A terceira era conhecida por ponte do Ferrão, pois nas imediações havia a chácara de José da Silva Ferrão. Esta ponte dava acesso à estrada para o Rio de Janeiro medindo cerca de “40 passos de comprimento por 7 de largura”.
Saint-Hilaire ao entrar na cidade, provavelmente pela região da atual Rua da Consolação, registrava que as casas eram pequenas e bem cuidadas, passando por uma fonte bonita, depois atravessando a Ponte do Lorena e chegando ao Bexiga. Daniel Parish Kidder por sua vez, observara que as ruas eram “acanhadas e construídas sem um traçado geral”. |
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