Alegorias de Nação e Diáspora As representações históricas e culturais de Cleópatra carregam discursos nacionais e não tocam a verdadeira profundidade do personagem
Por ELLA SHOHAT
Reivindicar uma raça e uma nação específi cas para Cleópatra é sempre um ato relacional que se opõe a reivindicações alternativas. A articulação de identidade nacional se apóia pesadamente numa linguagem simbólica de origem e fi liação, mas sua escrita do passado muitas vezes se confrontou com outras escritas. A própria maneira como a questão da identidade de Cleópatra é posta revela a profundidade de um pensamento estrutural binário: era negra ou branca, africana ou européia, grega ou egípcia, macedônia ou grega. As emoções expressas a favor de qualquer uma única identidade de Cleópatra demarcam uma particular fronteira territorial e/ou cultural. Representações contemporâneas de Cleópatra, em minha opinião, são assombradas por essas dicotomias, que podem ser entendidas como ao mesmo tempo impositivas de práticas hegemônicas excludentes e resistentes a elas. As disputas sobre Cleópatra podem ser lidas, nesse sentido, como alegorias que reinventam identidades nacionais e de diáspora e seu lugar no mapa global.
Durante os anos em que foram produzidos os principais fi lmes sobre Cleópatra, os discursos raciais norte-americanos só permitiam negros em papéis subordinados. No mesmo ano em que Claudete Colbert fez o papel de Cleópatra, ela também atuou como a maternal rainha do lar em Imitação da Vida, servida por uma empregada negra, tipo Aunt Jemima, cuja fi lha, Piola, passa por branca. Na Cleópatra dos anos 1960, entretanto, os negros eram mais visíveis nas extravagantes seqüências de danças e trabalhando como serventes ou escravos — como se o antigo Egito também fosse organizado em torno das modernas hierarquias raciais típicas do Atlântico negro colonia
IRONIA REVERSA
Foi só na década de 1970, quando a cultura popular apropriou e deu voz a ícones do Poder Negro (Black Power) e símbolos afrocêntricos, que uma Cleópatra negra chegou à tela. Sua representação, porém, foi adaptada ao tom paródico do gênero blaxploitation, em geral domínio da masculinidade negra (hétero), no caso, recebendo uma rainha negra contemporânea. No fi lme Cleopatra Jones e na seqüência Cleopatra Jones and the Casino of Gold, a super-modelo Tamara Dobson é a estrela como uma agente da CIA que enfrenta trafi cantes de drogas e o submundo. Enquanto a maioria dos fi lmes do gênero se ocupa da bravura dos negros, aqui a agente especial Cleópatra Jones derrota impérios do mal com seu kung fu, chutando alto e pensando rápido.
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| Cleópatra de 1963 foi a segunda produção cinematográfi ca mais cara da história. Custou 44 milhões de dólares (270 milhões corrigidos) e teve de ser fi lmada em Londres e em Roma. Como a arrecadação não foi além da metade dos custos, por pouco não levou a 20th Century Fox à falência |
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| Capa de Cleópatra, fi lme de 1934 estrelado por Claudete Colbert; negros obtinham apenas papéis secundários |
Esses fi lmes invertem a codifi cação hollywoodiana da cor, brincando com a tendência de associar personagens brancos com o bem e personagens negros com o mal. Atrizes brancas são escaladas para os papéis das adversárias que chefi am cartéis criminosos, como Shelley Wint
ers como a lésbica vestida de couro preto em Cleopatra Jones, ou Stella Stevens como a loura apelidada de “branca de neve” em Cleopatra Jones and the Casino of Gold.
Algumas seqüências de Cleopatra Jones, de maneira bem humorada, aludem à superprodução de Mankiewicz dez anos antes, como quando Cleópatra, com o penteado e cosméticos similares aos de Elizabeth Taylor, pisca para crianças negras na rua, numa alusão à seqüência da apresentação de Cleópatra a Roma que termina com Cleópatra/Taylor piscando para César (e para o espectador). Cleopatra Jones and the Casino of Gold, por sua vez, faz com que a heroína negra mate a vilã loura em seu próprio banho/piscina, uma referência à famosa tomada do banho de Taylor no fi lme de Mankiewicz.
Enquanto que a seqüência da superprodução dos anos 1960 fora projetada como um monumento à beleza e sensualidade de Taylor/Cleópatra, a seqüência do banho de Dobson encena o adeus do poder branco e, em última análise, goza o investimento libidinal do espectador nas normas eurocêntricas de beleza. Os fi lmes de Cleopatra Jones oferecem uma subversão lúdica da fábrica racializada de sonhos de Hollywood, de sua brancura mitologizante, que opera através da glamourização de estrelas brancas em geral e mais especifi camente pela brancura totêmica de Cleópatra.1
A heroína afro-americana é visualmente associada a signos do movimento “Black Power” — cabelo afro, punho fechado, roupas afro. Escalar a alta Tamara Dobson, com seu cabelo afro, cuja presença visual evoca as famosas imagens da revolucionária negra Angela Davis, contribui para essa sensação de desmistifi cação paródica tanto da rainha branca quanto da estrela branca. Dentro do nacionalismo do fi lme, porém, “Angela Davis”, mansa e domesticada, é reconstruída para corresponder à ordem social existente; pois ela trabalha para a CIA, encarnada pelo último patriarca branco, seu chefe. É ele que permite que a forte e sexy Cleopatra Jones resgate seu próprio “Egito” – a comunidade negra. Confl itos raciais e rebelião negra são apropriados como uma saga familiar norte-americana.
A RAINHA EUROPÉIA
Cleópatra tem sido reivindicada não só por nacionalistas negros na diáspora, mas também por diversos outros movimentos nacionalistas. 2 A Grécia e a Macedônia têm disputado Alexandre o Grande, cujo antigo reino no século IV a.C. se expandia além dos Bálcãs, pela Ásia e pela África, e que, simbolicamente, incorpora um glorioso passado nacional. O debate sobre uma Cleópatra puramente macedônia ou grega – descendente de Alexandre – faz parte dos Bálcãs de hoje, região dividida por confl itos étnicos e nacionais. A luta dos Bálcãs pela identidade étnica e nacional está mergulhada em diversas lógicas excludentes.
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