Padre Vieira o príncipe dos Jesuítas Há 400 anos, nascia um jesuíta tão eloqüente que aconselhava o rei português e argumentava com Deus em pessoa
Por MARCOS ANTÔNIO LOPES

Antônio Vieira nasceu em Lisboa, no dia 6 de fevereiro de 1608. Veio para o Brasil com sua família em 1614, com destino à Bahia. Entre a Bahia, Pernambuco e o Maranhão, Vieira passou mais da metade de sua vida no Brasil. Em 1623, à revelia dos pais, entrou para o noviciado da Companhia de Jesus. Em seus primeiros tempos na Ordem dos Jesuítas, o noviço se destacou de tal maneira - pela agudeza de espírito, pelo talento literário e conhecimento do latim - que seus superiores o encarregaram de escrever, em 1626, o conjunto dos sucessos relativos à ordem religiosa - a Carta Ânua -, relatório endereçado ao Geral da Companhia, em Roma. Depois de passar oito anos no Colégio dos Jesuítas de Olinda, recebe as ordens sacerdotais, em 1634.
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| Retrato do Padre Vieira feito logo após sua morte, de autor desconhecido. O livro de sua autoria Clavis Prophetarum, em que ele repousa a mão, só foi publicada no ano 2.000 |
Sua estréia como pregador deu-se na Igreja da Conceição, em 6 de março de 1633. Nessa altura, tinha vinte e cinco anos. No início de 1641 foi enviado a Portugal, na comitiva organizada para demonstrar o apoio dos brasileiros à recém-restaurada monarquia lusitana. Quando chegou em Lisboa, para adentrar a corte do rei D. João IV, já possuía reconhecidos os seus talentos de pregador. Com efeito, na Bahia, tornara-se respeitado como hábil artífice na arte de engendrar boas idéias com belas palavras. Vieira foi recebido na corte no mês de abril de 1641. Em breve tempo tornou-se valido do monarca. A sua escalada foi realmente muito rápida. Para além do virtuosismo da oratória sagrada, não demorou quase nada o reconhecimento de suas demais qualidades, dentre as quais se destacaram as de analista econômico, conselheiro político e diplomata. Em questão de meses, ele se tornara homem de confiança de D. João IV, que o fez pregador régio, confessor da rainha, além de preceptor do príncipe, D. Teodósio. Entre o rei e o clérigo nascia uma amizade sincera e duradoura que terminou apenas com a morte de D. João, em 1656. Durante quase vinte anos, nos tempos de D. João IV e da regência de Dona Luísa de Gusmão - que governou Portugal na fase da menoridade de D. Afonso VI -, Vieira gozou de elevado prestígio. Voltou à Bahia em 1681, após quarenta anos de ausência. Morreu aos 89 anos, em 18 de julho de 1697.
AÇÃO PELAS PALAVRAS
Foi na Bahia que ele descobriu o poder da expressão oratória, ou melhor, o poder da força persuasiva das palavras, principalmente quando pronunciadas do púlpito. Em sua prosa rica e vigorosa, as palavras eram trabalhadas, arranjadas e metaforizadas com tanto engenho, ao ponto de servirem como instrumentos de transformação da realidade. Com Vieira, o sermão passou a possuir a força cortante de uma espada, cuja função era abrir caminho diante das mais difíceis circunstâncias. Os sermões de Vieira pretendem convencer pela energia das idéias, por sua vez expressas por meio de frases sonoras e cheias de efeitos. E ele soube, em mais de sessenta anos de quase incessante atividade intelectual, utilizar a erudição clássica e bíblica ao bom serviço da criação literária. Com Vieira, a eloqüência sagrada atingiu a máxima expressão em língua portuguesa. A maestria do autor nesse campo de atividades levou alguns comentadores de sua obra a compará-lo a outro gigante da eloqüência sagrada: Bossuet, o autor mais destacado da doutrina absolutista do direito divino dos reis.
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| RETÓRICA CLÁSSICA: O bispo francês Jacques- Bénigne Bossuet (1627 - 1704) advogava em favor do absolutismo argumentando que o governo era divino e os reis,escolhidos por Deus. Contemporâneo do Padre Vieira, seu estilo recorria muito mais às estruturas do discurso clássico do que às imagens bíblicas utilizadas pelo português. |
Mas, se as comparações entre os dois eclesiásticos são realmente inevitáveis - viveram no mesmo século, foram defensores do poder régio e grandes estilistas em suas respectivas línguas -, existem diferenças significativas entre ambos. Na concepção de alguns críticos, "Bossuet, principal figura intelectual da Igreja Francesa - o 'último doutor da Igreja' - substituiu, quanto possível, a alegoria bíblica ou a sutileza escolástica por uma oratória que se dirige ao senso comum do público geral contemporâneo e à sua imaginação, e que está muito mais próximo da eloqüência ciceroniana do que da pregação medieval".1 Ao contrastá-lo com Bossuet, António José Saraiva e Oscar Lopes acentuam nessa análise a evidência de que Vieira é autor rico e versátil em suas composições, com destaque para o emprego de metáforas bíblicas e naturais. Acerca desses paralelos freqüentes entre ambos, o historiador português Hernani Cidade argumenta que "Quando se compara Vieira com Bossuet (...) reconhece-se a mais funda gravidade do pensamento deste, o maior bulício vital da imaginação daquele. (...) Bossuet era o tipo do homem de pensamento e pôde sê-lo exclusivamente, num grande país em que tantos estímulos lho expunham em exercício. Vieira era o tipo de homem de ação, e foi para ela, exercida como missionário, político e diplomata, que mil circunstâncias o impeliram".2 De fato, representante dos interesses de Portugal na emaranhada tapeçaria política traçada pelas disputas entre as grandes nações da Europa e, de quebra, aguerrido defensor dos índios do Norte do Brasil contra a exploração desumana que os atingia, levou uma longa e agitada existência. Do Maranhão, foi embarcado à força para Portugal, porque os colonos irados não mais admitiam as intervenções dos jesuítas nas questões de mão-de-obra nas lavouras. Chegando a Portugal, e sofrendo de impaludismo, foi "embarcado" numa outra viagem não menos penosa: o processo inquisitorial a que teve que responder por alguns anos em Coimbra.
Nos célebres sermões, como é natural, Vieira apoiava-se em textos ou passagens bíblicas.
No Brasil da primeira metade do século XVII, os sermões de Vieira constituíam um espetáculo curioso. Assistidos por pessoas de diferentes posições sociais, os sermões atiçavam a imaginação. Nos sermões, como é natural, Vieira apoiava-se, em textos ou passagens bíblicas. Aliados ao estilo barroco, os sermões apresentam componentes clássicos. O principal elemento do classicismo em Vieira é a clareza, a força e, sobretudo, o sentido de unidade, pois, como ele mesmo diz no Sermão da Sexagésima, "O sermão deve ter um só sentido e uma só matéria". De fato, pode-se observar em diversos sermões de sua autoria, um assunto único, ainda que, para isso, ele se utilize de uma vasta argumentação, o que pode embaralhar as vista do leitor desatento.
Em sua retórica, observa-se o uso das mais diversas figuras de linguagem e de pensamento, utilizadas com o fito de tornar atraente um discurso que podia se prolongar por duas ou três horas, ou até por mais tempo. Nesse sentido, toda a arte e a técnica do orador estavam voltadas para certos fins pragmáticos: induzir os ouvintes a um tipo de reflexão que orientasse o fiel a tomar atitudes efetivas contra as mazelas do mundo, que necessitavam de urgente correção, e que dependiam da boa vontade e da ação humana.
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| Pintura de Victor Meireles (1831-1903) retratando as Batalha dos Guararapes,(1648-49) vencidas pelos luso-brasileiros da insurreição pernambucana. As batalhas puseram um fim às invasões holandesas e são o marco de criação do Exército Brasileiro. |
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