MODELOS DO MEDIEVO - SÉC. X - SÉC. XVI Heroísmo a cavalo Como nobres decadentes da Idade Média originaram ideais que resistiram à modernidade e moldaram o Romantismo
POR MARCOS ANTÔNIO LOPES
No tempo das Cruzadas, e bem depois de cessado esse fenômeno histórico de longa duração, a figura do cavaleiro estava ligada ao indivíduo que, pertencendo à nobreza, não herdara bens de família, a não ser os recursos necessários para a aquisição de suas armas, além da dignidade que lhe conferia o direito de sagrar-se cavaleiro. Isso só era possível após um longo aprendizado, que incluía etapas como palafreneiro, pajem e escudeiro de um senhor de expressão no interior da ordem feudal, normalmente um ancião de sua linhagem que, a partir desse rito de passagem, tornava- se seu suserano. Esses fidalgos levavam uma existência apertada no interior da ordem aristocrática feudal. Quando se lançavam à vida aventurosa, faziam-no premidos pelas necessidades de sua condição. As turbulências da juventude feudal têm a sua origem no interior do círculo familiar: “conflito com o pai, conflito sobretudo com o irmão mais velho, herdeiro dos bens paternos. Muitos desses jovens são precisamente filhos mais novos, e essa situação contribui fortemente para o seu vaguear”.1 A condição de secundogênitos em famílias normalmente numerosas mal lhes propiciava os recursos para a aquisição e manutenção de suas armas. Segundo o medievalista francês Edouard Perroy, no século XI uma couraça de cavaleiro custava o equivalente aos rendimentos agrícolas de uma gleba de proporções médias.2 Armar-se cavaleiro e arcar com os custos das peças ofensivas e defensivas de armamento, cavalo apropriado e escudeiro, implicava consideráveis despesas que, no interior da ordem aristocrática, apenas uma minoria privilegiada podia sustentar em sua própria região de origem. Com o tempo, a cavalaria foi tornando-se hereditária, e os grandes cavaleiros passaram a distinguir-se pelos brasões de família.
 |
O cavaleiro de Sayn e os Gnomos, de Emanuel Gottlieb Leutze (1816-1868) |
"A ética feudal, a representação ideal do cavaleiro perfeito, portanto, atingiu uma considerável e duradoura influência. (...) Assim, O IDEAL CAVALEIRESCO SOBREVIVEU A TODAS AS CATÁSTROFES QUE FERIRAM O FEUDALISMO NO DECORRER DOS SÉCULOS. Sobreviveu mesmo ao Dom Quixote de Cervantes, que interpretou o problema da maneira mais perfeita pelo seu brilho."
Eric AUERBACH. Mimesis
VIRIS AVENTURAS VIRTUOSAS
Originadas em grande medida por necessidades dessa natureza, as aventuras cavaleirescas não poderiam deixar de ser a história de roubos, de raptos e de outras tantas ações em que a virilidade virtuosa era o principal elemento de definição. Soi Preux era a palavra de ordem dos cavaleiros franceses na Idade Média. E toda rapinagem cavaleiresca podia ficar encoberta já que ser valente era possuir liberdade de ação para garantir o próprio sustento. “Os valores que fundamentam a ideologia cavaleiresca”, escrevia Georges Duby, “a exaltação da proeza, da rapina, da festa dos sentidos e da alegria de viver, evidentemente são construídos a partir de uma recusa resoluta do espírito de penitência e das renúncias pregadas pelos homens da oração.”3 Naturalmente, o catálogo dos valores morais no interior da ordem cavaleiresca possuía o seu grau específico de complexidade. Nesse sentido, as fronteiras que separavam ou uniam as virtudes eram muito tênues e, em certos momentos, valentia e crueldade podiam adquirir sentidos equivalentes.
A justiça da época não via problemas reais em duelos, roubos e assassinatos, considerados pecadilhos sem relevo quando cometidos por cavaleiros. Aliás, o chamado “grito do sangue” — o duelo — era ilícito aos burgueses. No interior da ordem aristocrática, os nobres julgavam-se merecedores de uma morte heróica, a não ser em casos excepcionais considerados hediondos, como a história de um cavaleiro que assassinou a própria mulher, sendo atirado ao rio dentro de um saco costurado. Nesse caso, o crime foi punido com uma morte considerada indigna. Como lembra Perroy, não há pior castigo para um cavaleiro do que ser tratado como vilão. Conforme explica um escritor do Antigo Regime, Montesquieu, a vilania feria os códigos de honra dos cavaleiros medievais e constituí- se em injúria, a ser lavada com sangue. Apenas os vilões poderiam receber golpes na face, pois somente eles combatiam com o rosto descoberto. Um cavaleiro que tivesse recebido uma bofetada no rosto “havia sido tratado como vilão”.
PÁGINAS :: 1 | 2 | 3 | 4 | 5 | Próxima >> |