Testemunha ocular Da pena ao fuzil Jornalista vive dias cruciais da Revolução Russa, relata sua vivência em livro e se alinha aos bolcheviques
POR JOHN REED
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| Soldados bolcheviques marcham na Praça Vermelha em 1917: Após a queda do Csar, em fevereiro, o governo provisório durou até outubro, quando o exército bolchevique tomou controle e instalou o sistema comunista, fundando a União Soviética |
“Atravessei o rio para ir ao Circo Moderno, onde ia ter lugar um dos grandes comícios populares, comícios esses que se realizavam todas as noites, por toda a cidade, em número cada vez maior. No interior do anfiteatro, simples e triste, iluminado por cinco pequenas lâmpadas pendentes de um fio, apinhavam-se até o teto soldados, marinheiros, trabalhadores e mulheres, ouvindo atentamente os oradores, como se estivessem em jogo suas próprias vidas. Falava um soldado da 548.a Divisão. Tinha uma verdadeira angústia na fisionomia macilenta e nos gestos desesperados: — Camaradas — gritou ele —, os que estão no poder exigem de nós sacrifícios sobre sacrifícios. Mas os que tudo têm nada sofrem. Estamos em guerra com a Alemanha. Podemos consentir que generais alemães entrem para o nosso Estado- Maior? Pois bem, companheiros: estamos também em guerra com os capitalistas. Entretanto, consentimos que eles ingressem no nosso governo. O soldado quer saber por quem combate. Por Constantinopla, ou pela liberdade da Rússia? Pela democracia, ou pelo banditismo capitalista? Se me provarem que estamos lutando pela revolução, marcharei para a frente, sem que seja preciso me ameaçarem com a pena de morte. Quando a terra pertencer aos camponeses, as fábricas aos operários, e o poder aos sovietes, então teremos o que defender, então teremos por que lutar.
Nos quartéis, escritórios, em todas as esquinas, um número incontável de soldados discutia, todos clamando pelo fim da guerra, declarando que, se o governo não tomasse medidas enérgicas para obter a paz, o Exército deixaria as trincheiras e voltaria para casa.
O orador do 8.° Exército disse: — Estamos esgotados. Em cada companhia, os que ainda vivem são poucos. Se não nos derem alimentos, calçados e reforços, daqui a pouco as trincheiras estarão vazias. Paz ou víveres! Ou o governo acaba com a guerra, ou atende às pretensões do Exército...
A seguir, em nome do 46.° de Artilharia da Sibéria, falou um orador: — Os oficiais não querem reconhecer os nossos comitês. Vendem-nos ao inimigo; condenam à morte os nossos agitadores. E o governo, contrarevolucionário, apóia os oficiais... Julgamos que a revolução nos ia dar a paz. Agora, o governo não quer nem que se fale nisso. E não nos dá pão sequer para nos mantermos vivos, ou munições para enfrentarmos os combates...
Circulavam boatos, de origem européia, sobre propostas de paz à custa da Rússia. E as notícias sobre os maus-tratos que as tropas russas estavam sofrendo na França fizeram crescer o descontentamento geral. A exemplo do que já se fizera na Rússia, a Primeira Brigada tentou substituir os oficiais por comitês de soldados e não quis seguir para Salonica, exigindo repatriamento. Foi isolada, sitiada pela fome e duramente bombardeada por pesado fogo de artilharia. Inúmeros soldados ali tombaram.
Em 29 de outubro, na sala de mármore branco com decorações vermelhas do Palácio Marinski, onde estavam sendo realizadas as sessões do Conselho da República, ouvi a declaração de Terestchenko sobre a política externa do governo, declaração que o país exausto e sedento de paz esperava com grande ansiedade.
Um moço alto, elegantemente trajado, barba escanhoada e maxilares salientes, lia, com voz suave, um discurso literário e oco.
Nada de concreto. Os mesmos lugares-comuns de sempre sobre a destruição do militarismo alemão com o auxílio dos Aliados.
As mesmas frases de sempre sobre os “interesses nacionais” da Rússia e algumas observações a propósito das dificuldades criadas pelo nacaz dos sovietes a Skobeliev. Terminou com o chavão costumeiro: — A Rússia é uma grande potência. Aconteça o que acontecer, sê-lo-á sempre. Precisamos defendê-la e mostrar que somos soldados de um grande ideal e filhos de uma grande nação.
Ninguém ficou satisfeito. Os reacionários batiam-se por uma enérgica política imperialista. Os partidos democráticos queriam que o governo fizesse declarações decisivas no sentido da paz.”
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