HIBAKUSHA Os filhos do Átomo Após os bombardeios de Hiroshima e Nagasaki, dezenas de japoneses afetados pela radiação buscaram refúgio no Brasil. Hoje, pelo menos 135 deles ainda vivem no País, mas muitos ainda não conseguiram o direito ao auxílio médico pago pelo governo do Japão
POR RODRIGO GALLO

O clarão atômico visto naquela manhã de 6 de agosto de 1945 cobriu o céu de Hiroshima com fuligem e poeira, e ergueu uma coluna de fumaça de 18 quilômetros de altura. Em poucos minutos, uma bomba lançada por um bombardeio B- 29 da força aérea dos Estados Unidos colocava fim à 2 Guerra Mundial, deixando milhares de mortos e inúmeras outras pessoas afetadas pela radiação. Até hoje, pelo menos 135 desses sobreviventes vivem no Brasil - muitos conseguiram tratamento médico adequado só nos últimos dez anos.
Os japoneses que sobreviveram aos ataques atômicos a Hiroshima e Nagasaki são conhecidos como hibakushas. Muitos desenvolveram tumores e doenças gravíssimas, como câncer, e outros tiveram filhos com problemas de saúde em decorrência da radiação da Bomba-A. Mas não perdem a esperança e, quando possível, ajudam-se para minimizar o sofrimento causado pela radioatividade.
Os hibakushas que continuaram morando no Japão após os bombardeios conseguiram ajuda financeira mensal e tratamento médico gratuito concedido pelo governo do país. Já aqueles que decidiram continuar a vida em outros países sofreram por muito tempo, pois não tinham acesso aos recursos japoneses.

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Junko Watanabe, 65, tinha apenas 2 anos na data do bombardeio de Hiroshima mas se lembra da forte chuva negra radioativa |
O NOVO CONTINENTE
No Brasil, os sobreviventes não tinham auxílio sequer para comprar os medicamentos e realizar os exames periódicos essenciais. A situação começou a mudar apenas a partir de 1984, quando foi criada a Associação das Vítimas da Bomba Atômica no Brasil, com o objetivo de lutar pelos direitos dos hibakushas e, com isso, garantir o direito a tratamento médico aos imigrantes afetados pelas bombas de Nagasaki e Hiroshima. Na ocasião, eram apenas 17 associados; hoje, são 135.
Os hibakushas que decidiram viver em outros países não tinham acesso aos recursos japoneses |
O reconhecimento do direito ao auxílio demorou a se estabelecer. Os primeiros processos favoráveis às "vítimas do átomo" foram liberados apenas em 2004, quando alguns hibakushas no Brasil passaram a receber ajuda em dinheiro do governo do Japão.
O problema é que a Lei de Suporte às Vítimas da Bomba Atômica, datada de 1957 e modificada por um decreto em 1974, restringia os benefícios financeiros e médicos aos hibakushas que continuavam morando no Japão. Quem passasse a residir no exterior perderia o direito ao dinheiro. O texto foi modificado apenas em 2002, quando o governo japonês expandiu os direitos aos japoneses residentes fora do Japão. Só há poucos anos os japoneses residentes no Brasil passaram a usufruir desses direitos.
Hoje, de acordo com o governo japonês, há 3,5 mil hibakushas cadastrados no Ministério da Saúde - eles receberam uma caderneta mediante a qual obtêm tratamento médico gratuito em qualquer parte do Japão, com direito a consultas, exames e, se for o caso, cirurgias. Entretanto, as vítimas são obrigadas a ir até seu país de origem para fazer jus a este benefício, pois não há hospitais e clínicas cadastrados no Brasil.
Segundo a Associação das Vítimas da Bomba Atômica, apenas dois terços dos 135 hibakushas que vivem em território nacional recebem a ajuda financeira. O restante, por morar em regiões mais afastadas, tem dificuldade para viajar a São Paulo e se submeter aos exames. Para conseguir o dinheiro e a carteirinha, é preciso passar por uma avaliação. "Há dois anos, os hospitais Santa Cruz e o Nipo-Brasileiro, ambos em São Paulo, passaram a realizá-la. A vítima da radiação deve preencher um formulário, escrito em inglês ou japonês, e solicitar o benefício", explica a historiadora Yasuko Morita, filha de um casal de hibakushas.
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