GIORDANO BRUNO, O FILÓSOFO NA CONTRACORRENTE O pensamento de Giordano Bruno O filósofo morto pela inquisição por heresia e heliocentrismo, lutou a vida toda contra as intolerâncias clericais e as guerras religiosas
POR MARCOS ANTONIO LOPES
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“Vinha de longa data atravessando e reatravessando fronteiras, afastando cortinas ideológicas, passando da Inglaterra protestante a Paris sob a Liga Católica, e daí à Witenberg luterana e à católica Praga, em busca de centros eruditos aos quais pudesse transmitir sua mensagem”
Frances YATES
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Estátua de Giordano Bruno no Campo de Fiori, em Roma |
A s tentativas empreendidas por alguns expoentes da filosofia em transitar continuamente na esfera das ações políticas, para tentar exercer a sua influência particular e personalizada nas decisões dos governantes, revelam aspectos muito relevantes da cena política, do ângulo da história dos intelectuais. Algumas dessas ligações, sempre perigosas, constituíram cenas trágicas, outras cômicas, mas sempre com implicações importantes para a compreensão do campo do poder. E, tanto mais ainda, no século XVI, que conheceu uma profunda ruptura na unidade medieval do pensamento político, longamente balizada pelas disputas entre regnum e sacerdotium.
Essas ingerências dos intelectuais sobre os príncipes e os tiranos ocorreram em contextos diversos, e em condições não muito distintas: com Platão na Siracusa ao tempo de Dionísio; com Aristóteles na corte de Felipe da Macedônia; com Maquiavel na Florença dos Médici; com Th omas Morus na Inglaterra de Henrique VIII; com Hobbes à época dos primeiros Stuarts (quando foi preceptor de Carlos II por cerca de dez anos); com Bossuet em Versalhes na era de Luís XIV; com o hilariante Voltaire, em suas travessuras e desventuras na corte de Potsdam, quando se prontificou a encarnar o papel de agente civilizador da bárbara Prússia, por suas gestões junto a Frederico II. É bem verdade que Morus havia considerado o serviço prestado aos reis como pouco menos que escravidão, e que cumpriu com muita relutância algumas tarefas a ele conferidas. E parece que quase todos esses intelectuais perceberam que o espaço para a filosofia é bem exíguo no reino das cabeças coroadas. Platão se resignara a admitir a quase inutilidade de o filósofo aconselhar o príncipe, a não ser que o príncipe se tornasse filósofo, no sentido pleno da expressão. Contudo, isso era muitíssimo improvável. Que o diga Voltaire, já coberto de ultrajes, sendo apeado de sua carruagem para uma revista a mando do rei, quando de seu inglório retorno da Prússia.
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O humanismo e o individualismo de Giordano Bruno expressaram um ideal da Reforma, de que os homens se empenhassem na salvação sem necessitar da Igreja |
PROXIMIDADE SUBVERTIDA
Contudo, nenhuma dessas experiências se aproxima da dimensão dramática do processo de Giordano Bruno. De fato, ele encarnou a figura do pensador e do homem de letras que se aproxima do centro do poder com o fito de exercer a sua influência e de projetar as luzes da razão sobre os governantes. Mas, quando se pensa que a filosofia pode ser um instrumento útil para elevar o nível da política, é a política que se serve da filosofia, e com fins nem sempre muito nobres.
Talvez derive dessa confortável, mas quase sempre arriscada proximidade dos filósofos com os monarcas, ao menos até os séculos XVII e XVIII, a evidência de trabalharem na escala dos manuais de aconselhamento moral — o gênero político-literário nascido na Europa nos séculos XII e XIII, e conhecido como “espelhos dos príncipes” —, mesmo muito tempo após essa expressão literária ter deixado de existir como tal. E essa aliança entre a especulação filosófica e a política real, entrecortada por acertos e desencontros, era coisa já muito antiga, até bem anterior aos percalços de Platão, em suas empreitadas na Siracusa do tirano Dionísio. Como é sabido, Platão pretendia instruir o soberano nas mais elevadas virtudes para a construção da cidade ideal. E, nesse terreno, não são raros os casos de velhacaria e esperteza de ambos os lados. Analisando o ziguezague oportunista com que Hegel constituiu a sua filosofia política, o historiador alemão Walter Th eimer recorda: “Hobbes soube pôr-se de bem com Cromwell e com o rei; o liberal Locke, por dinheiro, escreveu uma constituição medieval para uma colônia americana; Kant salvou uma vez a sua posição perante o rei com um ‘kotau’. Os grandes filósofos e doutrinadores políticos também têm fraquezas humanas”.1
GIORDANO ORGÂNICO
Giordano Fillipo nasceu em Nola, perto de Nápoles, numa família de camponeses. Ao ingressar na ordem dos dominicanos, adotou o nome Giordano Bruno. Segundo a historiadora inglesa Frances Yates, Bruno “entrou para a ordem dominicana em 1563, e tornou-se habitante do grande convento dominicano de Nápoles, onde está enterrado Tomás de Aquino. Em 1576, ficou em apuros por heresia e fugiu, abandonando o hábito de dominicano. Daí em diante começou uma vida errante através da Europa”.2 O livro de Yates constrói a figura de um personagem de mentalidade complexa, composta por traços de racionalismo e misticismo, o que parece natural para um pensador de seu tempo.
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