Billie Holiday O anjo do Harlem
POR BILLIE HOLIDAY
“Pedi ao pianista que tocasse Travelin’ all alone. A boate inteira ficou em silêncio.
Se alguém deixasse cair um alfinete, soaria como uma bomba. Quando terminei,
todo mundo estava chorando no copo de cerveja,
e apanhei 38 dólares do chão”
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Acima Foto de 1949 de Eleanora Fagan (1915–1959), mais tarde conhecida como Billie Holiday. Ao lado, retrato da cantora aos 2 anos de idade |
“Mamãe e papai eram só duas crianças quando se casaram. Ele tinha 18 anos, ela 16 e eu 3. Mamãe trabalhava como empregada de uma família branca. Quando descobriram que ia ter um bebê simplesmente puseram ela na rua. A família de papai também teve um ataque quando soube. Eram pessoas requintadas e nunca tinham ouvido coisas desse tipo no bairro deles, no leste de Baltimore.
Mas as crianças eram pobres. E quando você é pobre, cresce rápido.
(...) Eu adorava ir à loja de 5 e 10 centavos em Baltimore comprar cachorros-quentes. Lá nunca serviam os negros. Me vendiam o cachorro-quente se não houvesse ninguém à vista. Mas se me apanhavam comendo aquele cachorro-quente antes de ir à rua, aprontavam horrores para cima de mim, por criar confusão na loja. Eu também adorava meias brancas de seda e, naturalmente, sapatos pretos de verniz. Nunca tinha dinheiro para comprá-los. Mas me esgueirava para dentro da loja, agarrava as meias do balcão e corria como o diabo. Por que não? Não me deixariam comprar ainda que tivesse o dinheiro.
(...) Logo eu tinha dois caras brancos com os quais podia contar toda semana, um na quartafeira, outro no sábado. Às vezes um deles me visitava duas vezes por semana. A madame cobrava 5 em cada 20 dólares pelo aluguel. Isto ainda me deixava mais do que podia ganhar num miserável mês como empregada.
Mas eu não levava jeito para prostituta. Acima de tudo, e por muito bom motivo, eu tinha um medo mortal de sexo. Primeiro acontecera o episódio com sr. Dick. Depois, aos 12 anos, um trompetista de uma grande orquestra negra me desvirginou no chão da sala de visitas da casa de minha avó. Aquilo foi brutal o suficiente para me afastar dos homens por um tempo. Lembro de ter sentido tanta dor que achei que ia morrer. Corri para mamãe, tirei minhas roupas ensangüentadas e joguei fora com nojo.
Com meus clientes brancos era moleza. Tinham mulher, filhos, e uma casa para voltar. Quando vinham me ver, era tudo rapidinho, dinheiro na mão e se mandavam. Eu faturava toda a grana que queria. Mas os negros deixavam você acordada a noite inteira, com aquele papo Está gostoso, querida? e Que tal ser minha namorada?
Quando mamãe e eu voltamos a ficar juntas e achamos um pouso para nós no Harlem; estávamos em plena Depressão. Pelo menos era o que ouvíamos dizer. Depressão não era novidade para nós, sempre havíamos vivido nela. A única coisa nova eram as filas do pão. E foI a única coisa que nos deixou saudades. (...)
Pedi ao pianista que tocasse Travelin’ all alone. Era o que mais se aproximava do meu estado de espírito. E devo ter transmitido uma parte daquilo à platéia. A boate inteira ficou em silêncio. Se alguém deixasse cair um alfi- nete, soaria como uma bomba. Quando terminei, todo mundo estava chorando no copo de cerveja, e apanhei 38 dólares do chão. Quando deixei a boate naquela noite dividi a féria com o pianista e ainda levei para casa 57 dólares.
Saí e comprei um frango inteiro com feijão e subi correndo a Sétima Avenida até a nossa casa.
Depois John Hammond me juntou a Teddy Wilson para outra gravação. Dessa vez recebi 30 dólares por meia dúzia e canções, incluindo I only have eyes for you, Miss Brown to you, I cover the waterfront. Eu não sabia sequer o que eram direitos autorais naqueles dias. Fiquei satisfeita com os 30 dólares. Fui destaque como vocalista da banda de Teddy Wilson, e ponto final. Mas depois de um ano e pouco, quando os discos começaram a ir para a frente, me dei conta de que estavam vendendo porque o meu nome ter se tornado conhecido, tanto quanto o de Teddy, e tentei arrancar mais alguma grana. Mas não consegui. (...)
Minha bisavó era amante de um branco, amásia, concubina, chamem como quiserem. Era também uma simples escrava na plantação dele. Por piores que fossem as coisas naqueles tempos, negros e brancos viviam no mesmo mundo. Era um mundo feito pelos brancos. (...)
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