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As origens do labirinto
O enigma Minos
Um dos símbolos mais antigos da história humana, o labirinto aparece em cantos remotos do planeta e lança um desafio para os historiadores reconhecerem sua verdadeira origem, apesar do mito grego que a cerca

POR SÉRGIO PEREIRA COUTO

ILUSTRAÇÃO: DIEGO FERREIRAMuito do que entendemos hoje sobre os labirintos vem da história do monstro fabuloso e horrível que tinha corpo de homem e cabeça de touro. A lenda propriamente dita conta como Teseu, o herói ateniense, matou o Minotauro.

Minos, o poderoso soberano de Creta, gabava-se não só da glória de seu reino como de os deuses atenderem a todos os seus desejos. Assim, ergueu um altar numa praia para o deus dos mares, Posseidon, e orou para que viesse até ele, do mar, um belo touro, que seria sacrificado em honra dos deuses.

O animal enviado por Posseidon era muito belo. Minos viu-se incapaz de sacrificá-lo e o trocou por outro, de seu próprio rebanho. Os deuses perceberam a trapaça e decidiram que Minos fora longe demais. Assim Afrodite, a deusa do amor, foi encarregada de realizar a manobra que levou ao nascimento do monstro. Fez com que a esposa do rei, Pasífae, se apaixonasse pelo touro vindo dos mares. A rainha viu-se incapaz de resistir ao encantamento perpetrado pela deusa e confidenciou seu segredo a Dédalo, artesão que servia a Minos em sua corte, na cidade de Cnossos. Dédalo resolveu ajudar sua soberana e construiu uma vaca de madeira com interior oco, onde ela pudesse se esconder. Com esse artifício a rainha foi capaz de passar um bom tempo com seu amante bovino sem ser vista pelos súditos. Foi desse encontro que o Minotauro foi concebido.

Maior que a revolta por ter sido traído com um monstro foi o horror de Minos diante do grotesco fruto do encontro amoroso de Pasífae. Ele foi procurar o conselho do oráculo de Delfos, que foi taxativo: o recém-nascido deveria ser escondido. O rei recorreu a Dédalo, que construiu o mais famoso labirinto de que se tem notícia, definido pelos relatos da lenda como “um amontoado de corredores com curvas súbitas e becos sem saída, dos quais nenhum homem descobriria o caminho”. Depois de passar por tantos corredores, quem se atrevesse a lá entrar encontrava o centro, onde o Minotauro aguardava o infeliz que lhe serviria de refeição.

MINOS ESPANCADO POR UMA SERPENTE, DE MICHELANGELO
Detalhe do mural O Último Julgamento, de Michelangelo, na Capela Sistina, dentro do Vaticano. Na pintura, Minos tem uma cobra envolvida em seu corpo, e ele é retratado como o juiz do submundo

TESEU, ARIADNE E O MINOTAURO

A cada nove anos o monstro recebia sete jovens e sete donzelas que eram enviadas por Atenas como tributo, depois de uma derrota num conflito entre a cidade e a ilha. Esse sacrifício ocorreu pelo menos duas vezes. Na terceira, Teseu, filho adotivo do rei Egeu, ofereceu-se ao sacrifício. Assim que o navio ateniense chegou a Creta, Teseu se apresentou a Minos como filho de Posseidon. O soberano desafiou-o a provar o que dizia. Teseu mergulhou no mar, onde foi escoltado por grupo de delfins até o fundo. Lá Anfitrite, a deusa do mar, deu-lhe um anel dourado e uma coroa cravejada de jóias. Quando voltou à praia, levantou os presentes para que todos pudessem ver que era favorecido pelos deuses. O soberano não teve alternativa a não ser concordar com o que parecia uma missão suicida.

O que Teseu não sabia era que a filha de Minos, Ariadne, havia se apaixonado por ele. Por não desejar que o príncipe virasse comida do monstro, ela o procurou com a intenção de revelar um segredo: se o herói a levasse para Atenas como sua noiva, mostraria a saída do labirinto, tal qual lhe fora revelada pelo próprio construtor do local, Dédalo. Teseu ponderou e decidiu aceitar a oferta, recebendo em troca um rolo de linha.

Na mesma noite ele se lançou à sua tarefa. Enquanto mergulhava na escuridão do labirinto o fio o guiava em direção à sua presa. Teseu conseguiu chegar até o centro, onde dormia o Minotauro. Ele o agarrou por trás e o despertou. A luta foi ferrenha e, durante o embate, Teseu quebrou a coluna do monstro e o matou. Depois, bastou seguir a linha para se ver livre de uma vez por todas da tortuosa construção.

Com receio da reação de seu pai quando soubesse que o monstro estava morto, Ariadne convenceu Teseu, juntamente com os demais atenienses do tributo, a abandonarem Creta. Assim, um navio partiu ainda na calada da noite e fez uma parada na ilha de Naxos. Ariadne o ajudara por amor e ele aceitou mesmo sabendo que não tinha a menor intenção de se casar com ela. Quando, alguns dias depois, o navio de Teseu levantou âncora, ele simplesmente aproveitou que Ariadne dormia na praia para abandoná-la ali mesmo.

REPRODUÇÃO
Ariadne de Asher Brown Durand (1796-1886), em óleo sobre tela pintado entre 1831 e 1835. Filha de Minos, Ariadne se apaixonou por Teseu e o procurou para revelar um segredo que mostraria a saída do labirinto
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