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O custo da beleza
"A castanha começa a cair agora (...) nas outras comunidades é no avanço. Avanço é aquele que não tem dono, se a pessoa dorme muito, quando começa a cair o primeiro ouriço de castanha já tem que estar juntando"

POR HELENA LADEIRA WERNECK

WIKIPEDIA
Detalhe de castanheira: extrativismo pode ser sustentável se devidamente controlado por regiões e cooperativas

"Quando meu pai era criança ele se incendiou - naquele tempo as crianças usavam camisão - e ele brincando com a lamparina cheia de querosene derramou no camisão e incendiou o peito que ficou branco como a arraia, o peito dela é branco. Apelidaram ele de Arraia e eu peguei o apelido. (...)

Aramanduba era uma comunidadezinha pequena, o trabalho de lá só era o extrativismo nos castanhais, assim como aqui em Iratapuru. As pessoas formavam uma vila de castanhais, todos saíam das suas casas para trabalhar e trazer a castanha no mesmo dia para as suas casas, assim podia vender para o comprador. Havia os atravessadores também. Lá, era assim como antes aqui no Iratapuru, quando a maioria da castanha era vendida só para o atravessador. (...)

Fiquei lá até os 14 anos, foi quando veio essa empresa Jari para cá. Foi em 1970, eles chegaram aqui em 69 e em 70 já começaram a trabalhar pelo Saracura para fazer plantio. A Jari comprou a fazenda dos portugueses, comprou tudo e eles trabalhavam com desmatamento para o plantio de capim, essas coisas. Veio para o desmatamento, para derrubada, para plantar jarmelina, pinho e agora o eucalipto. As pessoas vinham atrás de emprego para trabalhar.

Era uma oportunidade boa, eu trabalhei seis anos aí nas firmas, aí encontrei o pai da minha esposa hoje, Elizabete, na cachoeira próximo daqui. Ele se chamava Armando Leite dos Santos, já é falecido. Eu disse que queria tirar castanha e ele me convidou para eu subir para cá, eu já era acostumado a tirar, estava com 25 anos. Eu não voltei mais. Vim para cá, para Iratapuru, vai fazer 25 anos. Eu conheci Elizabete dentro dos matos aí para dentro. (...)

Eu não tinha nem idéia do que fazia do óleo. Acabou-se, não tinha retorno, como não tem retorno dos atravessadores, eles pegam, levam a castanha e pronto, acabou-se. A forma de pagamento era como se fosse uma troca, trocar com mercadoria e todo tempo o castanheiro ficava devendo. Até mesmo o povo antigo...eles não tinham idéia, eles queriam saber de ter o açúcar, o café deles em casa. Para eles estava tudo bem, ter uma rocinha, ter a farinha, pegar um peixe ali, não estavam preocupados com as outras coisas que até mesmo eles não tinham. Tinham os filhos que estavam crescendo e que foram casando, os pais já foram pensando em uma mudança: 'Levar meu filho para a escola, levar para conhecer as outras coisas que vai trazer um futuro'.

Eu tenho um filho que foi estudar, esteve em São Paulo há seis meses, mas não quer sair daqui, é filho daqui. Já foi para a capital, já esteve por lá, teve ofertas de emprego, Laranjal, Macapá, e ele não quer, ele quer ficar aqui dentro da mata. Isso é muito importante, se todos tiverem essa cabeça...trazer a informação de fora e pensar em uma coisa, que os pais estão ficando velhos, quem é que vai tomar conta disso aí?

WIKIPEDIA
Casa típica da amazônia brasileira

Nessa época que tinha os atravessadores, o castanheiro acabava endividado. Eu trabalhei muito, eu conheço muito bem disso aí. Muito difícil você trocar de camisa, sempre ficava devendo e não tinha aquele retorno. Hoje a gente está vendendo óleo para a Cognis, que refina o óleo e entrega para a Natura produzir os perfumes. A gente, além de vender o óleo, a gente tem o retorno. Ela criou um fundo para a comunidade e esse fundo está trazendo desenvolvimento para a comunidade. (...)

A castanha começa a cair agora [a entrevista foi realizada em janeiro de 2005], os ouriços já estão começando a cair, só que aqui ela tem um modelo diferente de coleta de castanha de outros lugares. Por exemplo, em Arumanduba, nas outras comunidades é no avanço. Avanço é aquele que não tem dono, se a pessoa dorme muito, quando começa a cair o primeiro ouriço de castanha já tem que estar juntando. Aqui não. A gente espera cair tudo, ninguém mexe, é tudo dividido, cada qual tem as suas colocações, eu tenho a minha, fulano tem a dele, ele tira até no limite dele, a outra fica lá, se eu quiser tirar por derradeiro eu vou tirar por derradeiro a minha. Em outras comunidades não é assim, é no avanço, se a pessoa dormir não tira a castanha.

Aí tem o risco de um ouriço de castanha chegar a bater em uma pessoa, cair na cabeça de uma pessoa e matar, aqui nós não temos esse problema, quando a gente vai coletar a castanha já está tudo no chão, é só juntar.

E aí quebra ela e coloca no paneiro, já vai colocando no paneiro e trazendo no paneiro para lavar na beira do rio e coloca no saco ou no paiol. O paneiro é um cesto, ele tem umas pernas, a gente coloca umas alças nele aqui, coloca na costa e vai embora. Dá para carregar até 70, 60 quilos, tem castanheiro que carrega 90 quilos, 100 quilos. Dizem que o castanheiro é mais burro do que o burro, porque os burros usam cangalha, mas o castanheiro faz a cangalha na costa dele ainda. [Risos]. (...)

SEMENTES DE DÓLAR

De acordo com o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística, a região Norte detém 98,3% da produção nacional de castanha-do-pará - semente da castanheirado- pará (Bertholletia excelsa), árvore nativa da região Amazônica. De alto teor calórico e protéico, é consumida amplamente pela população local. Por causa da casca muito resistente, exige grande esforço manual na extração. Geradoras de divisas no comércio internacional, as castanhas provêm quase totalmente da colheita selvagem, por necessitarem de outras plantas nativas para sua polinização.

As castanheiras têm madeira de excelente qualidade, cuja extração é proibida por lei nos países produtores - Brasil, Bolívia e Peru. Mesmo assim, a destruição ilegal e a abertura de clareiras são ameaças constantes. O Pará é o segundo maior território brasileiro, com áreas indígenas e comunidades remanescentes de quilombos. Nas décadas de 60 e 70, a agropecuária, a mineração e a exploração da madeira receberam incentivos fiscais, o que gerou alternativas para a população. O modelo extrativo tem sido estimulado como forma não predatória de geração de renda em uma floresta tropical.


RECUPERAR PARA TRANSFORMAÇÃO

FOTO: WWF-BRASIL / ZIG KOCKO Sr. Arraia é Delbanor Mello Viana, nascido em 1956, na cidade de Arumanduba, Pará. Criado na selva Amazônica com oito irmãos, aprendeu a conseguir o sustento da família com o extrativismo. Estudou até a segunda série do primário. Foi também garimpeiro e retornou aos castanhais nos anos 70. No rio Iratapuru, casou, fez família, tornou-se líder castanheiro e promoveu mudanças significativas na extração da castanha, junto com sua comunidade. O depoimento dele chegou ao Museu da Pessoa (www.museudapessoa.net) por meio do projeto Memória das Comunidades Natura, que tem o objetivo de registrar e preservar histórias de vida dos consultores e promotores da Natura, assim como de colaboradores, fornecedores e consumidores.

Eu acho que é as coisas que dão certo, se não segurar esse povo que vive na mata, na floresta, esse povo ribeirinho, povo tradicional e os índios lá dentro, eles vão fazer o que na cidade sem ter emprego? A gente tem que segurar esse povo lá dentro da mata, não segurar só, que nem eu falei, os pais, as mães, mas os filhos irem estudar e voltar para a comunidade para trabalhar, porque aí sai. Se procura emprego na cidade, os velhos vão morrendo, vai acabar acabando a comunidade, não vai ficar ninguém."

Quadros e seleção de texto por Faoze Chibli

 

 

 

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