Alfred, o Grande o rei-guerreiro guardião da Inglaterra Lutando contra os vikings e propagando a cultura romana, o rei de Wessex ganhou fama e poder. Hoje é considerado o pai do império britânico
POR ELTON O. S. MEDEIROS
“Para meu venerável e muito pio senhor, Alfred, governante de todos os cristãos da ilha da Bretanha, rei dos anglos e dos saxões, Asser, o ultimo dos servos de Deus, deseja milhares de prosperidades nesta vida e na próxima”. É assim que começa uma das principais e mais antiga fonte a respeito da vida do rei anglo-saxão que viveu durante o século IX, um dos momentos mais conturbados da história inglesa: Alfred o Grande.
A Inglaterra dos séculos VIII e IX foi marcada por uma onda invasora escandinava, descrita pelos cronistas da época como “um grande exército pagão” ou simplesmente “o grande exército”, que encontrou muito pouca resistência pelos antigos reinos de Anglia Oriental, Northumbria e Mercia e seria apenas uma questão de tempo até que os invasores vikings voltassem sua atenção para o reino de Wessex. Quando Alfred ascendeu ao trono dos saxões do oeste, em 871, seu reino estava à beira do desastre numa luta desesperada contra o grande exercito escandinavo. Sob a liderança de Alfred, Wessex lutou e negociou por sua sobrevivência, até a famosa vitória sobre os vikings em Edington em 878. Esta vitória desencorajou o vikings que haviam recém-chegado naquele mesmo ano e aguardavam no rio Tamisa para atacar Wessex. Os vikings decidiram então se voltar para o continente, e enquanto isso, Alfred iniciou um importante e profundo programa de reformas. Ele desenvolveu um novo sistema de defesa do reino e aprimorou a forma de administração do governo. E o mais importante, ele iniciou todo um processo de incentivo e difusão do aprendizado e da escrita, reunindo assim as grandes mentes disponíveis da Inglaterra e do continente. Quando o exercito viking retornou, o sistema defensivo de Alfred foi posto a prova, mostrando sua eficácia. Os vikings se dispersaram por volta de 896, deixando o rei livre para se dedicar ao seu programa de reformas.
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Æthelwulf (795 – 858) rei de Wessex e pai de Alfred. Era profundamente religioso e, em 853, enviou Alfred a Roma, seguindo-o em 855. Quando retornou, um ano depois, teve de enfrentar uma conspiração de seu filho mais velho vivo, Æthelbald, para tomar-lhe o trono. A solução encontrada por Æthelwulf, foi dividir o reino e entregar metade a seu filho |
Foi assim que, a partir das reformas implantadas por Alfred que seus sucessores no século X puderam estender a supremacia de Wessex sobre as demais regiões que ainda se encontravam sob domínio dos escandinavos, resultando assim na unificação e consolidação de um único reino da Inglaterra. Quando observado do ponto de vista puramente político e militar, não há como negar a eficiência de Alfred; quando observado sob seu aspecto cultural, ele foi impressionante. Não é de se admirar que seu nome chegou até nós como: rei Alfred o Grande.
O PRÍNCIPE ALFRED
Segundo nos diz seu biografo oficial, Asser, Alfred teria nascido em 849 em Wantage, região de Berkshire no sudeste da Inglaterra. Ele era o filho mais novo do rei Æthelwulf (795-858) de Wessex com sua primeira esposa, Osburh. Ele possuía quatro irmãos mais velhos: Æthelstan, Æthelbald, Æthelberht, e Æthelred, além de uma irmã mais velha: Æthelswith. A partir do que Asser nos relata, Alfred era o filho favorito de ambos os pais e cresceu quase que exclusivamente na corte com seus tutores e eles. Como a corte não se mantinha numa local fixo, supõe-se que ele tenha viajado com seus pais por todo o reino. Ele reclamaria que durante sua infância não teve professores para lhe ensinar latim e as “artes liberais”; mas apreciava a poesia em inglêsantigo que era recitada ou lida para ele, uma vez que tinha muita facilidade em decorar o que ouvia. A esse respeito, Asser nos relata o episodio da infância de Alfred, quando sua mãe prometeu dar um livro, contendo poemas em inglês-antigo, para qualquer um de seus filhos que aprendesse seu conteúdo primeiro. Alfred teria então levado o livro para um de seus professores e pedido para que ele lesse o livro, e assim ele decorou o conteúdo do mesmo e pode recitá-lo para sua mãe, ganhando a disputa. Ele também aprendeu certos salmos e muitas orações, e tinha suas passagens preferidas anotadas em um pequeno livro o qual carregava sempre consigo.
Entretanto, Alfred não passou toda a sua infância na corte de Wessex. Em 853, com apenas quatro anos de idade, seu pai decidiu envia-lo para Roma, provavelmente crendo que tal viapara ele. Segundo Asser, o pequeno Alfred teria sido recepcionado pelo Papa Leão IV, que o recebeu com grande honra. Dois anos mais tarde, Alfred e seu pai fariam novamente uma viagem a Roma. No caminho eles teriam sido acolhidos na corte de Carlos o Calvo, rei dos francos, e ao retornar para a Inglaterra, o então viúvo rei Æthelwulf levaria consigo Judite, a filha do monarca, como sua nova esposa. Supõe-se que estas viagens até Roma e para a corte carolíngia tenham influenciado profundamente o jovem Alfred. Sua devoção à sé de Roma era indiscutível, o que pode ter influenciado em parte sua escolha pela tradução da Regula Pastoralis do Papa Gregório o Grande. Em relação à corte de Carlos o Calvo, enquanto esteve lá, Alfred deve ter contemplado a quantidade de homens letrados lá presentes, e possivelmente se lembrou disso trinta anos depois quando decidiu ele mesmo chamar estudiosos para a sua corte ao pedir auxilio ao arcebispo de Rheims. Além disso, também é possível que mais tarde Alfred tenha mantido contato com o reino carolíngio uma vez que eles enfrentavam o mesmo problema com os vikings.
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Miniatura do século IX apresenta Carlos II, o Calvo, sendo sacramentado entre personificações do reino da Francia e Gótia |
PARTILHA E REUNIÃO ANTE O INIMIGO
Já em meados do século IX, o reino de Wessex havia expandido sua influência sobre as regiões de Surrey, Sussex, Essex e Kent. Devido as grandes dimensões de seu atual território, Æthelwulf designou seu filho Æthelstan como senhor das terras orientais do reino. Porém, Æthelstan morreria no inicio da década de 850. Pouco antes de ir para Roma em 855, Æthelwulf teria dividido seu reino entre seus dois filhos mais velhos. Desta forma, Æthelbald ficaria com Wessex e Æthelberht com as províncias orientais. Porém, enquanto seu pai e Alfred estavam viajando, Æthelbald conspirou contra o próprio pai para que ele não retornasse à Inglaterra. Mas seus planos falharam, e quando Æthelwulf retornou, fez sua vontade prevalecer após a sua morte, mantendo Wessex com Æthelbald e as províncias orientais com Æthelberht (exatamente como era antes dele ir para Roma). Entretanto, em 860 Æthelbald morreu e Æthelberht assumiu todo o reino até 865. Æthelberht foi então sucedido por seu irmão Æthelred. Durante este período teriam ocorrido certos conflitos dentro da casa real de Wessex (entre Æthelred e Alfred) pela sucessão ao trono, uma vez que Alfred reclamava sua parte na herança das terras do reino de seu pai. Foi estabelecido um acordo, de que os filhos do irmão que morresse primeiro seriam muito bem recompensados e em troca eles deixariam o caminho livre para o tio rumo ao trono. Quando Æthelred morreu, seus filhos ficaram muito desapontados em ver o tio assumir o trono. Futuramente este problema com seus sobrinhos voltaria a tona por meio de novas disputas, mas com a vitória de Alfred e seus descendentes. Estes problemas e intrigas internas pela sucessão do reino perderam a importância frente a um problema muito maior: o “grande exército” dos vikings.

Acima, representação do Papa Gregório, o Grande (540–604), famoso pelos seus escritos e ídolo religioso de Alfred. Ao lado, Carlos o Calvo (823 – 877) rei da Francia ocidental e mais tarde imperador do Sacro Império Romano-Germânico. Era aliado do reino de Wessex na luta contra os vikings, que, além de promoverem invasões nas regiões costeiras, davam suportes a separatistas da região francesa da Bretanha |
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Capacete anglosaxão do século VII cujo dono foi provavelmente o rei dos anglos orientais Rædwald (?- 624) |
As viagens para Roma e para a corte carolíngia influenciaram
profundamente o jovem Alfred
O “grande exército” chegou à Inglaterra no ano e 865 na Anglia Oriental, e em 867 eles rumaram para a Northumbria, e colocaram um rei fantoche no trono deixando-os livres para invadirem Mercia em 867-868. Neste momento Burgred, rei de Mercia, pediu o auxilio do rei Æthelred de Wessex e de seu irmão, o então príncipe Alfred. Apesar da aliança de forças entre Mercia e Wessex, não foi possível um combate contra os vikings, uma vez que eles acabaram se refugiando na cidade de Nottingham. O embate foi decidido por um acordo, e os vikings deixaram Mercia sem que fosse derramada nenhuma gota de sangue. Esta coalizão entre Wessex e Mercia acabou sendo reforçada em 868 por meio do casamento de Alfred com Ealhswith, filha de um nobre de Mercia e cuja mãe pertencia à família real daquela nação. Os vikings retornaram para York em 868 e em 869 eles voltaram até Anglia Oriental, onde o rei Edmund decidiu enfrenta-los militarmente. Entretanto, Edmund acabou sendo derrotado, capturado e finalmente assassinado (o que garantiu a Edmund posteriormente sua canonização e ser conhecido como Edmund, o Mártir). Os vikings permaneceram até 870 em Anglia Oriental, quando decidiram rumar em direção a Reading, em Wessex. Durante 871 Æthelred e Alfred lutaram contra os vikings, obtendo a vitória na conhecida batalha de Ashdown, mas falharam em obter uma vantagem mais decisiva. A situação ficou ainda mais dramática quando um segundo grupo de vikings chegou em Reading e com a morte do rei Æthelred após a Páscoa.
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