Maio de 68 Como uma greve geral organizada por estudantes parou a França e deixou o mundo capitalista atônito durante mais de um mês
POR JOÃO ALBERTO DA COSTA PINTO
Paris, 10 de maio de 1968. No Bairro Latino (Quartier Latin), alguns milhares de estudantes iniciariam ao fim do dia uma marcha de protesto contra as prisões de vários estudantes pertencentes ao grupo Enragés, da Universidade de Nanterre. Pelas ruas do bairro, o grafite “É proibido proibir – Lei de 10/05/1968” prenunciava umas das mais importantes sentenças da comuna estudantil que ali estava para nascer. Ao fim do dia mais de vinte mil estudantes põem-se em marcha pela Rua Gay Lussac para logo se defrontarem com a polícia (CRS – Corpo Republicano de Segurança), estabelecendo-se naquela noite um dos confrontos mais violentos da história da república francesa. As barricadas erguidas com carros e o confronto generalizado dos estudantes com a polícia colocavam nas ruas de Paris o fantasma dos acontecimentos da Comuna de Paris (1871).
Na “noite das barricadas” da comuna estudantil do Quartier Latin inaugurou-se aquela que seria uma expressão emblemática dos grandes conflitos sociais do século XX. No quadro histórico das lutas sociais anticapitalistas os acontecimentos do Maio de 1968 representaram efetivamente a generalização da grande recusa por parte dos estudantes e dos trabalhadores ao modelo social do capitalismo tecnocrático que o mundo via organizar- se na transição da sociedade fordista ao modelo societário da acumulação flexível da sociedade (pós-fordista) toyotista centrada em práticas organizacionais crescentemente tecnocráticas. Das barricadas da comuna estudantil acendeu-se um estopim de protestos generalizados que levou em menos de três semanas a uma greve geral por todo o país o espantoso número de mais de dez milhões de trabalhadores paralisando praticamente todos os setores produtivos da sociedade. Nunca uma potência capitalista estivera sob ameaça tão grave de destruição de suas instituições políticas. Estudantes e trabalhadores em voz uníssona recusaram-se durante mais de um mês a qualquer diálogo com as representações políticas tradicionais nas negociações entre capital e trabalho no capitalismo. Estudantes e trabalhadores generalizaram aquilo que Karl Marx definia como o “poder social”, com a grande recusa do movimento social as instituições capitalistas desabavam a olhos vistos na sua completa vacuidade de sentido histórico. Nem partidos, nem sindicatos, nem o parlamento ou qualquer outra agência governamental podia assumir- se como porta – voz da colossal manifestação social que varria as ruas do país. Da comuna de estudantes e trabalhadores definiram-se práticas sociais de novo tipo, de uma solidariedade radical nunca antes vista nessa proporção e magnitude na história das lutas anti-capitalistas do século XX.
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Foto mostra manifestação de mais de 30 mil estudantes e trabalhadores reunidos em frente à sede da UNEF (União Nacional dos Estudantes Franceses), em 28 de maio de 1968 |
REVOLUÇÃO AUTOGESTORA: A POSSIBILIDADE CONCRETA
O Maio de 1968 representa hoje, quarenta anos depois não apenas a insatisfação de estudantes e trabalhadores com as formas societárias crescentemente burocráticas do capitalismo de então, a data representa fundamentalmente as possibilidades societárias da autogestão generalizada. Representa, portanto, a supressão das práticas institucionais do modo de produção capitalista pela organização social de práticas institucionais de novo tipo, centradas na solidariedade dos trabalhadores, o poder político de novo tipo nascido nessas práticas de recusa definindo-se como poder social. O Maio de 1968 apontou como realidade concreta a sociedade comunista. Esse é seu real sentido histórico do Maio, não uma manifestação estudantil que explodia contra as expressões formais da imaginação e da consciência alienada de estudantes e trabalhadores na sociedade capitalista. Não foi apenas uma “recusa” ou o “é proibido proibir” reclamado contra as instituições da repressão social, o efetivo sentido histórico dos acontecimentos do Maio de 1968 deu-se pelas práticas cotidianas da autoorganização dos trabalhadores e estudantes franceses como a negação absoluta do capitalismo e a afirmação da materialidade concreta da ordem comunista. Como afirmou Maurice Brinton (do grupo inglês conselhista Solidarity, que acompanhou os fatos acontecidos nos primeiros dias da comuna estudantil), daqueles acontecimentos as pessoas souberam que a revolução era possível mesmo sob as condições violentamente repressivas do capitalismo burocrático moderno.
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Ilustração representa reunião do Partido Comunista da França realizada em 1943 |
Um dos grandes mitos revolucionários do Século XX originou-se com as práticas políticas dos bolcheviques liderados por Lênin na Revolução Russa de 1917: o mito da vanguarda e liderança do Partido Comunista na condução do processo revolucionário. Contudo, outras formas de organização da revolução nasceram no próprio processo da Revolução Russa, como aquelas preconizadas pelo Grupo Verdade Operária (Rabotchaya Volia) ao qual esteve vinculado o intelectual marxista russo Alexander Bogdanov, que se suicidou em 1928. Bogdanov e o Grupo Verdade Operária lutaram dentro dos acontecimentos da Revolução Russa por uma outra prática revolucionária: o autonomismo conselhista, isto é, uma forma de gestão social de realização da democracia direta, cujas representações haveriam de se realizar sob o poder direto delegado e não sob o poder delegado de representação tal como nas democracias das sociedades capitalistas.
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O revolucionário bielo-russo Alexander Bogdanov (1873–1928) era o segundo na hierarquia bolchevique até deixar o partido devido a disputas ideológicas com Lenin, em 1908. Dirigiu escolas revolucionárias em Capri e Bolonha e morreu como cobaia de suas próprias experiências com transfusão de sangue |
ESQUERDA ANTIESQUERDA
O autonomismo conselhista foi o mote central das lutas no Maio de 1968. Das práticas políticas de novo tipo o movimento social dos estudantes e trabalhadores lutava pela não separação entre a representação política e as demandas sociais postuladas. Na autogestão conselhista desenhada por aquela experiência o poder procurava realizar- se como ato da sociedade e não como ato político separado da sociedade. Desse modo, as lutas sociais anticapitalistas traziam à sociedade francesa o legado conselhista que sempre fora derrotado historicamente pelos partidos políticos que se diziam representantes políticos da revolução junto ao Estado, como o caso de Lênin, frente à condução político – burocrática da Revolução Russa, mas com uma diferença radical: as práticas do espontaneísmo autonomista dos estudantes e dos trabalhadores franceses generalizaram-se como expressão integral do cotidiano das lutas na sua expressão diária de resistência ao confronto com a repressão policial e na organização da greve geral que diariamente atingia a integralidade do setor produtivo do país. Nesse sentido, o autonomismo conselhista nascido da organização diária dos estudantes e trabalhadores recusava não apenas as instituições da sociedade capitalista recusava também aqueles que historicamente sempre se afirmaram como os “organizadores” da revolução: os sindicatos, os partidos comunistas e todas as demais frações partidárias da “extrema” esquerda (no caso em questão, principalmente os grupos trotskistas e os maoístas, por exemplo). Ângelo Quattrocchi que testemunhou os acontecimentos conta-nos que na noite de 10 de maio, quando o Bairro Latino preparava-se para a grande batalha com a polícia, os jovens trotskistas da LCR (Liga Comunista Revolucionária), saíram em passeata propondo aos estudantes que fossem para casa, “deixando a revolução por conta dos trabalhadores”. O autor afirma ainda que as lideranças desse mesmo grupo, dias depois proibiriam os seus militantes de participar dos debates que se travavam no soviete da Sorbonne.
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