EUA:os três Estados da nação As colônias de puritanos britânicos se transformaram no maior país das Américas e adquiriram um poder jamais visto pela História. Hoje o sistema se desgasta a olho nu. Estaremos no precipício do império estadunidense?
POR CRISTINA SOREANU PECEQUILO
Para alguns, os tempos são de renovação. Outros apontam as mudanças de postura como revelação do iminente declínio, que promete arrastar consigo boa parte da economia mundial. Mas todos concordam que os Estados Unidos enfrentam uma das mais complexas épocas de sua história, na qual se misturam questionamentos sobre sua identidade nacional e papel global, acontecimentos como os atentados terroristas de 11 de setembro 2001 e operações militares no Oriente Médio, revelando um cenário de força e vulnerabilidade. Próximo de completar duas décadas, esse processo une o passado e o presente das tradições norte-americanas em suas três fases, nação, hegemonia e império. O resultado dessa transformação, apesar de surgir como inevitável, ainda é desconhecido.
A CONSTRUÇÃO DA NAÇÃO (1776-1945)
A trajetória dos Estados Unidos de país “normal”, ou seja, que é mais afetado do que afeta as relações internacionais, à proeminência tem como ponto de partida o nascimento da nação. Em 1776, com a independência frente à Grã-Bretanha começam a se estabelecer as raízes do caráter nacional e do poder.
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Retrato de George Washington [1732-1799], feito por Lansdowne em óleo sobre tela, em 1796, encontra-se na National Portrait Gallery. Washington foi o primeiro presidente norte-americano |
A primeira destas refere-se ao sistema político, que se autodefine como um Experimento, visando a construção de uma República livre e democrática, sustentada no individualismo e progresso dos cidadãos. Em sua origem, encontra-se a percepção da diferença, definindo o caráter excepcional da nação em oposição aos regimes europeus. Na política externa, emerge o Isolacionismo em suas duas correntes: a do distanciamento do mundo e a do Internacionalismo Unilateral.
O unilateralismo corresponde à grande regra de conduta de George Washington, primeiro presidente, estabelecendo que os Estados Unidos não devem possuir entangling alliances, isto é, compromissos de caráter permanente, preservando sua margem de manobra plena e seus interesses, projetando-se pela força do exemplo. Apesar de predominar até 1945, essa postura modifica-se a partir de 1830 com a expansão territorial, dando origem ao Destino Manifesto e à associação entre a superação de fronteiras, a prosperidade e a promoção da democracia.
A EXPLOSÃO DO SÉCULO XIX
Internamente, isto culmina na construção do império continental do Atlântico ao Pacífico, de norte a sul, ampliando o número de Estados de 13 para 50 até o fim do século XIX. No campo externo, manifesta-se na Doutrina Monroe (1823), que define o hemisfério como zona natural de influência, à luz do discurso da preservação da identidade das nações (“América para os Americanos”). A definição deste Sistema Americano sela a liderança regional, cujo padrão é o mesmo do século XIX ao XXI, somente com variações táticas, passando da intervenção e interferência à cooperação ao longo dos anos. Essa visão, desde então, traz limitações práticas a iniciativas e triangulações autônomas intra e extracontinentais.
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Pintura da Batalha das Guasimas. Guerra hispano-americana em favor da Espanha, com baixas consideráveis do lado americano |
Mas é em 1898 que ocorre uma inflexão nas relações internacionais. Em um cenário dominado pela Pax Britannica, mas com a ascensão de novos pólos, a Alemanha, a Rússia, o Japão, os norte-americanos começam a atuar decisivamente. Entre 1898-1899, envolvem-se na Guerra Hispano-Americana e na disputa pela China (política de portas abertas).
Essa mudança relaciona-se à ascensão ao posto de maior economia mundial e à vanguarda das inovações produtivas e tecnológicas, atingindo o patamar de um capitalismo moderno, consolidado depois da Guerra da Secessão (1861-1865). A construção de uma sociedade de massas, a urbanização e a imigração também formam a base dessa expansão, assim como o maior investimento nas forças armadas. Porém, esta crescente assertividade não passa em seu primeiro teste: a Primeira Guerra Mundial (1914-1918).
A POLÍTICA EXTERNA GANHA PESO
Desde a entrada tardia no conflito, em 1917, até a rejeição da participação na Liga das Nações em 1920, os Estados Unidos dividiram-se em duas vertentes, revelando a disparidade entre maturidade econômica e política. A primeira destas, a conhecida Internacionalista Unilateral, defendia que o envolvimento deveria continuar tópico. A segunda criticava essa postura por considerá-la minimalista e inadequada ao novo status de poder. Esse ativismo para ordem surge nos 14 pontos de Woodrow Wilson de 1918, incorporados ao Tratado de Versalhes (1919), sustentando-se em três elementos: democracia, autodeterminação e segurança coletiva.
| UM SISTEMA PARTICULAR |
Desde sua fundação, e a implementação da Constituição desde 1789, a República funciona como exemplo para outras, aplicando a divisão Executivo, Legislativo e Judiciário, em um eficiente mecanismo de pesos e contrapesos (check and balances). O federalismo promoveu a descentralização de tarefas entre a presidência e os governos, permitindo elevada autonomia local. Outro elemento são os filtros, a seleção dos melhores, evitando a “tirania da maioria”, que resultou no processo indireto de eleição à Casa Branca, que possui três fases: a intrapartidária, o pleito entre os candidatos dos partidos, ambos com participação popular direta, e a eleição indireta no Colégio Eleitoral, na qual o vencedor nos Estados recebe os votos de delegados (membros escolhidos das comunidades). Esse processo gera, como na eleição de 2000, ganha por George W. Bush, a possibilidade de que um candidato se torne presidente somente vencendo no Colégio, ainda que perca o voto popular. Essa dinâmica e outras legislações, limitam o avanço de forças pequenas e médias, gerando a concentração bipartidária em republicanos e democratas. Enquanto os republicanos defi- nem-se como os representantes da direita, conservadores e defensores do Estado mínimo, os democratas estão à esquerda, priorizando o bem-estar social, a liberdade plena de escolha e identidade. Radicais e moderados são encontrados nos dois partidos, havendo também os independentes, sem um padrão fiel de voto ou defesa de políticas (os swing voters).

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Em razão de seu caráter pacifista e cooperativo (associado ao sentido de missão do Experimento e Destino Manifesto), a experiência wilsoniana foi definida como Idealista, ao considerar a possibilidade de estabelecer compromissos mútuos entre os Estados, por meio de leis e organizações internacionais governamentais (OIGs) superando os mecanismos do equilíbrio do poder. Esses elementos, associados à defesa dos valores e princípios liberais na política e economia, representam a manifestação inicial do Internacionalismo Multilateral e do caráter especial da liderança. Entretanto, nas décadas de 1920 e 1930, essa postura não encontrou respaldo. Sem resolver o tensionamento entre o desejo de “normalidade” e a hegemonia, os norte-americanos retiraram-se dos arranjos de guerra, não dando sustentação ao mundo que eles mesmos se propuseram a construir.
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