Gramsci nas ciências sociais brasileiras Os conceitos-chaves do marxista italiano passaram a fazer parte do vocabulário intelectual e político dos países. No Brasil, suas teorias e escritos aparecem no cotidiano, até mesmo no jornalismo, nos discursos e, principalmente, no debate intelectual por ÁLVARO BIANCHI
Foi por meio de um movimento cultural proveniente da Argentina que o pensamento e a obra de Antonio Gramsci (1891-1937) começaram a circular mais intensamente no Brasil no começo dos anos 1960. Seu nome já era, entretanto, conhecido neste país, principalmente devido à sua condição de militante comunista e prisioneiro de Mussolini. Surpreendentemente, não foi por meio do então Partido Comunista do Brasil (PCB) que começou a ser divulgado e, sim, pelos socialistas que noticiaram, em 1927, no jornal La Difesa, o processo e a condenação de Gramsci por um tribunal fascista; e pelos trotskistas, como Goffredo Rosini, que publicou um comentário mais extenso sobre o marxista sardo no jornal O homem livre, em 1933.
As referências se tornaram mais frequentes no contexto do movimento antifascista e cresceram em número após a publicação do livro de Romain Rolland, Os que morrem nas prisões de Mussolini, publicado em 1935. A partir do final da Segunda Guerra Mundial as referências a Gramsci se fizeram mais frequentes na imprensa do Partido Comunista. Entretanto, foi após a publicação da obra de Gramsci na Argentina que suas ideias se fizeram mais presentes no Brasil. No começo dos anos 1960, Antonio Cândido, Carlos Nelson Coutinho e Leandro Konder fizeram referências ao pensamento filosófico e à crítica literária de Antonio Gramsci.
Coube, entretanto, ao jovem intelectual Michael Löwy, então militante da Organização Revolucionária Marxista-Política Operária (ORM-Polop), um uso mais consistente do pensamento gramsciano para a análise de problemas políticos em um artigo publicado em 1962 na Revista Brasiliense. O jovem autor transitava pelos escritos do período do Ordine Nuovo e pelas notas dos cadernos do cárcere reunidas em Note sul Machiavelli para discutir a relação entre consciência de classe e organização política.
Com esse objetivo, Löwy colocava Gramsci ao lado de outros autores, particularmente de Lenin e Rosa Luxemburg para, a seguir, apresentar Georg Lukács como o autor de uma síntese teórica entre a espontaneidade e o sectarismo identificados nos autores precedentes. Gramsci também foi lido e apreciado pelos católicos, como é possível ver no texto que o exilado austríaco Otto Maria Carpeaux publicou, em 1966, na revista Civilização Brasileira, no qual o marxista italiano era apresentado como um santo martirizado, cujo espírito teria ressurgido após a sua morte.
O mesmo Carpeaux referiu-se a Gramsci no último volume de sua monumental História da literatura ocidental, publicado em 1966, afirmando que "Gramsci ocupa lugar iminente na literatura contemporânea: inspirou parte da literatura italiana do pós-guerra; e demonstrou, pela lição e pelo exemplo, o que poderia e deveria ser a literatura proletária em tempos de crise, guerra e reconstrução da sociedade." Ainda nesse ano, Leandro Konder dedicou ao sardo um capítulo de seu livro Os marxistas e a arte.
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