A contradição da existência

O maior nome da literatura universal de todos os tempos, Liev Tolstói, obteve reconhecimento, sobretudo por sua ampla compreensão do espírito humano, cuja característica principal é a incongruência da existência, que pode ser descrita como uma combinação de bondade e maldade, desejo e fracasso, alegria e tristeza

Por Morgana Gomes* | Foto: United States Library of Congress’s | Adaptação web Caroline Svitras

Liev Nikoláievich Tolstói nasceu em 1828, em Iásnaia Poliana, rica propriedade rural de sua família, na Rússia. De origem nobre e dono de muitos servos, em meio às contradições do seu tempo, tornou-se um defensor das classes mais necessitadas de seu país, na época, uma nação absolutista, extremamente desigual, que congregava a nobreza e o clero de um lado e a grande maioria da população camponesa, que vivia em condições precárias, do outro. Morreu em 1910 e, inevitavelmente, teve seus escritos influenciados pela contradição da existência humana que, graças ao caráter atemporal, conferiu perenidade às suas obras.

 

Por isso, até hoje, muitos leitores se reconhecem nas aflições dos personagens criados pelo escritor russo, que se proclamava como um seguidor de Cristo, mas a partir de uma proposta polêmica que o fez ser excomungado pela Igreja Ortodoxa de seu tempo. No entendimento de Tolstói, a fé cristã ortodoxa e os ensinamentos de Cristo eram incompatíveis, pois a igreja sustentava a injustiça social. Mas tal situação não o impediu de se transformar pela fé, que lhe deu uma nova maneira de enxergar a existência, tal qual já fazia o povo simples da Rússia que, mesmo sob as duras condições, reagia aos sofrimentos da vida com devoção a Deus, conforme nos explica nosso entrevistado, que ainda discorre sobre a importância do grande escritor russo na atualidade.

 

Leituras da História – Qual a importância de Liev Tolstói para a literatura tanto russa quanto mundial?

Rubens Figueiredo – O ânimo questionador de Tolstói, de fato incansável, levou-o a formular reflexões de grande abrangência e alcance histórico. A circunstância de tais indagações terem tomado, muitas vezes, forma literária e ficcional não eximiu a própria literatura de ser, também ela, objeto dos mais incisivos questionamentos, da parte do escritor. Ao mesmo tempo em que construiu algumas das obras mais profundas e abrangentes da história da literatura, Tolstói submeteu-as, como fez também com a arte em seu conjunto, a críticas e dúvidas incisivas, coerentes, livres, e que continuam a fazer todo sentido hoje em dia, até mais do que muitos de nós gostaríamos de admitir.

 

LH – Quando e por que nasceu o sonho de fraternidade total, que Tolstói alimentou, junto ao irmão, desde a infância? 

Figueiredo – À luz do que Tolstói escreveu efetivamente, eu não creio que faça sentido dizer que houve esse tal “sonho de fraternidade total”. As conversas com o irmão, quando Tolstói era adolescente, o marcaram, de fato. Mas foi um acontecimento entre outros tantos, todos eles objetos de amplos questionamentos e desdobramentos contínuos. A questão real, constante, premente e explícita em seus escritos, é a inconformidade com as injustiças e com os mecanismos que as justificavam e as encobriam.

 

Tolstói em sua fazenda, junto ao filho, cachorro e mulher, retratados entre 1870 e 1890 | Foto: United States Library of Congress’s

 

LH – Em uma época em que os proprietários da terra também eram os donos dos camponeses que trabalhavam nelas, o que levou Tolstói, homem de origem nobre, voltar-se contra o governo e a Igreja Ortodoxa a favor das classes menos privilegiadas? 

Figueiredo – A desigualdade na Rússia tsarista era tão acintosa que, mesmo entre as camadas mais privilegiadas da elite, havia um amplo movimento intelectual de caráter crítico, que exprimia sentimentos que iam desde o simples incômodo até a franca revolta. O levante dos decembristas de 1825, promovido exclusivamente por integrantes da elite e que marcou a geração de Tolstói, é uma expressão dessa resistência. No geral, trata-se de um processo que se desenvolveu e se expandiu, gradualmente, para outras camadas sociais. De um lado, isso se exprimiu na forma de um contínuo debate, ou polêmica, que enriqueceu e revigorou a literatura e a cultura russas. De outro lado, redundou em movimentos revolucionários com raízes profundas na sociedade, que desse modo alcançaram o século 20. Tolstói faz parte desse processo histórico e não constitui um caso isolado.

 

LH – Por que ele usou e abusou da linguagem religiosa em suas obras?

Figueiredo – Tolstói a usou porque era assim que a população das camadas mais oprimidas registrava seu saber e exprimia sua perspectiva de história e sociedade. A exemplo de muitos intelectuais russos, ele buscava alternativas para o modelo de progresso que o Império Russo havia adotado, ou aceitado, e que vinha pronto, em uma espécie de pacote, da Europa rica para o seu país. A rigor, tratava-se da introdução acelerada das relações capitalistas na Rússia, um verdadeiro trauma histórico na sociedade local do século 19. As ricas tradições de vida comunitária que vigoravam entre os camponeses russos, formas culturais e sociais que remontavam há séculos, inspiraram em muitos intelectuais a ideia de que dali poderia provir uma alternativa mais humana, do que aquela imposta pelos europeus ricos e colonizadores. Foi justamente com certos grupos de camponeses que haviam adotado formas mais radicais de vida comunitária que Tolstói assimilou a noção da rejeição absoluta da violência e, em consequência, a estratégia de resistência passiva a ela. Tratava-se, a meu ver, de reagir à violência sem violência.

 

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Adaptado do texto “A contradição da existência”