A contribuição da Universidade

O desenvolvimento da sociedade deve ser entendido em suas dimensões sociais e econômicas e, a partir da Idade Média, a universidade se tornou uma das mais significativas instituições nesse processo de transformação

Por José Calixto de Souza Filho* | Foto: Reprodução / mnstate.edu | Adaptação web Caroline Svitras

O papel da universidade

Desde sua criação, há um pouco mais de nove séculos, até os dias atuais, o papel da universidade tem sido muito debatido. Nascida, primeiramente, como um centro de debates acadêmicos sobre os dogmas da igreja, sobretudo com o objetivo de interpretá-los, ela não criava novos conhecimentos, apenas reproduzia os já existentes.

 

Wilhelm von Humboldt | Foto: Reprodução / oil-painting-portrait.com

Essa era a linha de ação da Universidade de Paris, surgida em 1170 (e, em 1970, dividida em 13 universidades separadas), a universidade dos professores que, por sua vez, era contemporânea da Universidade de Bolonha (fundada em 1088), que se caracterizava como sendo a dos estudantes.

 

Mas, ao longo do tempo, a evolução da sociedade exigiu a transformação dessa instituição, momento em foi criado basicamente dois modelos: o idealista e o funcional. O primeiro era o modelo alemão da Universidade Humboldt de Berlim, fundada em 1810, pelo linguista e educador liberal prussiano Wilhelm von Humboldt (1767-1835), cujo foco era totalmente voltado para a ciência pura. Fundamentado no intento da autonomia institucional, esse modelo estabelecia como eixo principal a pesquisa. Já o segundo é representado pela universidade francesa que, por sua vez, era voltada para produção de conhecimento tecnológico com ênfase no atendimento das necessidades do país.

 

A partir desses dois pressupostos, podemos discutir a autonomia da universidade, sua relevância como produtora de conhecimento e como esse conhecimento tem contribuído para o desenvolvimento do homem, entre outros objetivos, para promover uma reflexão sobre o esforço desse tipo de instituição burocrática para o desenvolvimento da sociedade.

 

A autonomia da universidade

O ideal da autonomia fica evidente quando Wilhelm von Humboldt, em seu tratado Sobre a Organização Interna e Externa das Instituições Superiores de Berlim, expressa-se da seguinte forma:

 

“Uma vez que estas instituições só cumprem sua finalidade ao realizarem a ideia pura de ciência, os princípios mais importantes de sua organização se encontram na autonomia e na liberdade.”

 

Apesar desse posicionamento, o pensamento do educador prussiano apresenta uma contradição em relação à liberdade da universidade, quando coloca para o Estado a obrigação de mantê-la. Indaga-se, então, se existiu realmente a autonomia da universidade? Ou ela é apenas um ideal? Independentemente da resposta, sabemos que essa suposta autonomia está intimamente ligada a dois fatores: o Estado e o mercado.

 

Universidade Humboldt, Alemanha | Foto: Reprodução / pt.wikipedia.org/wiki/Ficheiro:080110_uni_berlin.jpg

 

Tanto um quanto outro, no transcorrer dos séculos, têm interferido na forma da instituição transmitir e produzir conhecimento. No que se refere ao Estado, verifica-se que essa dependência se faz presente desde o nascimento da universidade na Idade Média, época em que ela atendia aos interesses do Estado como diz o professor Carlos Tunnermann Bernheim (citado por Cristovam Buarque, em A Aventura da Universidade, pg. 23), um dos intelectuais mais respeitados da América Latina na atualidade:

 

“Em 1431, a Universidade de Paris encarregou-se de organizar o processo e a condenação de Joana D’Arc. Mais tarde, condenou a reforma protestante e recusou entrar no humanismo renascentista. A inquisição espanhola proibiu o estudo da anatomia. Em 1624, o parlamento de Paris proíbe, sob pena de morte, discutir Aristóteles. Mais tarde, condenou-se o cartesianismo. A Universidade de Leyden, nos Países Baixos, vê-se obrigada por lei a aceitar Aristóteles, como única autoridade reconhecida. Ficava, além disso, terminantemente proibido mencionar o nome de Descartes, Francis Bacon.”

A interferência do Estado nos assuntos da universidade

A citação de Tunnermann Bernheim deixa à mostra a ingerência do Estado nos assuntos da universidade. No entanto, essa intervenção ainda pode assumir a forma direta ou indireta. O melhor exemplo de intervenção direta é o da universidade francesa do século 19, estabelecida por Napoleão Bonaparte (1769-1821) para fornecer quadros para o Estado francês divulgar a cultura e os valores da sociedade francesa. Já pela forma indireta, o Estado exerce o seu poder por meio da legislação, das normas específicas que regem o sistema educacional de um país.

 

Os exemplos até aqui colocados parecem indicar que somente regimes autoritários interferem na liberdade das instituições universitárias, visto que as palavras de Tunnermann Bernheim citam situações ocorridas em Estados absolutistas do período da Renascença e do Império Napoleônico. Mas, na atualidade, os regimes democráticos também transferem para a universidade os anseios da sociedade que os sustentam.

 

Tais anseios, normalmente de ordem econômica e social, pressionam as instituições a produzirem conhecimentos capazes de suprir as novas necessidades que são requeridas. Porém, como essa pressão surge de fora para dentro, ela também coloca em crise o modelo existente. Observe como essas duas colocações revelam de maneira precisa essa pressão.

 

A primeira delas é dos autores Renaut Michel e Ronaldo Rangel, que na obra Um Novo Padrão de Acumulação, deixa claro que “é a sociedade que modifica a universidade e não o contrário, mas a sociedade só se modifica enquanto suas instâncias (entre as quais a universidade) também se modificam.”

 

A segunda, por sua vez, é de Cristovam Buarque. Ele concluiu que “a revolução da modernidade passou pela universidade, que consolidou a liberdade da ciência em relação aos mitos e normas religiosas. Mas a universidade não se transforma, e, mais uma vez é superada pelos acontecimentos. Em Paris, a Sorbonne é fechada depois da revolução de 1792, pela incapacidade de acompanhar as exigências do mundo do liberalismo, do capitalismo, da busca pela igualdade, do pensamento livre. A universidade já começava outra vez mostrar sua incapacidade de acompanhar a dinâmica do mundo”.

 

Carlos Tunnermann Bernheim | Foto: impreso.elnuevodiario.com.ni

 

Dentro dessa lógica, podemos entender o movimento de l918, que alterou a forma de organização da universidade argentina, e o movimento dos estudantes franceses de 1968 que, de maneira semelhante aos argentinos, exigiu mudanças parecidas. Portanto, dá para verificar que os governos democráticos estabelecem padrões de avaliação que interferem indiretamente na autonomia universitária.

 

Quando se utilizam dessas avaliações para distribuir verbas públicas, eles também determinam ou direcionam o modo de transmitir e produzir conhecimento e, mais ainda, a forma de distribuí-lo. Por conseguinte, a distribuição do conhecimento pode privilegiar determinadas camadas da sociedade, gerar o poder político, econômico e social das classes sociais e a organização do Estado.

 

Adaptado do texto “A contribuição da Universidade”

Revista Leituras da História Ed. 64

*José Calixto de Souza Filho é economista, professor universitário, mestrando em docência universitária pela Universidade Tecnológica Nacional (UTN) de Buenos Aires, Argentina, palestrante de temas econômicos e autor do livro Economia Não É um Quebra-Cabeças.