A dança da morte

Apesar de parecer lenda, esse episódio aconteceu de fato e foi amplamente documentado por autoridades locais, igrejas e médicos da época

Por Morgana Gomes* | Foto: | Adaptação web Caroline Svitras

 

Detalhe da gravura de Henricus Hondius (1573-1610) baseada em desenho original de Peter Brueghel, que teria testemunhado um dos surtos de dança subsequentes, em 1564, na região de Flandres | Foto: Reprodução/bruxel.orgk

O ano, 1518. A cidade, Estrasburgo, Alsácia, ainda parte do Sacro Império Romano – atualmente França. A desencadeadora? Uma mulher chamada Frau Troffea que, em meados de julho, saiu pelas ruas, dançando loucamente, sem esboçar nenhuma expressão de prazer. Contudo, seus gestos compassados se tornaram responsáveis por um dos fatos mais bizarros da história: a epidemia de dança.

 

Em seis dias de atividade quase que ininterrupta, em meio a desmaios rápidos de exaustão e retorno imediato aos movimentos, Frau morreu, provavelmente, com os sapatos encharcados de sangue. Algumas versões do episódio dizem que, após esse tempo, ela foi levada para um santuário de cura, mas não há provas sobre isso, principalmente porque nem mesmo um maratonista teria um preparado físico tão grande para aguentar tamanha empreitada. De qualquer forma, o curto período de tempo foi suficiente para contagiar outros habitantes da cidade, que também aderiram à dança. Documentos mostram que, em uma semana, já havia 30 deles fazendo passos cadenciados nas ruas de Estrasburgo. Em cerca de 30 dias, o número de participantes do estranho episódio, que se desenrolou debaixo do sol de verão do Hemisfério Norte, aumentou para cerca de 400 pessoas.

 

Diante da situação inusitada, tanto as autoridades locais quanto os médicos diagnosticaram “sangue quente”. Mas em vez de prescreverem, como era de costume, sangria para minimizar o problema coletivo, eles optaram por estimular a dança como forma de cura. Para tanto, eles contrataram músicos, improvisaram palcos e convidaram dançarinos especializados para auxiliar os contagiados, que continuavam dançando involuntariamente, apesar do desespero estampado em suas faces e dos pedidos de ajuda para que pudessem cessar com os movimentos corporais.

Estrasburgo em gravura de 1587 | Gravura: Reprodução/ubs.sbg.ac.at

O resultado do tratamento foi trágico. Segundo relatórios médicos, muitas pessoas morreram de desidratação, exaustão, ataques cardíacos e derrames. Lendas dizem que os poucos sobreviventes – se é que houve algum – foram colocados a bordo de vagões e encaminhados para santuários de cura. Depois de quase dois meses de loucura, a tal epidemia começou a retroceder.

 

Embora curioso, o evento de Estrasburgo não foi o primeiro da História – problema idêntico já tinha ocorrido no século 12. Mas, desde então, algumas hipóteses foram levantadas para explicar o fenômeno. Entretanto, a maioria delas acabou descartada.

 

 

Hipóteses, apenas hipóteses…

Entre as especulações, uma que perdurou bastante tempo sugeriu que o evento estava associado ao possível consumo e um fungo altamente alucinógeno que crescia em meio ao centeio. Porém, se a explicação fosse realmente essa, de acordo com especialistas, o estado de alucinação não teria durado tantos dias.

 

Outra suposição, provavelmente levantada por seguidores da religião oficial, dizia que os dançarinos eram adeptos de uma seita herética. No entanto, quando os documentos da época começaram a ser analisados, ficou claro que os dançarinos estavam visivelmente perturbados.

Gravuras do artista Henricus Hondius (1573-1610) baseada em desenho original de Peter Brueghel, que teria testemunhado um dos surtos de dança subsequentes, em 1564, na região de Flandres | Foto: Reprodução/bruxel.orgk

O certo é que por 490 anos o episódio ficou sem uma explicação lógica. Mas, em 2008, o historiador John Waller, da Universidade de Michigan (Estados Unidos), descobriu certa ligação entre as epidemias que tinham acontecido ao longo da história e o possível motivo da dança da morte de Estrasburgo.

 

 

Uma elucidação mais plausível

Segundo Waller, a dança da morte e outras epidemias semelhantes sempre ocorreram após grandes provações, desastres naturais, pestes etc. Ao vivenciar tais situações, as pessoas ficavam – e ainda ficam – psicologicamente afetadas.

 

No caso da epidemia de 1518, uma série de doenças, como varíola, sífilis, lepra e até uma nova enfermidade conhecida como suor inglês (doença respiratória epidêmica, provavelmente causada por um hantavírus, que matou cerca de 3 milhões de pessoas somente na Inglaterra entre 1485 e 1551, enquanto fazia milhares de vítimas por toda Europa) havia varrido a região. Além disso, ainda havia a fome que levou muitos à mendicância e uma antiga lenda cristã sobre São Vitor (também chamado de São Vito ou São Guido), um siciliano martirizado em 303 d.C., que, caso fosse provocado, jogaria pragas no povo, entre as quais uma para que as pessoas dançassem compulsivamente até a morte.

 

Como todos esses fatores eram estressantes demais para qualquer ser humano já fragilizado, após estudar os registros históricos, notas médicas, sermões da igreja, crônicas locais e regionais e até mesmo comunicados emitidos pelo conselho da cidade de Estrasburgo, o historiador chegou à conclusão de que houve uma histeria em massa que levou muitos à morte.

 

 

Doenças sociais

Embora o episódio da dança contínua pareça muito estranho, durante o período medieval, houve pelo menos sete outros casos de histeria coletiva na mesma região. Depois, já em 1840, o evento se repetiu em Madagáscar (ilha africana). Em janeiro de 1962, na Tanzânia (pais da África Oriental), deu-se uma nova epidemia, dessa vez, de riso, que se prolongou por 18 meses (no início, as crianças começaram a rir sem motivo aparente na escola, depois contagiaram os pais, os vizinhos e, em pouco tempo, milhares de pessoas já estavam rindo, em meio a dores, dificuldades respiratórias e ataques de choro).

Capa do livro escrito pelo historiador John Waller | Foto: Reprodução/ecx.images-amazon.com

Todos esses casos forneceram subsídios para Waller fundamentar sua tese, que resultou em um livro de 276 páginas, intitulado A Time to Dance, a Time to Die: the Extraordinary Story of Dance Plague of 1518, publicado em 2008 (ainda sem tradução para o português). No entanto, conforme afirma o médico epidemiologista Timothy Jones,  professor clínico assistente de medicina preventiva da Faculdade de Medicina da Universidade de Vanderbilt  (Nashville, Tennessee, Estados Unidos), os surtos de doenças psicogênicas são suscetíveis de serem comuns e muitos passam despercebidos. Dúvida dessa informação? Então, preste atenção em alguns casos ocorridos no fim do século 20 e no início do século 21:

 

  • Região do lago Tanganyika, Tanzânia, África, 1963: diversas garotas de um internato começaram a alternar riso e choro histericamente. Em pouco tempo, 95 das 159 alunas tinham sido atingidas pela praga e a escola teve que ser fechada. Enviadas de volta para seus vilarejos, elas espalharam a epidemia entre outras crianças e adultos, que começaram a rir descontroladamente. Apesar de períodos curtos de calmaria, o problema durou quase oitos meses. Exames de sangue e análises microscópicas não apontaram uma causa biológica para a síndrome que, curiosamente, não atingiu adultos alfabetizados.

 

  • Ilha de Colares, Pará, Brasil, 1977: quase no fim do ano, surgiram relatos sobre luzes vindas do espaço para sugar o sangue humano. Os moradores locais ficaram impressionados e, rapidamente, surgiram várias pessoas que começaram a dizer que haviam sido perseguidas. Entre elas, mais de 80 reportaram sequelas físicas do que seriam ataques de ETs. A Aeronáutica destacou oficiais para investigar o caso que, quatro meses depois, foi encerrado.
Aurora Fernandes, suposta vítima de Colares, sendo examinada pelo doutor Orlando Zoghbi. No detalhe, os ferimentos sofridos | Foto: Daniel Rebisso
  • Melbourne, Austrália, 2005: em 21 de fevereiro, uma funcionária do aeroporto local desmaiou, junto à escada rolante. Em seguida, outras duas mulheres também desfaleceram. O ar-condicionado foi desligado por medo de um atentado com gás, mas não adiantou nada. Mais pessoas passaram mal e 57 foram levadas para o hospital. Porém, não foi detectada nenhuma ação de agente tóxico. No fim do dia, o mistério foi revelado: uma parede e um poste pintados recentemente exalavam cheiro de tinta fresca. Ambos fizeram com que as primeiras mulheres tivessem enjoo. Posteriormente, os discursos que se seguiram de boca em boca enfatizavam gás tóxico, perigo, química, entre outras preposições. Portanto, o disse me disse foi suficiente para induzir uma descompensação coletiva.

 

  • Cidade do México, México, 2006: o surto se iniciou em outubro e atingiu meninas de um internato católico que, ao mesmo tempo passaram a ter fraqueza, dificuldade de locomoção, febre, náuseas e desmaios. No retorno das férias, o mal se espalhou ainda mais. No total, 600 das 3600 internas tiveram sinais da doença que, segundo as autoridades, não tinha nenhuma causa orgânica.

 

  • Itatira, Ceará, Brasil, 2010: no início  de junho, após uma suposta visão de um colega morto, dezenas de jovens começaram a passar mal em uma escola. Entre eles, muitos entraram em transe e tiveram que ser levados para o hospital.
Em julho de 2011, 50 alunas da escola do primeiro ciclo Gabriel Kwanhama também desmaiaram sem explicação aparente | Foto: AP
  • Zimpeto, Maputo, Moçambique, 2010: entre maio e junho, 71 alunas da Escola Quisse Mavota perderam os sentidos durante as aulas. Em um único dia, foram 25 casos. As primeiras hipóteses levantadas pela direção do colégio foram anemia ou desnutrição. Mas, desde o início, o Ministério da Saúde sustentava ser algo psicológico. De acordo com o que a psiquiatra Lídia Gouveia (na época, diretora da Seção de Saúde Mental) disse na ocasião, “o quadro de medo e de ansiedade [das meninas] é muito marcante. O que elas têm, realmente, são manifestações de pânico”. Ainda segundo a médica, em vários casos não houve sequer desmaio, mas apenas a perda momentânea dos sentidos. Apesar desse episódio, na África, epidemias semelhantes são bem comuns. Na foto, por exemplo, 50 alunas da escola do primeiro ciclo Gabriel Kwanhama desmaiaram em julho de 2011 sem explicação aparente.

 

  • Phu Yen, Vietnã, 2011: em dezembro, após a visão de um suposto fantasma no banheiro da escola Son Hoa, vários alunos começaram a desmaiar, momentos em que também diziam coisas ininteligíveis. Em apenas uma noite, 12 deles caíram inconscientes ao mesmo tempo.

 

De certa forma, todos esses exemplos compartilham determinados aspectos: um relativo analfabetismo, pobreza e medo; superstições alimentadas por crenças populares; desinformação; e até confinamento imposto (no caso dos internatos). Nesse contexto, impulsionados pela cultura local ou pela própria imaginação, pessoas ou grupos fechados ficam mais ansiosos, perdem o controle dos atos e das emoções, ressaltam os cinco sentidos e começam a apresentar sintomas físicos. A partir daí, eles provocam o chamado efeito dominó na coletividade, que também passa a fazer, ver, sentir e vivenciar o mesmo acontecimento de forma irracional.