A demonização do mundo árabe

A onda de violência que se espalhou pelos países do Oriente Médio e norte da África põe à prova os limites dos novos regimes democráticos surgidos na Primavera Árabe

Por Rose Mercatelli | Foto: AP Photo / Rahmat Gul| Adaptação web Caroline Svitras

 

11 de setembro de 2012! Enquanto os Estados Unidos relembravam o ataque às Torres Gêmeas, acontecido em Nova Iorque há 11 anos, o embaixador americano na Líbia, John Cristopher Stevens e mais três funcionários perderam a vida por causa de uma multidão enfurecida. Homens armados com fuzis semiautomáticos e lançadores de granadas se misturavam a uma aglomeração de líbios raivosos que se reuniam em frente ao consulado americano em Benghazi, no leste da Líbia.  O embaixador, um apaixonado pelo mundo árabe, junto a outro diplomata, Sean Smith, morreu por asfixia devido à fumaça causada pelo incêndio que foi provocado pela multidão. Já os ex-Seals, Tyrone Woods e Glen Doherty, agentes especiais da Marinha dos EUA, morreram em um segundo  ataque, um uma emboscada contra um comboio formado para ajudar na evacuação da embaixada.

 

 

Ofensas a Maomé

A violenta manifestação surgiu em protesto ao trailer Innocence of Muslims (Inocência dos Mulçumanos) postado no YouTube. Tosco, amadorístico e de péssimo gosto, o filme é uma produção independente de Nakoula Basseley Nakoula, egípcio-americano que mora na Califórnia e já foi preso algumas vezes por estelionato e fraude bancária. Em seu depoimento, Nakoula disse ser israelense e que foi bancado por judeus que lhe deram U$ 5 milhões para fazer o filme. Mas logo foi  desmascarado pelo FBI.

 

Nakoula, na verdade, é um cristão copta, grupo minoritário perseguido no Egito por muçulmanos radicais. Mas ele não agiu sozinho: teve apoio – entre outras pessoas que não tiveram seus nomes veiculados – do pastor americano Terry Jones, um conhecido extremista que, no ano passado, queimou o Corão, o livro sagrado dos muçulmanos, gerando uma onda de protestos e ataques e mortes no Afeganistão.

 

 

Versão fraudulenta

No trailer original de Nakoula, exibido pela primeira vez em um cinema obscuro de Hollywood em julho deste ano, o profeta se chamava George e não havia em nenhuma cena uma referência a Maomé. O filme era tão ruim que foi parar no YouTube em julho passado, sem nenhuma repercussão.

 

Entretanto, a versão original foi adulterada e o profeta mudou de nome. Até agora não se sabe quando nem por quem. O fato é que, em setembro, a segunda versão, fraudulenta e provocativa, foi traduzida para o árabe e começou a despontar, primeiro, na televisão egípcia e, depois, na internet.

 

Defensores radicais islâmicos do grupo Jamaat ud Dawa (JD) gritam slogans antiamericanos em Karachi, Paquistão | Foto: Asif Hassan / AFP / Getty Images

 

Em uma das várias cenas malfeitas e de péssimo gosto, o profeta Maomé, o fundador do islamismo, é apresentado como pedófilo e bissexual. Foi o que bastou para que os muçulmanos voltassem às ruas, dessa vez, não para enfrentar seus regimes autocráticos, mas para protestar violentamente contra as ofensas ao seu profeta maior. Da Líbia, as manifestações se espalharam por 30 países, a maioria de fé muçulmana, como Egito, Irã, Tunísia, Iêmen, Paquistão, Afeganistão e Nigéria, Indonésia, Etiópia e Algéria. Até na Austrália, que não é um país muçulmano, houve protestos.

 

“O filme é aviltante, é verdade. Mesmo o islâmico mais moderado iria repudiá-lo. Mas a questão principal me parece outra: qual o objetivo desse filme ter sido exposto para o mundo árabe da maneira que foi? O que pretendem seus patrocinadores?”, pondera Reginaldo Nasser, professor de Pós-Graduação em Relações Internacionais (Unesp, Unicamp e PUC), pesquisador na área de Conflitos Internacionais, Segurança Internacional, Terrorismo, Oriente Médio, África e política externa dos Estados Unidos.

 

 

Ligação profunda

É verdade que os povos islâmicos parecem reagir com muito mais ímpeto às ofensas dirigidas à sua fé do que os cristãos dos países ocidentais. Reações que parecem exacerbadas aos nossos olhos são compreensíveis se analisarmos esses mesmos fatos sob outra ótica. Antes de tudo, é bom analisar como se dá a ligação entre o homem e sua religião nas diversas partes do mundo, dizem os historiadores.

 

O muçulmano, por exemplo, tem uma relação muito profunda com o islamismo. “Podemos perceber isso por sua rotina diária. Onde quer que esteja, em determinados horários, ele se ajoelha em direção à Meca. Além disso, ele segue à risca os preceitos de sua fé. A palavra de Maomé e do Corão são sagradas. Então, parece-me compreensível que esses povos reajam energicamente às injúrias dirigidas  ao seu profeta maior”, explica Maria Aparecida de Aquino, doutora em História, professora de pós-graduação em História da Universidade de São Paulo (USP) e da Universidade Presbiteriana Mackenzie, de São Paulo.

 

13/09: manifestação próximo da Embaixada dos EUA, no Kuwait | Foto: Yasser Al-Zayyat/AFP/Getty

 

Existe ainda outro fator que deve ser levado em conta: o preconceito que o Ocidente tem em relação ao mundo árabe. “O lado ocidental do planeta se considera superior a todos os outros povos que não se alinhem com nossas ideias e culturas. Essa posição de superioridade é responsável por não termos respeito pela cultura ou religiões de outros povos. Essa postura “superior” tem duas consequências. A primeira é que nossa cultura não nos permite reagir de forma tão emocional quanto os islâmicos, por exemplo. A segunda é a rejeição por parte dos países não ocidentalizados”, diz a professora.

 

Foto: Reuters / Esam Al-Fetori

 

Tem mais: depois de 11 de Setembro de 2001, o Ocidente entrou em um processo de demonização do mundo árabe ainda mais exacerbado. “Acreditar que por trás de cada muçulmano tem uma bomba prestes a explodir só contribui para que o estremecimento entre o Ocidente e os países islâmicos aumente cada vez mais”, completa Maria Aparecida.

 

 

O inimigo número 1

A forma como um filme malfeito e injurioso, nitidamente provocativo, espalhou o ódio entre os países muçulmano é um indício de que o ambiente político e religioso na região continuam carregados de ódio ao Ocidente. Até porque há uma tendência no mundo árabe a culpar o Ocidente por tudo. Porém, o ódio não é dirigido ao Ocidente como um todo, mas seu alvo principal são os Estados Unidos e seus Aliados.

 

Manifestantes tunisinos queimam a bandeira dos EUA durante uma manifestação diante da embaixada dos EUA em Túnis, em 12/09/12 | Foto: Reuters / Zoubeir Souissi

 

Para alguns pesquisadores, as manifestações violentas são uma reação contra a permanência de tropas americanas nos países do Oriente Médio. Além das bases militares permanentes na região e do apoio declarado a Israel, o envio de grandes contingentes de soldados por conta da Guerra do Golfo, em 1991, dos talibãs no Afeganistão, em 2001, e contra Saddam Hussein e Osama Bin Laden, no Iraque, em 2003, contribuem para o acirramento dos ânimos. “A meu ver, os sentimentos de revolta dos países islâmicos em relação aos países ocidentais, em especial aos EUA, é uma questão política que tem muito mais a ver com a presença de estrangeiros armados na região do que com as ofensas ao profeta Maomé”, diz Reginaldo Nasser.

 

 

Posição reafirmada

É só fazer a contabilidade dos mortos durante os conflitos para entender boa parte da rejeição dos povos árabes: “Cerca de 80% das baixas acontecem entre a população civil. Segundo os últimos dados de organizações internacionais, em dez anos, morreram durante a ocupação 150 mil afegãos contra 1500 soldados americanos. No Iraque, a proporção se repete: foram 250 mil iraquianos mortos contra, no máximo, 3 mil baixas de soldados americanos. Só por aí dá para começar a entender a revolta”, explica o professor Nasser.

 

Simpatizantes do clérigo iraquiano xiita Moqtada al-Sadr queimam as bandeiras israelense e dos EUA durante um protesto. Fato que se repetiu na jordânia. | Foto: Ali Al-Alak/AFP / Getty Images

 

O suíço Tariq Ramadan, um dos principais pensadores do Islã no Ocidente, aponta para as contradições existentes nessas ondas de violência que, vez ou outra, espalham-se pelo Oriente Médio. Qualquer desestabilização nos países muçulmano aparentemente seria contra os interesses dos Estados Unidos. Entretanto, a política externa americana costuma reverter os conflitos a favor de seus interesses. De acordo com o analista, as instabilidades que irrompem no mundo islâmico servem para justificar a presença americana na região. O exemplo mais recente dessa política militarista veio do governo de Barack Obama, que despachou um pelotão de 50 oficiais da Marinha ao Iêmen para aumentar a proteção de seus diplomatas. O Pentágono também enviou à costa da Líbia dois navios de guerra com cerca de 50 marines, para reforçar a segurança das instalações diplomáticas, ainda que o pior já tivesse acontecido.

 

 

Grupos radicais

Na Líbia, além de homens fortemente armados – podem ser os mesmos, dizem os analistas, que receberam armas dos Estados Unidos para facilitar a queda de Muammar Khadafi durante o movimento da Primavera Árabe –, bandeiras negras do al-Qaeda foram vistas no atentado na Líbia e nos protestos no Egito. Outros grupos radicais, como os militantes salafistas (islamitas ultraconservadores), também contribuíram para colocar mais lenha na fogueira, no Egito.

 

Ao que tudo indica, os salafistas aproveitaram a fúria popular para desestabilizar o novo governo egípcio do presidente Mohamed Morsi, que venceu as eleições pelo Partido da Liberdade e da Justiça, o braço político da Irmandade Muçulmana, outro grupo islâmico fundamentalista. Os salafistas parecem ser ainda mais radicais: eles rejeitam o jogo político, dizendo que a democracia não é islâmica.

 

Manifestante sudanês queima uma bandeira alemã após a embaixada alemã ser incendiada em Cartum. Foto: Ashraf Shazly / AFP / Getty Images

 

Os analistas políticos acreditam haver por trás dos manifestos violentos uma evidente manipulação de líderes religiosos cujo maior objetivo é implantar nos países árabes um regime teocrático, sem nenhum tipo de liberdade que não seja aprovada pelos imãs e pelo Corão. É só observar os sinais.

 

mais de 350
fundamentalistas islâmicos fizeram uma manifestação em 14/09/2012 | Foto: Reuters / Osman Orsal

 

Por fim, a luta de facções radicais travada no Oriente Médio, principalmente nos países que se livraram de ditaduras antigas, como a Líbia e o Egito, desperta uma pergunta crucial para a tão sonhada paz no Oriente Médio: qual será o destino dessas nações de democracias recém-nascidas e ainda frágeis? Será que saberão caminhar em direção a governos mais democráticos como a Turquia? Ou têm grandes chances de se tornarem Estados fundamentalistas que abrigam e incentivam a ação de grupos terroristas contra países do Ocidente? Esperemos o próximo 11 de setembro.

 

Adaptado do texto “Fúrias no Islã”

Revista Leituras da História Ed. 56