A entrevista que ajudou a derrubar Vargas

“É preciso que alguém fale, e fale alto, e diga tudo, custe o que custar.” José Américo de Almeida, jornal Correio da Manhã *

Por Rose Mercatelli | Foto: Fabiana Neves | Adaptação web Caroline Svitras

 

 

O ano, 1945! O mês, fevereiro!

 

O Correio da Manhã lança em sua edição do dia 22 a entrevista que seria considerada o início da retomada da liberdade de imprensa, duramente controlada pelo temido Departamento de Imprensa e Propaganda (DIP). O onipresente “Big Brother” do Estado Novo de Vargas, comandado por Lourival Fontes era considerado o superministério que vasculhava (e censurava) toda e qualquer produção cultural e intelectual do país desde sua fundação em 1937.

 

Porém, mais do que romper o silêncio conferido pela censura do Estado, a entrevista concedida por José Américo de Almeida, político, escritor paraibano, afastado do poder por decisão própria, abriu caminho para que, meses depois, acontecesse a derrubada do regime ditatorial imposto pelo próprio Getúlio Vargas, em 10 de novembro de 1937.

 

Aparência: estado novo – exército nas ruas e demonstrações de poder… | Foto: Agência Brasil

 

Nada acontece por acaso

A entrevista não foi obra do acaso, do oportunismo de um jornalista à caça de uma notícia que abalasse os alicerces do Estado Novo e que, por sorte, esbarrasse em um personagem afastado do momento político, mas interessado em dar declarações bombásticas. Ela foi, na verdade, o resultado de uma minuciosa articulação feita por um hábil político, Luiz Camillo de Oliveira Netto, participante, em 1943, do Manifesto dos Mineiros – infrutífera contestação de políticos do seu Estado.

 

Apesar da declaração não ter surtido o efeito desejado, a intenção de Luiz Camillo de derrubar a ditadura continuou firme e forte. Daí o seu empenho para que, dessa vez, as revelações da entrevista finalmente atingissem o objetivo.

 

“Nesta hora não me nego a falar. Ao contrário, julgo chegado o momento de todos os brasileiros opinarem. Esta é uma hora decisiva que exige a participação de todos no rumo dos acontecimentos.”
José Américo de Almeida*

 

Primeiro era preciso encontrar um político com credibilidade junto à opinião pública. O escolhido foi José Américo de Almeida, um profundo conhecedor dos bastidores do poder antes mesmo da criação do Estado Novo. Nas eleições presidenciais realizadas em março de 1930, por exemplo, ele apoiou a candidatura oposicionista de Vargas. Foi designado pelo próprio presidente para compor a comissão encarregada de elaborar o anteprojeto da futura Constituição. Como ministro de Estado, participou dos trabalhos constituintes entre 1933 e 1934, articulando a permanência de Vargas no poder.

 

Da dir. para esq.: (sentados) GV, Jose americo de almeida, Danto Coelho e Ernani do amaral peixoto, 1934 | Foto: FGV

 

Em julho de 1934, exonerou-se do ministério, elegeu-se senador pela Paraíba, mas renunciou ao cargo um ano depois para ocupar – por indicação de Vargas – o posto de ministro do Tribunal de Contas da União (TCU).

 

Durante o ano de 1937, teve o seu nome lançado para concorrer à sucessão à presidência nas eleições previstas para janeiro do ano seguinte. Sair do poder, entretanto, não estava nos planos de Vargas, que frustrou a expectativa dos candidatos ao promover, em novembro de 1937, o fechamento do Congresso e o cancelamento das eleições, dando início à ditadura do Estado Novo.

 

“No momento em que se pretende transferir a responsabilidade da situação dominante no Brasil da força que a apoia para a chancela do povo é a própria ditadura expirante que nos dá a palavra.”*

 

José Américo afastou-se, então, de Vargas, mas se manteve em seu posto no TCU durante todo o Estado Novo. Em janeiro de 1945, representou a Paraíba no Congresso Brasileiro de Escritores. O evento assumiu um nítido caráter antiditatorial, com o pedido de eleições livres para a presidência, assinada por todos os seus participantes. Por tudo isso, ocorreu a escolha do nome de José Américo como entrevistado para criticar a atuação do governo federal.

 

A estratégia seguinte era escolher um jornalista que fosse aceito pelo entrevistado. O nome mais indicado para a empreitada foi o de Carlos Lacerda, um brilhante jornalista jovem da época que, não por acaso, também era um ferrenho opositor ao governo. A terceira etapa da articulação de Luiz Camillo era encontrar um jornal que aceitasse publicar a matéria.

 

Carlos Lacerda | Foto: AFP

 

 

O superministério

A tarefa não seria fácil, na medida em que os meios de comunicação da época temiam represálias, o Departamento de Imprensa e Propaganda (DIP) exercia um total controle ideológico sobre a opinião pública por meio da censura aos meios de comunicação e da publicidade do governo em cima da figura do ditador. Entre as incontáveis intervenções do DIP sobre os jornais, pode ser citado o confisco temporário do jornal O Estado de S. Paulo, com a prisão e o exílio de dois de seus diretores.

 

Quase nada escapava aos olhos e ouvidos atentos dos censores. Só no ano de 1942, chegaram a proibir a veiculação de 108 programas de rádio e quase 400 músicas, a maioria de marchinhas carnavalescas, fosse por serem consideradas perigosas aos interesses da pátria, ou por suas letras de mau gosto, segundo a moral vigente na época.

 

Realidade: censura no Estadão – “confisco” temporário do jornal com prisão e exílio de dois diretores | Foto: AFP

 

Por outro lado, o DIP se empenhou em difundir a boa imagem do governante, criando assim o culto à sua personalidade, por meio de fotos, passeatas, concentrações e até marchinhas de carnaval que enalteciam a postura “democrática” do ditador, que não se furtava nem a assistir os famosos espetáculos de teatros de revista na Cinelândia, no Rio de Janeiro, nos quais era alvo de brincadeiras e piadas (previamente censuradas, claro) por parte de atores e vedetes.

 

O outro legado do DIP foi a criação do A Voz do Brasil, programa radiofônico obrigatório para todas as estações de rádio do país, com notícias exclusivas do governo federal. É bom lembrar que, na época Vargas, o rádio era o meio de comunicação mais popular e de longo alcance no território brasileiro. Para completar o quadro, a eficiente polícia política da ditadura vigente, comandada por Filinto Müller e responsável pela prisão, morte e tortura de milhares de “inimigos” do regime, seria capaz de assustar qualquer dono de jornal, independente de suas simpatias ou antipatias políticas.

 

 

Editorial corajoso

Não à toa, o jornal escolhido para a publicação da entrevista foi o Correio da Manhã. Desde sua fundação, em 1901, por Edmundo Bittencourt,o jornal se mostrou engajado na vida política do país. Por inúmeras vezes, o Correio foi alvo de processos, proibições de circulação e até prisões de seus donos e jornalistas. Apesar de todo o tipo de perseguição, Paulo Bittencourt, herdeiro e diretor do Correio da Manhã, manteve sua linha editorial corajosa e resolveu bancar a entrevista de José Américo.

 

“Cumpri meu dever. Falei por mim e sinto ter interpretado também o pensamento ainda vedado do povo brasileiro. Fui levado a exprimir-me desta forma por um poder de determinação que nunca me abandonou nos momentos decisivos.”*

 

Apesar de perigoso, o fato não era inédito por parte do jornal, na medida em que na mesma semana, o Correio publicou duas outras matérias ameaçadoras. Na primeira, as declarações de Flores da Cunha, ex-governador do Rio Grande do Sul de 1935 a 1937, deposto pelo Estado e forte opositor a Vargas, arranhavam profundamente a imagem do ditador. Na segunda, ninguém menos do que o pai de Carlos Lacerda, o ex-deputado de esquerda Maurício de Lacerda, considerado um dos mais notáveis tribunos da Velha República, pedia o fim do Estado Novo e a cabeça de seu dirigente-mor.

 

O remate final dos conspiradores – mais uma das articulações do político mineiro Luiz Camillo – foi a escolha do título que deveria ser neutro, quase inofensivo (aparentemente inocente), para que não acirrasse ainda mais os nervos que andavam à flor da pele tanto dos seguidores de Vargas como dos censores do DIP.

 

Dessa maneira, A situação: declaração do sr. José Américo, título como foi publicado no original, passou para a história como “a reportagem que ajudou a derrubar Vargas”.

 

 

Estado Novo agonizante

A reportagem, ainda que muito bem escrita e engendrada, não pode ser considerada o único fator importante na derrubada de Getúlio Vargas. Mas ela parece ter sido, por certo, a pá de cal sobre o Estado Novo.

 

Naquela ocasião, o Brasil vivia um momento histórico, no mínimo, ambíguo. Por um lado, soldados brasileiros lutavam na Itália ao lado dos Aliados, os quais justificavam sua participação na guerra contra Hitler como sendo a defesa da própria democracia. Por outro, o país vivia sob um regime que poderia ser tudo, menos democrático.

Ambiguidade: a FEB lutava na Itália ao lado dos Aliados, em defesa da democracia. Porém, por aqui, o país vivia sob um regime ditador. Vargas nunca escondeu sua simpatia pela Alemanha nazista e pela Itália fascista | Fonte: FEB

 

Resumindo: o resultado final na 2ª Guerra Mundial inviabilizou o Estado Novo. A derrota da Itália fascista e da Alemanha nazista, países pelos quais Vargas nunca escondeu sua simpatia, por similaridade poderia significar também o fim de qualquer tipo de ditadura. Ora, Vargas, como militar e político sagaz que sempre foi, sabia reconhecer o momento de retirar sua tropa. Por isso começou a planejar a liberalização de seu regime. Mas sob seu estrito controle, claro.

 

A entrevista marcou, na verdade, o fim da censura prévia no Estado Novo agonizante. Tanto é que, em 18 de abril de 1945, Vargas decretou anistia geral para todos os condenados por crimes políticos desde 1934. Isso implicou na libertação de comunistas, como Luiz Carlos Prestes, e integralistas da ultradireita. Em seguida, Vargas permitiu a fundação de partidos políticos banidos desde 1937 e convocou eleições gerais e diretas para os Poderes Executivo e Legislativo a serem realizadas no dia 2 de dezembro de 1945.

 

General Góes Monteiro, ao fundo, atrás de Vargas: o general aliado que liderou o golpe em 29/10/1945 | Fonte: GVF

 

Porém, um mês e três dias antes das eleições, em 29 de outubro de 1945, Vargas foi deposto num golpe militar liderado por Pedro Aurélio de Góes Monteiro, um general de sua confiança. Outros militares, que nos anos anteriores haviam apoiado fielmente o ditador, como Osvaldo Cordeiro de Farias, Newton de Andrade Cavalcanti e o próprio candidato presidencial Eurico Gaspar Dutra, também avalizaram sua deposição. Não houve resistência por parte de Getúlio Vargas.

 

Após oito anos de ditadura, em 1945, os brasileiros marcaram um novo encontro com a democracia e elegeram o general Eurico Gaspar Dutra, o candidato do Partido Social Democrático (apoiado pelo ex-ditador), como presidente da República. Era o início de um regime democrático que duraria 19 anos (até a Revolução de 1964, quando os militares novamente voltaram ao poder), mesmo tendo que brigar por sua sobrevivência em diversas crises políticas durante esse período.

 

 

*Trechos da entrevista de José Américo de Almeida, concedida a Carlos Lacerda em reportagem do Correio da Manhã, em 22 de fevereiro de 1945.

Revista Leituras Da História Ed. 49