A farsa de Chico Rei

Chico Rei surgiu de uma nota de rodapé do livro História Antiga de Minas Gerais (1901-1904); nenhum documento anterior a essa data confirma ou sequer menciona a sua existência. O Rei Ambrósio foi o Rei da Confederação Quilombola do Campo Grande, comprovado por centenas de documentos contemporâneos e posteriores ao período de 1726-1759

Por Tarcísio José Martins | Foto: Carlos Julião | Adaptação web Caroline Svitras

O monarquista Diogo de Vasconcelos, também formado pela mesma Academia de Direito do Largo de São Francisco, que tinha publicado em 1901 o seu livro História Antiga de Minas Gerais, o republicou em 1904, onde criou ou recriou o até então desconhecido personagem, Chico Rei, introduzido pelo informação de que “os salteadores apreendiam ou compravam na África tribos e nações inteiras, gente em vários graus de sociabilidade, embora rudimentária e além de muitos exemplos para prová-la, tivemos o que deu lugar a legenda tão bizarra, quão verdadeiramente poética do Xico Rei, que dominou Vila Rica. Esta figura nobre de um preto, cuja vida acidentada aqui finalizou, imensa luz derrama aos painéis daquela época sombria.”

 

Diogo de Vasconcelos confundiu reisado (festa dos Reis Magos, em 6 de janeiro), com reinado, festa de Nossa Senhora do Rosário, celebrada na primeira ou segunda semana de agosto que, hoje, para possibilitar o acesso dos mineiros que vivem fora de suas cidades, foi transferida para o final de julho de cada ano. O autor, como grande carola que era, quis apenas colaborar com a maquiavélica ação da Igreja que desde os anos 1880, vinha tentando destruir o culto a Nossa Senhora do Rosário e substituí-lo por outros, a exemplo da Festa aos Santos Reis, celebrada em 6 de janeiro e que só se firmou a partir do final do século 19, inexistindo notícias das mesmas nos anos setecentos.

 

Festa de Nossa Senhora do Rosário, por Johann Moritz Rugendas

 

Em 1966, o romancista Agripa de Vasconcelos publicou pela editora Itatiaia o seu romance Chico Rei, de 247 páginas, onde, usando a estrutura da nota de rodapé de Diogo, inventou novos personagens e reinventou o enredo esboçado por Diogo de Vasconcelos, sem citar qualquer documento. Por volta dos anos cinquenta, uma criança encontrara indícios de haver um buraco de mina antiga no barranco de seu quintal, na região do antigo Palácio Velho. Ele e sua família passaram a dizer que aquela era a Mina do Chico Rei. Somaram a ficta nota de rodapé de Diogo com a ficção de Agripa de Vasconcelos e se lançaram ao turismo comercial da sua “Mina do Chico Rei”, cobrando ingresso e vendendo suvenires aos turistas.

 

Mina de ouro que teria pertecido à Chico Rei, ainda bem conservada e aberta à visitação | Foto: Cortesia Secretaria de Turismo, Indústria e Comércio de Ouro Preto

A desinformação se multiplicou. Livros e mais livros foram escritos reproduzindo a não história. “Chico Rei” virou tema de escola de samba, virou filme; o comércio de Ouro Preto ampliou e deu corpo à não história, repassando a “lenda” aos turistas, atendo-se apenas em auferir lucros sem aferir, no entanto, sua origem e fidedignidade.

 

No entanto, esta improvada lenda, em que pese o seu contexto, é uma zombaria, não só à memória daqueles pretos que deram seu sangue pela liberdade nos quilombos do Campo Grande, como também à memória dos escravos que foram sugados pelo escravista, não só até a Lei Áurea. Contrapondo-se ao falso Ambrósio do conto de Carmo Gama, o também romanceado personagem Chico Rei significou: preto não tem que se revoltar; tem que trabalhar, porque só trabalhando e obedecendo humildemente as regras do branco é que um preto pode dar certo.

 

Assim, da gloriosa Confederação Quilombola do Campo Grande e de suas guerras quilombolas de 1741 a 1759, restou NADA na memória do povo. Nossos historiadores monarquistas nos impuseram um único quilombo do Ambrósio dentro do Triângulo Mineiro e seu covarde Rei Ambrósio, desmoralizado perante a sabedoria do grande Chico Rei. Nossas faculdades de História e Sociologia, principalmente as federais, têm sido o cemitério da História da Confederação Quilombola do Campo Grande e da História Setecentista do Triângulo Mineiro.

 

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Leituras da História Ed. 93

Adaptado do texto “Rei Ambrósio, sim, é História!”