A lenda do boxe Muhammad Ali

Conhecido por sua língua afiada, seu soco potente e sua dança no ringue, o eterno Muhammad Ali, medalhista olímpico e três vezes campeão mundial, desafiou convenções e se tornou um ícone internacional por sua luta contra o racismo

Por Rose Mercatelli | Foto: Tom Easterling/ The Courier-Journal/ USA TODAY Sport | Adaptação web Caroline Svitras

 

Muhammad Ali e seu primeiro treinador de boxe, Joe E. Martin, oficial de polícia de Louisville

 

Dia 3 de junho de 2016, Scottsdale, Arizona, EUA. Muhammad Ali, considerado um dos maiores pugilistas de todos os tempos, depois de 32 anos perdeu sua mais importante luta para o Mal de Parkinson, distúrbio neurológico que afetou seus movimentos. Suas aparições nos últimos tempos eram cada vez mais raras devido aos sérios comprometimentos neurológicos em consequência da doença que alguns especialistas atribuíram aos golpes recebidos na cabeça durante a carreira. Internado no fim de 2014 e no começo de 2015, dessa vez o grande campeão foi à lona, abatido por uma pneumonia e infecção urinária. Muhammad, de 74 anos, deixou a mulher, Lonnie Williams, e nove filhos.

 

Uma semana depois, no dia 9 de junho, cerca de 15 mil pessoas acompanharam o funeral do boxeador que aconteceu em Louisville, no estado de Kentucky, EUA, cidade onde nasceu em 17 de janeiro de 1942. Na primeira parte da cerimônia, um imã conduziu a cerimônia muçulmana chamada Jenazah, palavra árabe que significa funeral. O rito simples durou cerca de 40 minutos e foi acompanhado por celebridades com o presidente turco Tayyip Erdogan e pugilistas famosos como Sugar Ray Leonard. No dia seguinte, sexta-feira, foi realizada uma procissão pela cidade e um culto ecumênico.

 

Muhammad Ali no pódio em Roma 1960 | Foto: Central Press/Getty Images

 

Pessoas de todas as partes do país, especialmente muçulmanos, se concentraram no local desde as primeiras horas da manhã, cinco horas antes do início da cerimônia. E tudo aconteceu exatamente como Ali vinha planejando há 10 anos: o evento foi aberto a todas as religiões, com pessoas negras e brancas usando vestimentas tradicionais muçulmanos ou trajes informais como jeans, camisas e calças. Para milhões de seguidores da religião muçulmana, Ali foi – e ainda é, pois a lenda não morre – o símbolo maior da face pacífica e tolerante do Islamismo.

 

 

Nascido para lutar
Muhammad Ali aos 12 anos, ainda conhecido como Cassius Clay | Foto: Getty Images

Os jornalistas da crônica esportiva dos anos 60 já afirmavam que a história de Ali era resultado da inequívoca vocação para o boxe, aliada às suas condições físicas extraordinárias e uma velocidade incomum de reflexos, tanto nas pernas como nos punhos. Conta a lenda que Cassius Clay, aos 12 anos, foi aprender a lutar boxe no ginásio de esportes em Louisville, EUA, com medo que os valentões da área roubassem sua bicicleta. No ginásio, encontrou o treinador Joe Martin, um policial local que começou a treiná-lo com afinco. Desde o início, Clay dedicava-se horas aos treinos diários e, com isso, ganhou uma base sólida para a sua técnica prodigiosa. Dono de um talento precoce, conquistou a medalha de ouro olímpica aos 18 anos, nos Jogos de Roma, em 1960, ao vencer o polonês Zbigniew Pietrzykowski na final da categoria meio-pesado.

 

Orgulhoso pela conquista, Ali, que ainda se chamava Cassius Marcellus à época, teve uma experiência que marcou sua posição na luta pelos direitos dos negros. Em sua biografia, o pugilista conta que, ao ser recebido com festas em sua cidade natal, resolveu pedir uma refeição em um restaurante repleto de clientes brancos. O funcionário, entretanto, negou-se a atendê-lo alegando que eles não serviam negros naquele estabelecimento. Ele tentou argumentar, explicou que era um campeão olímpico, que havia lutado e vencido por seu país, mas não adiantou. Indignado, o boxeador, então, atirou sua medalha de ouro no rio Ohio.

 

Apesar dessa história nunca ter sido confirmada oficialmente, a verdade é que o reconhecimento por seu triunfo nos Jogos Olímpicos de Roma 1960 e por toda a brilhante carreira, viria 36 anos depois. Nas Olimpíadas de Atlanta, em 1996, Muhammad Ali, além de ter sido o escolhido para acender a pira olímpica na cerimônia de abertura, em uma cena que foi acompanhada por bilhões de pessoas, foi presenteado com uma réplica da medalha dourada atirada no rio em protesto contra o racismo. Em 1964, tornou-se, pela primeira vez, campeão mundial na categoria dos pesos pesados ao derrotar Sonny Liston, em Miami.

 

 

Mudança de nome

Na noite do dia 25 de fevereiro de 1964, depois de quatro anos de carreira invicta, o garoto alto e musculoso de Louisville, Kentucky, após derrotar no ringue Sonny Liston, pela primeira vez dormiu como campeão mundial dos pesos pesados. E foi também nessa noite que usou pela última vez seu nome de batismo, Cassius Marcellus Clay que, por sinal, era como se chamava o fazendeiro branco, proprietário do seu bisavô escravo, um nome que se repetiu por quatro gerações de sua família.

 

Na verdade, Cassius Clay já era chamado de Cassius X – letra que substituía os sobrenomes cristãos herdados dos escravocratas brancos – por seus irmãos de fé desde 1961, quando se converteu ao islamismo. Foi Elijah Muhammad, um dos líderes da Nação do Islã, quem anunciou, depois da luta com Sonny Liston, que Clay passaria a se chamar Muhammad Ali que, em árabe, significa “o louvado admirável”.

 

Ali foi apresentado à Nação do Islã durante o treinamento em Miami no início de 1960, e mais tarde se converteu ao islamismo ortodoxo | Foto: Getty Images

 

Em seu livro O Rei do Mundo, do jornalista David Remnick, o autor mostra a personalidade de Ali dotada de uma imensa autoconfiança que para muitos beirava a arrogância. Inúmeras vezes foi chamado de fanfarrão por suas ideias controvertidas a respeito de política e religião. Sua fama de falastrão, de certa forma, era alimentada por ser adepto da seita, Nação do Islã, que, por suas teorias estrambólicas, metia medo até nos próprios muçulmanos. Fundada em Detroit, Michigan, em julho de 1930 por Wallace D. Fard Muhammad, a seita defendia uma segregação racial radical e se baseava em lendas pouco ortodoxas, como a que afirmava que a salvação do planeta chegaria à Terra em um disco voador cheio de importantes homens negros.

 

 

ÓVNIS e demônios
Ali com a tocha Olímpica nas Olimpiadas de Atlanta, 1996 | Foto: Michael Cooper/Getty Images

Wallace Fard Muhammad pregava também que as pessoas brancas pertenciam a uma raça de “demônios” criados por Yakub (nome do Corão correspondente à Jacó da Bíblia Cristã) na ilha grega de Patmos. Fard justificava sua teoria por acreditar que os demônios brancos tinham formado uma cultura baseada em mentiras e morte. Em seu livro, David Remnick conta também como a vida do lutador começou a mudar a partir de uma reportagem feita com ele em 1966 por Robert Lipsyte para o jornal The New York Times. O jornalista estava presente na casa de Ali quando chegou a notícia que o lutador tinha sido convocado pela Guerra do Vietnã. A bem da verdade, o boxeador não sabia o que era a tal guerra e não tinha a mínima ideia onde ficava o Vietnã. Mas quando foi perguntado por Lipsyte o que faria a respeito, Cassius Clary, como sempre, pôs em ação sua língua afiada: “Por que eu iria lutar? Não tenho nada contra os vietcongues. Eles nunca me chamaram de crioulo”, referindo-se ao termo pejorativo com o qual os brancos, na época, se dirigiam aos negros.

 

No dia seguinte, a frase publicada no The New York Times caiu como uma bomba em cima da opinião pública, naquela altura do campeonato já meio dividida em relação ao conflito na Ásia. O próprio jornalista preocupou-se com a repercussão da manchete, pois acreditava que a frase, dita a esmo, meio fora de contexto, não parecia significar exatamente a opinião de Ali. Mas o campeão gostou da manchete. E para fazer jus ao que tinha saído no jornal sobre ele, Muhammad Ali passou a estudar a situação no Vietnã com toda a garra que se dedicava aos treinos. E, por fim, descobriu-se um pacifista que odiava guerras e segregações raciais.

 

Apesar da imagem de colérico e petulante que o próprio lutador fazia questão de popularizar, em pouco tempo, Muhammad Ali tornou-se um símbolo de paz. Ao perceber o descontentamento da juventude americana com o conflito na Ásia, começou a aceitar convite para dar palestras nas universidades e mostrar sua solidariedade aos movimentos pela paz e pelas reivindicações dos direitos da comunidade negra. Dessa maneira, angariava cada vez mais a simpatia do público tornando-se um dos maiores símbolos dos revolucionários dos anos 60, junto com outros ícones que brilhavam nos palcos como John Lennon e Mick Jagger.

 

 

O pregador e o esportista

Na verdade, quem abriu as portas da Nação do Islã ao pugilista foi um outro grande símbolo da resistência negra americana, Malcolm X, ladrão e traficante que agia em Boston e Nova Iorque na década de 40 e que se converteu ao grupo Muçulmanos Negros (mudou o nome para Nação do Islã), na cadeia, em 1948. Tornou-se o mais conhecido ministro da seita, capaz de usar a sua experiência nas ruas para arregimentar seguidores jovens e debater em defesa da causa com os intelectuais da época.

 

Ali e Malcom X em um momento de descontração em Nova Iorque, 1963 | Foto: Corbis

 

Malcolm X e Cassius Clay se conheceram em Detroit, em 1962. De imediato, Malcolm percebeu a dedicação e o entusiasmo de Clay à doutrina e intuiu que, na eminência de conquistar seu primeiro título mundial, seu novo amigo poderia representar um grande troféu para a causa. Tornaram-se inseparáveis, até a luta de fevereiro de 1964. Mais do que o fato de Malcolm X conseguir angariar pugilistas entre seus seguidores, o que mais incomodava Elijah Muhammad, segundo homem em poder da Nação do Islã, era a sua influência sobre os fiéis. O ex-ladrão tinha comunicação direta com os irmãos, o que parecia enfraquecer a liderança de Elijah.

 

Em 1963, Malcolm X deu uma declaração infeliz a respeito da morte de John Kennedy, o que intensificou o monitoramento do FBI às ações da seita e gerou também uma onda de revolta em todo o país contra a Nação do Islã, inclusive entre os afrodescendentes.

 

 

Cruzado de direita

Em 1964, os organizadores do confronto em Miami contra Sonny Liston chegaram a pedir que o líder muçulmano se afastasse do lutador. O medo de perder público na luta, juntava-se ao receio de que algo pior ocorresse a Clay devido sua ligação com Malcolm X. Para não prejudicar o amigo, o pregador concordou em deixar a cidade. Mas a disputa entre ele e Elijah Muhammad continuava a todo vapor.

 

Elijah Muhammad e Malcolm X, 1962 | Foto: Creative Commons

 

Entretanto, quando ouviu no rádio o anúncio de que o campeão adotaria um nome muçulmano, Malcolm X – que nunca mudou o seu próprio – teve certeza de que seu amigo pugilista tinha sido usado para atingi-lo. “Muhammad Ali é o nome que darei a ele enquanto acreditar em Alá e me seguir”, declarou Elijah Muhammad certa vez. Para Malcolm, o anúncio teve um objetivo muito claro: mostrar de que lado Ali escolhera ficar na briga pelo poder na Nação do Islã. Nessa luta, porém, a posição de Ali foi a de mero espectador. A escolha do novo nome de Cassius Clay pelo líder da Nação do Islã foi sentida por Malcolm X com se ele próprio tivesse recebido um cruzado de direita em seu rosto, desferido por Elijah.

 

Em maio de 1964, Ali e Malcolm X se encontraram por acaso em um hotel em Acra, Gana, quando ambos viajavam pela África. O ex-pregador da Nação do Islã vinha de uma peregrinação a Meca, onde tivera contato com muçulmanos brancos que mostraram a ele o que já desconfiava, de que não havia cabimento usar a religião para defender a supremacia de um homem sobre o outro.

 

 

Não à Guerra do Vietnã

28 de abril de 1967. Pouco antes das oito da manhã, Muhammad Ali se dirigiu à Junta de Recrutamento e Exames das Forças Armadas do EUA, em Houston, Texas, onde foi convocado a se apresentar para o Exército, com o intuito de servir na Guerra do Vietnã. Do lado de fora, um grupo de pessoas, na maioria estudantes, aproveitou a presença do grande campeão para pedir o fim da guerra gritando: “Deixem Ali aqui. Não vá. Não vá”.

 

Ali é escoltado em Houston, Texas, depois de se recusar a ser convocado pelas Forças Armadas | Foto: AP

Juntamente com 35 recrutas, Ali recebeu ordens para preencher o formulário, passar por exames médicos e se dirigir ao ônibus que levaria a todos para o Fort Polk, na Louisiana. Na hora do almoço, o grupo recebeu dois sanduíches, um de carne outro de presunto, uma fatia de bolo, uma maçã e uma laranja. Muçulmano convicto, Ali seguia as prescrições dietéticas de sua religião e se recusou a comer o sanduíche de presunto. No início da tarde, os recrutas se enfileiraram na frente de um oficial que os chamava pelo nome e ordenava que desse um passo à frente, simbolizando sua entrada no Exército. Ao ouvir seu nome, porém, o lutador permaneceu imóvel. Mesmo em uma segunda tentativa, ao escutar seu nome original, o campeão mundial nem se mexeu.

 

Sua atitude interpretada, corretamente, como uma recusa de ingressar no Exército fez com que oficiais o levassem a um local reservado para alertá-lo sobre as consequências de sua desobediência: cinco anos de prisão mais uma multa. Ali respondeu que compreendia a questão e, a pedido de um oficial, escreveu uma carta alegando seus motivos da recusa. Ali escreveu: “Como ministro da religião islâmica, eu me recuso a ser convocado pelas Forças Armadas do Governo Americano”. Por ter se recusado a servir o exército norte-americano, Ali perdeu o cinturão de campeão mundial, foi suspenso do boxe durante cinco anos.

 

 

De volta aos ringues

Ainda com o peso de uma possível prisão pairando sobre seus ombros, Ali voltou a lutar em 1970, enfrentando Jerry Quarry e Oscar Bonavera e derrotando os dois boxeadores ranqueados. Logo depois de suas vitórias, resolveu desafiar o novo campeão da categoria Joe Frazier. Foi nessa disputa que Ali sentiu, pela primeira vez, o amargo gosto da derrota.

 

Em 1971, Ali sentiu pela primeira vez o amargo gosto da derrota | Foto: Creative Commons

Na terceira luta pós-suspensão, em 8 de março de 1971, ele foi derrotado por Joe Frazier em um combate memorável em Nova Iorque. A luta, que se estendeu até o 15º round, foi decidida pelos juízes. A derrota deu início a um difícil período em sua carreira. Mesmo não estando totalmente em forma e contando com o descrédito de parte da imprensa especializada, Muhammad Ali ainda teve de enfrentar 13 combates, com uma derrota por decisão dos juízes para Ken Norton, em 31 de março de 1973, o único boxeador que teve a façanha de quebrar a mandíbula de Ali em toda a sua carreira. Até que chegou sua a chance de desafiar Frazier novamente – que já não era mais o grande campeão. Entretanto, dessa vez valeu a pena. Ali venceu Frazier, em 28 de janeiro de 1974, por pontos, no 12º round. Era o que o Rei do Mundo precisava para desafiar o novo campeão dos pesos-pesados, o invicto George Foreman, cuja disputa realizada em 30 de outubro de 1974, em Kinshasa, Zaire, em 1974 e no Zaire, é considerada, até hoje, como a luta do século. Ali tinha 32 anos e tornava-se o segundo boxeador da História a reconquistar um título mundial.

 

 

O grande pacifista

Como campeão do mundo pela segunda vez, Muhammad enfrentou vários desafiantes, entre eles, Joe Frazier. A terceira luta entre os dois foi a maior e mais difícil de sua carreira, com o seu opositor admitindo a derrota só depois de 14 rounds dificílimos. Em 1978, aos 36 anos de idade, Ali sofreu outra derrota, perdendo o título para Leon Spinks. Sete meses depois, conseguiu a revanche e derrotou Spinks por pontos, tornando-se o primeiro peso-pesado a reaver o título pela terceira vez.

 

Muhammad Ali vence sobre Sonny Liston por nocaute, primeiro round em 1965 | Foto: Getty Images

Depois dessa conquista, começou a dedicar-se mais ao ativismo político e dos direitos civis do que propriamente ao boxe, mas pressionado por problemas financeiros, voltou a lutar em 1981, quando perdeu por pontos para Trevor Berbick. Às vésperas de fazer 40 anos, Ali anunciou sua aposentadoria no boxe, encerrado uma carreira fantástica depois de 56 vitórias, sendo 37 por nocautes, 19 decisões do júri, cinco derrotas, com quatro decisões e apenas uma por nocaute técnico, ou TKO – termo que denota o término de luta pelo fato de o árbitro ter considerado um dos lutadores sem condições de continuar o combate.

 

Já fora do boxe, em 1984, Ali revelou que sofria do Mal de Parkinson e, novamente, usou seu nome e fama em prol das pesquisas para buscar uma cura para a doença. Chegou até a fazer tratamento com células tronco na tentativa de, pelo menos, deter os avanços da doença. Entretanto, mesmo seriamente doente, Muhammad Ali, o grande pacifista, rodou o mundo para encontrar-se com líderes políticos como Saddam Hussein para levar sua mensagem de paz e igualdade a todos os povos.

 

A luta histórica

No início de 1974, Don King, o lendário ex-produtor musical do grupo Jackson Five e empresário do ex-pugilista Mike Tyson, estava quebrado. Mas, mesmo sem dinheiro tinha contatos, uma relativa influência no meio esportivo e uma rara capacidade para convencer pessoas de suas ideias. Ao perceber que a luta entre George Foreman, o campeão mundial invicto, e Muhammad Ali, que buscava obsessivamente reconquistar o título, era inevitável, King resolveu promovê-la a qualquer custo. Prometeu a cada um, cerca de US$ 5 milhões – algo como US$ 25 milhões em preços atuais –, mesmo não tendo nem 1% desse valor. Com seu poder de persuasão, conseguiu as assinaturas de Ali e Foreman no contrato e saiu em busca de patrocínio. Encontrou o que precisavam com o ditador Mobutu do antigo Congo Belga, país africano que também já se chamou Zaire e hoje é conhecido como República Democrática do Congo.

 

A data do combate foi marcada inicialmente para o dia 25 de setembro, no Tata Raphael Stadium. De repente, os habituais participantes do show business, astros mundiais do esporte, da música, do jornalismo – começaram a chegar a uma Kinshasa pobre e violenta, mas pela primeira vez, muito orgulhosa de si mesma por exibir ao mundo os dois grandes campeões mundiais do boxe.

 

Foto: bestboxingblog

 

O primeiro a chegar foi Ali. Na pista de desembarque do aeroporto, uma multidão de congoleses aguardava a chegada daquele que se anunciava sua luta pelos negros, pelos pobres. Durante as semanas de preparação, Ali, como sempre, manteve contato com seus admiradores declarando: “Vou dar uma surra nele aqui, na terra do negro, na nossa casa, porque aqui também é meu país”, dizia nas entrevistas. A população local respondia gritando: “Ali, bomaye! Ali, bomaye”, a expressão em dialeto lingala para “Ali, mate-o”.

 

Apesar de todo apoio popular, muitos experts do boxe não acreditavam que Ali seria capaz de derrotar o jovem e ágil Foreman, que tinha como principal característica a força física, um soco demolidor e uma incrível movimentação no ringue. Para não falar que Foreman tinha só 25 anos, contra os 32 de Ali.

 

Tudo corria segundo a programação de Don King até que um acidente mudou tudo. No fim de setembro, em um treino, Foreman abriu o supercílio esquerdo e se recusou a lutar até que o corte estivesse cicatrizado. Foram mais de seis semanas de espera. Enquanto Ali treinava a maior parte do tempo recebendo pesados golpes de seus sparrings, o machucado Foreman socava tanto e com tanta força o saco de areia da vez que terminava seus treinos com o equipamento estragado.

Reverência olímpica ao poder negro

 

Até que às quatro horas da manhã do dia 30 de outubro de 1974, Muhammad Ali saiu de seu vestiário e se dirigiu ao ringue montado no meio do gramado. Cerca de 100 mil congoleses espremidos gritavam: “Ali, bomaye! Ali, bomaye!”. Mas não demorou muito para o silêncio reinar no Tata Raphael Stadium quando, já no primeiro assalto, Foreman mostrou força, encurralou Ali nas cordas e passou a golpeá-lo sem piedade. A cena se repetiu nos rounds seguintes. Provocativo, Ali gritava: “Vamos lá, George! Me disseram que você tem a mão pesada”.

 

Ali aguentou firme a reação de Foreman até que, no quinto assalto, o mais jovem começou a demonstrar cansaço. De repente, Ali saiu das cordas e, pela primeira vez, passou a atacar sem dó. A estratégia de Ali deu certo. Conhecida como “rope-a-dope”, expressão que significa “dopado nas cordas”, a tática consistia em usar a elasticidade das cordas do ringue a seu favor para absorver os impactos de seu opositor.

 

Por fim, no oitavo assalto, um Foreman exausto, tentava atacar, mas só conseguia atingir o ar ou as luvas de Muhammad Ali. Faltando 12 segundos para o final do round, o campeão dos campeões iniciou uma sucessão de socos. O último deles acertou em cheio o queixo de Foreman que ainda tentou se agarrar a Ali, mas não havia mais o que fazer. Desabou no ringue para só se levantar anos depois por conta de uma grande depressão que quase custou sua carreira e a vida. Muhammad Ali era novamente, após dez anos, campeão mundial de pesos-pesados e o vencedor da mais espetacular luta de boxe já realizada na história.

 

 

Adaptado do texto “A lenda não morre”

Revista Leituras da História Ed. 95