A misteriosa morte da índia Lourença

A indígena Lourença viveu na Vila de Guarapuava durante o Brasil Colônia, foi citada em muitos artigos, teses e dissertações, apesar disso, não foi retratada pela sua vida, mas por sua morte, cujo assassinato poderia ser enredo de uma peça teatral, devido às condições conflituosas e ambíguas que marcaram o episódio

Por Marilda Cacum* e Rodrigo dos Santos** | Adaptação web Caroline Svitras

 

Entre os milhares de milhões de registros históricos disponíveis em cartórios espalhados por todo o País, os pesquisadores podem encontrar informações preciosas relacionadas aos indígenas brasileiros. Apontamentos aparentemente normais, que podem dar dicas e revelar histórias surpreendentes acerca destes personagens cujas trajetórias pessoais não foram registradas com um mínimo de respeito pelos escribas ditos oficiais.

 

Desde as primeiras interações dos colonizadores portugueses com os índios brasileiros muita coisa mudou ao longo do tempo, mas informações pessoais precisas são proporcionais ao lugar geográfico e o período da História em que viveram – quanto mais antigas, mais remotas e carentes de detalhes são.

 

Em meados de 2000, a pesquisadora Marilda Alves de Campos vasculhava os Arquivo da Diocese da Igreja Nossa Senhora de Belém, em Guarapuava-PR. Naqueles dias frios de inverno, ela buscava nos primeiros livros de batismos e óbitos, iniciados em 1809 pelo Vigário Francisco das Chagas Lima – conhecido simplesmente como Padre Chagas –, informações que preenchessem lacunas em um trabalho de genealogia indígena. Folheando os livros, um registro conciso lhe chamou a atenção: faleceo. A anotação fazia referência a uma indígena que fora assassinada, mas o apontamento da causa de sua morte não condizia com os costumes observados nos demais registros.

 

Manifestações culturais e corporais

 

Quem seria essa mulher? Por que motivo terminou morta? Quem fora seu algoz? Qual a importância e a motivação da menção “assassinada” no livro de obituário? As informações eram parcas: data da morte (3 de maio de 1856), nome (índia Lourença), sem sobrenome. Algum tempo se passou e essas perguntas permaneceram sem resposta, mas a inquietação acerca delas em nada diminuiu, até que um livro de batismo de 1819 trouxe outro elemento: o registro sobre uma índia denominada “Lourença”. Seria a mesma? Poderia haver duas índias com um mesmo nome? Uma busca no livro de casamentos foi elucidativa. Cruzando os dados e a idade, sim, era a mesma – nesse momento, além dos dados sobre a união, se descobriu a filiação.

 

 

Campos de Guarapuava

Em 1808, a família real portuguesa, fugindo de Napoleão Bonaparte, veio para a colônia, o Brasil. Ao aportar em terras brasileiras, o príncipe Regente João VI, com receio de uma invasão emitiu, no ano seguinte, duas cartas régias para desbravar os Campos de Guarapuava. Diante disso, organizou-se uma Real Expedição de Conquista e Povoamento. Tal agrupamento foi comandado por Diogo Pinto de Azevedo Portugal, além do Padre Chagas Lima. A Real Expedição chegou e fixou-se no que foi denominado de Forte Atalaia, na localidade de Trindade, entre os rios Lajeado Grande e Coutinho.

 

Pahy Engrayê – nome indígena do pai de Lourença – foi aprisionado no Aldeamento de Atalaia em 29 de janeiro de 1812, em companhia de sua primeira esposa, Coyan, e dois filhos do casal: Netxian (menino de quatro anos), e Gatán (menina de um ano e meio) – além de dois sobrinhos. No batismo Netxian recebeu o nome de Francisco; e Gatán, o nome de Bárbara.

 

Lendas urbanas de São Paulo

 

 

 

No ano de 1819, no Forte Atalaia, nasceu a segunda filha do Capitão Indígena Antonio José Pahy com a sua segunda esposa, Rita de Oliveira Faixó. A índia Lourença foi batizada em 16 de fevereiro de 1819, apenas sete dias, na Capela do Forte Atalaia, pelo Padre Chagas. Mesmo sendo de origem étnica Kaingang Votoron recebeu apenas o nome português de Lourença, mas sem adotar o sobrenome português de sua mãe, Oliveira. Mais tarde, escondida, em rituais indígenas, recebeu um nome de mato: Juquiá.

 

A família de Lourença viveu unida até 16 de abril de 1819 quando o pai faleceu. Antonio José Pahy deixou viúva Rita de Oliveira Faixó e seus filhos Francisco, com treze anos e meio; e Bárbara, de oito (do primeiro casamento); além de Margarida, de quatro anos; e Lourença, de quatro meses.

 

 

O assassinato

No ano da Independência do Brasil, em 1822, a população dita “branca” (com seus escravos) foi encaminhada para outra localidade pelo Padre Chagas e seu sobrinho Antonio da Rocha Loures. No aldeamento de Atalaia ficaram os mestiços, negros livres, degredados, alguns portugueses pobres e indígenas – incluindo Lourença e o que sobrou de sua família.

 

Matriz Nossa Senhora de Belém de Guarapuava

Após a transferência de parte da população, o Forte Atalaia foi atacado e destruído na madrugada de 25 para 26 de abril de 1825, pelos Dorins, inimigos de Luiz Tigre Gacon, que substituiu Pahy no cargo de Capitão de índios. No ataque, as habitações foram alvejadas por flechas incendiárias, a aldeia ficou em chamas. Neste episódio faleceram 28 indígenas e, entre os sobreviventes, encontravam-se a família de Lourença e de Salvador Ignácio de Oliveira. Salvador sobreviveu com sua esposa Rosa Cacúm, a enteada Ubaldina Maria e seus filhos. Dentre estes, José Ignácio de Oliveira, que casou com Lourença em 25 de outubro de 1834. Esses sujeitos foram realocados próximos à matriz Nossa Senhora de Belém de Guarapuava, futuramente sede do Município de Guarapuava.

 

Em 1828 o Padre Chagas adoeceu e retirou-se de Guarapuava para Santana de Parnaíba, São Paulo. Com isso, a mãe e o padrasto de Lourença retornaram à povoação – neste intervalo, a meia irmã de Lourença, Bárbara, viuvou e casou novamente em 1832, com o também viúvo Felisberto. Passados alguns anos, na noite de sábado do dia 3 para 4 de maio de 1856, na casa de Valentim Pereira de Oliveira, nos arredores da Vila de Guarapuava, ocorreu um fandango – uma dança popular, a três tempos e sapateada, herdada de Portugal, sendo comum nesse país e na Espanha.

 

Nesse fandango, o trágico aconteceu. Segundo o relato de testemunhas, o evento começou com desentendimentos entre a indígena Lourença Juquiá e a mulata Edvirgem Maria de Paula. Ambas possuíam parentesco e a filha de Lourença, Joaquina Maria de Souza, havia se casado anos antes, no dia 10 de maio de 1850, com Manoel Caetano de Oliveira, filho de Edvirgem.

 

A dança da morte

 

O conflito entre as duas não teve motivação aparente, possivelmente um mero desentendimento familiar. O relato, no processo, diz: “ocorreu um barulho (uma discussão) entre as duas. Na qual a mulata Edvirgem, em voz alta, ofendia Lourença dando-lhe uma tamancada na cabeça. Em seguida, Lourença cai no chão da sala no momento em que se apagou a luz.” Ao se acendê-las, ela já estava agonizando em razão de uma facada que recebera. Quem a matou? Edvirgem? Segundo o relato no processo, antes de falecer Lourença, por três vezes, afirmou que Manoel Maria a teria atacado.

 

O acusado, a quem a indígena supostamente se referiu, era soldado da Guarda Fixa da Província. Manoel Maria, solteiro, 22 anos, natural da Bahia, “preto”, analfabeto que acompanhava o Cadete Egas Muniz, teria se envolvido em uma briga com o companheiro Manoel João. A declaração de Edvirgem foi reforçada por um canivete encontrado debaixo da escada da casa de Valentim – a arma foi entregue às autoridades, no dia seguinte, fechada e ensanguentada.

 

O delegado encarregado do caso alegou dificuldades para apresentar um culpado pelo crime, em razão de ele ter ocorrido no escuro e sem testemunhas. Manoel Maria alegou inocência, mas foi condenado mesmo apelando da sentença para comutação do grau máximo para mínimo. O pedido foi negado por D. Pedro II, por meio do Ministro dos Negócios da Justiça e Desembargadoria do Tribunal com a determinação “cumpra-se”. O assassinato condenou Manoel Maria à sentença de galés perpétuas no grau máximo do artigo 193 do Código Criminal do Império de 1830 – no entanto, mais tarde, com a Proclamação da República, em novembro de 1889, ele foi libertado.

 

Manoel Maria foi mesmo o assassino de Lourença? Pelos dados disponíveis até o momento, não se sabe. Na manhã de 7 de maio, às 9 horas, as autoridades da Vila de Guarapuava procediam na casa de residência do subdelegado o exame de corpo delito no cadáver. Encontravam-se o subdelegado, o escrivão, peritos e testemunhas. Como testemunha o proprietário da casa, Valentim Pereira de Oliveira, e o comandante do destacamento, Cadete Egas Muniz. A comissão determinou a causa da morte proveniente das canivetadas recebidas na madrugada do fandango.

 

 

No mundo acadêmico a morte Lourença foi motivo de estudos, mas ela era apenas um dado estatístico, apenas mais uma indígena assassinada como tantas outras. Entretanto, analisar sua história é identificar os vários mundos em que ela transitou, reconstruindo-os de certa forma, e a identificando com nome, sobrenome e etnia: Lourença Maria de Oliveira Juquiá; Kaingang Votoron; nascida em 1819, no Aldeamento de Atalaia de Guarapuava; filha de Rita de Oliveira Faixó e Pá; casada com o mestiço José Inácio de Oliveira; assassinada aos 37 anos; em um fandango, na madrugada de 3 para 4 de maio de 1856. Lourença – ou a sua memória – continua viva nos Campos de Guarapuava, por meio dos muitos escritos que a historiografia produziu sobre ela.

 

 

*Marilda Alves de Campos também conhecida pelo pseudônimo Marilda Cacum, é graduada em História pela Universidade Estadual do Centro-Oeste (UNICENTRO) e uma das fundadoras do Instituto Histórico de Guarapuava. E-mail: marildacacum@hotmail.com
**Rodrigo dos Santos é graduado em História pela UNICENTRO, especialista em Educação do Campo (ESAP) e Docência no Ensino Superior (UNOPAR). Mestre em História pela UNICENTRO. Atualmente é Professor Substituto da Universidade Federal da Fronteira Sul – UFFS/Campus Laranjeiras do Sul. E-mail: digao_santos9@hotmail.com

Fotos e texto adaptados de “Uma indígena de vários mundos”

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