A opção pelos mais pobres

Perseguido e calado pela igreja Católica até renunciar às suas atividades de frade franciscano, o teólogo Leonardo Boff é hoje um dos principais conselheiros do Papa Francisco, defensor dos pobres e tem suas ideias centrais reproduzidas na encíclica Laudato Si

Por Robson Rodrigues | Foto: Getty Images/Mayela Lopez | Adaptação web Caroline Svitras

Teólogo, ambientalista e escritor, Leonardo Boff é uma das vozes mais ativas na atualidade. Conhecido pelos seus trabalhos sobre a Teologia da Libertação – corrente filosófica em que pensadores religiosos utilizam conceitos marxistas –, sua obra serviu de base para novas gerações de teólogos latino-americanos que enxergam o cristianismo como religião dos pobres, desterrados, perseguidos e oprimidos a convocarem os cristãos à luta pela emancipação social. Boff também é um entusiasta da questão ecológica e entende que não somente se deve ouvir o grito do oprimido mas também o grito da Terra e ambos devem ser libertados. Em razão deste compromisso participou da redação da Carta da Terra e da Encíclica do Papal.No campo da política, ele é um declarado defensor do Partido dos Trabalhadores e enxerga o processo de impeachment como um golpe de uma elite financiada pelos Estados Unidos.

 

Com mais de 60 livros publicados, Boff crê ser impossível desvencilhar a libertação pela fé da política e pagou um alto preço por isso. Ao combinar a Bíblia com a política, desagradou as autoridades eclesiásticas ao criticar a estrutura da Igreja no livro Igreja, Carisma e Poder (1981). Ele foi chamado a dar explicações ao Vaticano em 1984 na Congregação para a Doutrina da Fé – ex-Santo Ofício, onde séculos antes, a Santa Sé julgou Galileu Galilei – e condenado pelo severo cardeal Joseph Ratzinger, depois Papa Bento XVI, a um “silêncio obsequioso” por um ano e proibido de se manifestar publicamente.

 

Em 1992, o teólogo deixou a Ordem dos Frades Menores (os franciscanos) e pediu dispensa do sacerdócio. Desde então Boff se tornou um teórico da fé e prega a luta por uma sociedade mais justa e humana, na qual os pobres não devem aceitar a condição de miséria como algo natural, mas agir em favor da justiça social. “A teologia da libertação nasceu ouvindo o grito do oprimido. O eixo central dela é a opção pelos pobres, contra a pobreza e a favor da justiça social”.

 

A Teologia da Libertação foi amplamente reprimida pelos papas João Paulo II e Bento XVI | Foto: Alessia Giuliani

 

Tal teoria foi duramente reprimida por João Paulo II e Bento XVI. Entretanto, com o Papa Francisco à frente da Igreja a história é outra, Francisco é um pontífice que não vem da velha cristandade europeia. Para Boff, a Sua Santidade é livre de doutrinas castradoras e deve inclusive rever seu processo que ainda tramita no Vaticano. “Ele [o Papa Francisco] disse que quer fazer justiça a um teólogo que foi injustamente punido”.

 

A Teologia da Libertação é polêmica, mal compreendida e difamada, mas também saudada como a primeira produção teórica nascida na periferia do cristianismo, a América Latina, onde estão 62% dos cristãos. Só 24% estão na Europa e os demais na Ásia e na África, ou seja, o cristianismo é uma religião de Terceiro Mundo no atual contexto.

 

A celebre frase “a religião é o ópio do povo”, cunhada pelo pensador Karl Marx apareceu na obra Sobre a Crítica da Filosofia do Direito de Hegel (1844) e é considerada como a quintessência da concepção marxista do fenômeno religioso pela maioria de seus partidários e oponentes. Talvez por isso a emergência do cristianismo revolucionário e da teologia da libertação, em especial na América Latina, abriu um capítulo histórico e elevou novas questões que não podem ser respondidas sem uma renovação da análise marxista da religião. Leia a entrevista.

 

Leituras da História – O senhor é um dos precursores da Teologia da Libertação. Gostaria que fizesse uma avaliação do movimento no Brasil.

Leonardo Boff: A Teologia da Libertação nasceu ouvindo o grito do oprimido. O eixo central dela é a opção pelos pobres, contra a pobreza e a favor da justiça social. Hoje nós entendemos que dentro da opção pelos pobres, cabe o grande pobre, que é o Planeta Terra, crucificado, devastado, então temos que libertar também a Terra. Essa teologia é extremamente importante por dois sentidos: os pobres e oprimidos aumentaram depois da crise de 2007 e 2008, então temos que libertá-los e a degradação ecológica se tornou mais grave ameaçando o Planeta Terra. Temos que ter estratégias não de salvar a Terra, porque ela vai adiante, mas salvar a vida na Terra. Podemos destruir a vida e a Terra ir adiante, mas sem nós. Daí a preocupação dessa teologia, Ecoteologia da Libertação, unir como diz o Papa na Encíclica, o grito do pobre com o grito da Terra e essa união faz o verdadeiro discurso ecológico com o integrado.

 

LH – A campanha da fraternidade deste ano tem como tema a sustentabilidade e o saneamento básico. O senhor acha que as instituições religiosas influenciam no tema?

LB – A sustentabilidade é um valor e as religiões procuram difundir seus valores. Qual o valor da sustentabilidade? É ter uma relação com as coisas, com a natureza de forma que elas possam ser preservadas, que possam se autorreproduzir e possam continuar fortes para nós e para as futuras gerações. A sustentabilidade invade todos os espaços, não só a economia, mas também a democracia, um sistema de educação sustentável, uma sociedade que não tenha tantos pobres, mas que tenha equilíbrio. As religiões favorecem um equilíbrio que é suposto no conceito de sustentabilidade e esse equilíbrio é um valor fundamental ético, porque toda ética se funda na justa medida, no equilíbrio entre o mais e o menos, no caminho do centro.

 

O filósofo Leonardo Boff é condecorado pelo presidente da República Dominicana, Danilo Medina, por sua contribuição ao desenvolvimento sustentável na América Latina e Caribe | Foto: Ángel Álvarez Acosta/Presidencia República Dominicana

 

LH – Como o senhor define o Papa Francisco?

LB – Como a maior liderança mundial hoje. Em política porque prega a paz, diálogo, o encontro das culturas e das pessoas; e também é o maior líder religioso, porque prega a união das religiões, que superou a arrogância católica de ter a exclusividade de ser a única igreja de cristo. Para ele, o importante é unir as igrejas, que elas se reconheçam mutuamente, que os caminhos espirituais, religiões e igrejas façam uma aliança para servir a um objetivo comum: salvar o Planeta Terra e salvar a civilização, permitindo a continuidade de vida.

 

Confira a entrevista na íntegra na revista Leituras da História Ed. 95. Garanta a sua!

Adaptado do texto “A opção pelos mais pobres”