A paz entre a Colômbia e as FARC

Depois de quatro anos de duras negociações, finalmente foi assinada a conciliação entre as Farc, grupo guerrilheiro mais antigo da América Latina, e o governo colombiano, para um cessar-fogo imediato e duradouro. mas, para surpresa geral, a sociedade rejeitou o acordo de paz

Por Rose Mercatelli | Foto: Christian Escobar Mora | Adaptação web Caroline Svitras

 

“Ordeno a todos os nossos comandos, a todas as nossas unidades, a todos e a cada um dos nossos combatentes, a cessar o fogo e as hostilidades de forma definitiva contra o Estado colombiano a partir das 24 horas da noite de hoje, 28 de agosto de 2016”, declarou à imprensa em Havana, Cuba, Rodrigo Londoño Echeverri, líder das Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia (Farc), também conhecido por seu nome de guerra Timoleón Jiménez ou Timochenko.

 

Depois de 52 anos de luta contra o exército colombiano, Londoño, comandante do grupo guerrilheiro que se refugia nas selvas e nas montanhas da Colômbia, após a assinatura do tratado decretou um cessar-fogo definitivo em um histórico acordo de paz junto com o presidente colombiano Juan Manuel Santos. O armistício ocorreu após quatro anos de negociações em Havana, Cuba, e teve como seu principal articulador o presidente cubano Raul Castro. Além de Cuba, as conversações de paz também foram mediadas por países como Noruega, Venezuela e Chile.

 

Cerimônia de assinatura do acordo de cessar-fogo entre o Governo colombiano e as FARC em Havana, Cuba, 23 de Junho de 2016. À esquerda, Juan Manuel Santos, no centro Raúl Castro (presidente de Cuba) e à direita Timoleon Jimenez | Foto: Xinhua / Str

 

Mais de 2.500 convidados compareceram à cerimônia. Além do mediador Raul Castro, estavam presentes outros catorze chefes de estado, o chefe da diplomacia americana, John Kerry, o então secretário-geral da ONU, Ban Kimoon, o rei emérito da Espanha, Juan Carlos, entre vários outros representantes de organismos internacionais. O ministro das Relações Exteriores do Brasil, José Serra, também participou da cerimônia.

 

Em mais de meio século de existência, a guerrilha passou por quatro grandes campanhas militares de 12 governos diferentes. O conflito armado mais longo da história da América Latina, protagonizado entre guerrilheiros, paramilitares e agentes do Estado deixou um tenebroso saldo de 260 mil mortos, 45 mil desaparecidos e 6,9 milhões de deslocados em meio século de conflito.

 

 

A Colômbia diz não!

No último ano, os guerrilheiros das Farc tentaram se abrir para o mundo, mostraram sinais de arrependimento de seus atos e mudaram seu discurso político, mas a desconfiança, depois de 52 anos de guerra, continua no coração e na mente dos colombianos. Quem parece não ter acreditado na rejeição às FARC foi o presidente Juan Manuel Santos, surpreendido com o resultado do plebiscito ocorrido em 3 de outubro último. O resultado, contrário ao que indicavam as pesquisas de opinião, mostrou a recusa da sociedade ao tratado de paz negociado entre o governo colombiano e o líder guerrilheiro Timochenko.

 

A negativa mostra o quanto os colombianos estão divididos. Ao que tudo indica, o acordo de paz parecia contar com mais entusiasmo internacional do que entre os próprios colombianos. Tanto é que menos de 40% da população se deu ao trabalho de sair de casa em um domingo chuvoso para ir votar. Porém, a abstenção de mais 60% foi tão decisiva para o resultado quanto os 50,8% dos votos contra o pacto. “A população dos grandes centros urbanos, que foi a principal vítima da guerrilha, não aceitou o acordo da forma proposta e exige que haja um aperfeiçoamento que melhor atenda às suas propostas e das vítimas em geral”, afirma Francisco Américo Cassano, pesquisador e professor de Relações e Negócios Internacionais da Universidade Presbiteriana Mackenzie.

 

 

A luta pelo não

A campanha contra o acordo teve a participação do ex-presidente Álvaro Uribe que, entre outros motivos, criticava a anistia dada aos guerrilheiros das Farc. Em um protesto antes do referendo, em seu discurso, Uribe afirmou: “Os americanos não dariam impunidade a Osama bin Laden, nem os franceses teriam deixado impune o Estado Islâmico. Por que os colombianos têm que dar impunidade aos terroristas que atingiram tanto a Colômbia?”.

 

Farc é considerada a maior, mais capacitada, melhor equipada e antiga de todas as organizações guerrilheiras que surgiram na América Latina na década de 1960 | Foto: Fabio Cuttica/Al Jazeera

 

Para o ex-presidente, existem duas principais razões para a rejeição à proposta de paz. A primeira diz respeito às punições previstas para os guerrilheiros por seus crimes, as quais foram consideradas muito brandas por Uribe. Segundo o acordo só seriam julgados os que cometeram crimes contra a humanidade, como assassinato, tortura, sequestro e estupro. Mesmo esses, se confessassem seus delitos, receberiam uma pena de 5 a 8 anos de liberdade vigiada. Ou seja, não iriam para prisões comuns. Este parece ter sido o motivo principal à rejeição ao acordo. A maioria dos colombianos, mesmo entre os que apoiavam o sim, não via essa cláusula com bons olhos depois de toda a matança causada pela guerra entre as duas partes.

 

O segundo motivo de crítica é a permissão dada aos membros das Farc, principalmente aos líderes, de atuarem na política. Durante as negociações, os guerrilheiros deixaram claro sua intenção de transformar o grupo guerrilheiro em partido político. Já os críticos ao acordo exigem que os chefes, responsáveis por diversos crimes durante a guerra, fiquem inelegíveis. Para o professor Francisco Américo Cassano, o pacto entre governo e as Farc precisa ser revisto: “O acordo de paz foi uma ação de grande repercussão mundial, tanto que rendeu o Nobel da Paz ao presidente colombiano, mas foi muito mal negociado. Talvez pela pressa de se obter o acordo antes do final do mandato, vários e importantes detalhes deixaram de constar ou foram abordados de forma superficial”, diz o pesquisador.

 

 

Destino incerto

Por seu lado, o comandante das Farc, Timoléon Jiménez declarou à imprensa espanhola que “a paz com dignidade chegou para ficar” e que seus comandados vão cumprir a ordem do cessar-fogo definitivamente. Porém, ao mesmo tempo afirmou em Havana, no dia 6 de outubro, que rejeita qualquer revisão no acordo de paz firmado, ainda que o resultado do plebiscito tenha sido um não ao tratado. Para Timochenko, a consulta à população colombiana é meramente um ato político, não tem nenhum efeito jurídico.

 

Enquanto isso, o presidente Santos e seu opositor, o senador Uribe, já participaram de encontros na tentativa de resolver as diferenças relacionadas ao acordo com os rebeldes das Farc. Os dois declaram-se dispostos a buscar um fim para a guerra de 52 anos. O atual presidente se mostra disposto a tentar  algumas modificações, ainda que tenha declarado que não haveria plano B e que o acordo assinado era definitivo. Já o senador Uribe não apresentou nenhuma proposta realmente concreta para sair do impasse.

 

Membros das FARC explicam sobre os acordos de negociação | Foto: Fabio Cuttica/Al Jazeera

 

Enquanto isso, o futuro e a perspectiva de uma paz duradoura permanecem numa espécie de limbo, sobre o qual políticos e analistas não sabem exatamente como e quando vai terminar: “Embora o acordo tenha sido rejeitado pela população, o diálogo deverá ser retomado a fim de se revisar algumas questões como a ampliação das penas que serão impostas  aos guerrilheiros que cometeram crimes contra a humanidade. Deverá acontecer também a escolha de local mais isento para servir de fórum das negociações. Isso porque Cuba teve enorme influência na organização, treinamento e manutenção das Farc e deve ser desconsiderada. Outro ponto que deverá ser revisto é uma melhor apuração dos bens disponíveis pelas Farc para pagamento das indenizações às vítimas”, pondera o professor de Relações e Negócios Internacionais da Universidade Presbiteriana Mackenzie Francisco Américo Cassano.

 

 

Forças de oposição

O cenário de guerra na selva colombiana existe desde que o primeiro nativo foi derrubado pela espada do conquistador espanhol no século 16. E até hoje os colombianos assistem a uma sucessão de mais de 500 anos de batalhas, guerras e guerrilhas fratricidas. Porém, independente do período histórico, entre todos os grupos que se colocaram contra o poder estabelecido, sem dúvida as Farc – EP (Forças Armadas Revolucionárias da  Colômbia – Exército do Povo) é considerado a maior, mais capacitada, melhor equipada e antiga de todas as organizações guerrilheiras que surgiram na América Latina na década de 1960. O grupo guerrilheiro que manteve  sob seu controle grande parte das áreas rurais do país surgiu em 1964 como uma espécie de facção do Partido Comunista. Porém foi só em 1982, durante a realização da Conferência da Sétima Guerrilha, que a denominação Exército do Povo (EP) foi adicionada ao seu nome oficial.

 

Classificada como um grupo terrorista pela ONU, seus fundadores, porém, definiram as Farc como uma organização político-militar marxista-leninista de inspiração bolivariana, que representa a população rural contra as classes abastadas do país. Ao mesmo tempo, queriam acabar também com a influência do EUA na Colômbia.

 

Uma frente das FARC em um acampamento no sul da Colômbia | Foto: Camilo Rozo

 

Por isso, o objetivo principal do grupo era promover a revolução social que imporia uma nova ordem política em detrimento das antigas oligarquias que dominavam a Colômbia. A mesma motivação levou à luta armada outros grupos latino-americanos como o Sendero Luminoso peruano. No Brasil, os dirigentes das Ligas Camponesas, de Francisco Julião, planejaram organizar a população rural para a chamada “aliança operário-camponesa”, tida como imprescindível para a sonhada Revolução Socialista no Brasil, aos moldes do que aconteceu na China de Mao-Tse-Tung e na Rússia em 1917.

 

 

Um mundo dividido

Muitos historiadores acreditam que os grupos de esquerda latino-americanos surgiram inspirados na bipolaridade instalada no planeta depois da 2ª Guerra Mundial. O conflito de interesses entre os blocos capitalista, representado pelos Estados Unidos, e o comunista, com seu epicentro na ex-União Soviética, dava a entender que o mundo encontrava-se em uma bifurcação composta por dois caminhos distintos.

 

Na década de 1960, o alinhamento ideológico dos países latino-americanos junto aos EUA começou a sofrer grandes resistências com a formação de grupos políticos comunistas e nacionalistas.

 

A oposição ao domínio americano chegou a tal ponto que a única estratégia encontrada para conter as manifestações divergentes foi a instalação de ditaduras militares, a exemplo do que aconteceu no Brasil com a Revolução de 1964. Em alguns casos, os movimentos guerrilheiros, notoriamente inspirados na revolução cubana comandada por Fidel Castro, foram as principais vias de mobilização popular que poderiam se opor às forças políticas nacionais instaladas no poder. Entre todas as ações guerrilheiras, a mais famosa com certeza foi a promovida pela guerrilha colombiana.

 

Integrantes estudam matemática e gramática, muitos chegam antes da maioridade e de completarem os estudos | Foto: Fabio Cuttica/Al Jazeera

 

Para Eduardo Pizarro, professor de Ciências Políticas da Universidade Nacional da Colômbia e pesquisador do Instituto de Estudos Políticos e Relações Internacionais (IEPRI), o surgimento das Farc se deu como resultado das brutais operações militares contra as regiões rurais que serviam de refúgio para os guerrilheiros. Segundo o historiador, os primeiros grupos de defesa começaram a se formar em 1949, quando as lideranças comunistas colombianas emitiram uma convocação para “que se organizassem a autodefesa em todas as regiões rurais ameaçadas por ataques das forças reacionárias”.

 

Em 1961, o líder conservador Alvaro Gomez Hurtado, em um inflamado discurso no Congresso colombiano, denunciou a existência de 16 “repúblicas independentes”, como as regiões rurais de Marquetalia, Riochiquito, El Pato, Guayabero, Sumapaz, entre outras, que se encontravam fora do controle do estado. Mediante a forte pressão exercida pelos conservadores, o presidente Guillermo Leon Valencia tomou a decisão de exterminar os redutos comunistas. Como resultado do violento ataque militar, as milícias paramilitares comunistas foram se transformando em guerrilhas móveis, criando inicialmente a chamada Frente Sul, para, dois anos depois, em 1964, surgirem definitivamente como Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia.

 

A refém mais famosa

A então senadora mais votada da Colômbia Ingrid Betancourt estava em campanha para a presidência da república quando foi capturada pelas Farc em fevereiro de 2002. De nacionalidade francesa e colombiana, seu sequestro chamou a atenção das autoridades francesas e, por isso, sua libertação se transformou em uma causa mundial. Na época, o chanceler francês Dominique de Villepin, amigo de Ingrid, empenhou-se pessoalmente por sua libertação. A União Europeia incluiu as Farc na lista das organizações terroristas, enquanto o papa João Paulo II fez apelos por sua vida.

 

Mais de um ano após ser libertada pelo Exército colombiano depois de passar 2321 dias em cativeiro, Ingrid Betancourt começou a escrever seu livro Não Há Silêncio que Não Termine – Meus Anos de Cativeiro na Selva Colombiana. Nele, Ingrid relata todo o horror, a brutalidade, a tortura e selvageria praticada pelos guerrilheiros das Farc não apenas contra ela, mas também contra seus companheiros de cativeiro.

 

Ingrid Betancourt, Senadora colombiana, foi sequestrada pelas FARC em 2002. Ela ficou sob cativeiro até julho de 2008 | Foto: AP Photo/Colombia’s Presidency

 

No cativeiro, os reféns eram alimentados à base de farinha, feijoca (semente de uma flor encontrada nas montanhas da América Central e do Sul), água e açúcar. Às vezes podiam caminhar pelos acampamentos. Em outras, ficavam acorrentados pelo pescoço em um tronco de árvore. Dormiam amontoados em cubículos, levavam coronhadas nas costas a torto e a direito, eram jogados na lama e impedidos de se limpar e proibidos de conversarem entre si. Tinham de pedir licença até para fazer suas necessidades fisiológicas. Doentes, muitos não recebiam atendimento nem remédio.

 

 

Planos extremos

Desde o início de seu cativeiro, a obsessão de Ingrid era fugir. Mas para isso, ela precisava aprender a sobreviver sozinha na selva. Antes de uma das diversas fugas que tentou, bebia água barrenta de um rio para testar se sobreviveria aos parasitas quando fugisse. Calculava tudo; a hora das tempestades intensas no meio da selva, a troca da guarda entre os guerrilheiros, e quando deveria saltar do meio da trilha e sumir no lusco-fusco na floresta. Colecionava restos de embalagem de isopor para remédios com a intenção de fabricar uma boia e não precisar nadar o tempo inteiro. Calculava também onde deveria se posicionar dentro da água. Nas margens, ela sabia, se tornaria uma presa fácil dos jacarés.

 

Para abrir caminhos na mata, roubava facões dos guerrilheiros e escolhia com cuidado seu lugar para dormir. Numa ocasião, a chuva inundou onde ela dormia e, presa entre as ramagens, quase morreu afogada. Em uma de suas escapadas, viu a noite cair na mata e, paralisada de medo, sentiu o focinho  e uma onça-pintada farejando-lhe as pernas. Depois de recapturada, Ingrid sofria todo tipo de punição. Ficava acorrentada pelo pescoço e passava meses sem poder falar com qualquer outro refém.

 

Considerada uma heroína pelo povo colombiano, Ingrid teve sua dignidade manchada depois que outros reféns lançaram suas próprias biografias. Clara Rojas, sua assistente durante a campanha à presidência e que foi feita refém junto com Ingrid, saiu do cativeiro antes de Ingrid como sua inimiga. Depois de engravidar de um guerrilheiro e dar à luz a um menino, Clara culpa sua ex-amiga por considerá-la responsável pela separação de seu bebê, o qual veio a encontrar cinco anos depois. Em seu livro, Betancourt relata que em alguns momentos achou que Clara tivesse enlouquecido e conta que a sua gravidez foi voluntária.

 

Ingrid ao lado da mãe e do então ministro da Defesa e hoje presidente, Juan Manuel Santos | Foto: AP

 

As críticas mais severas a Ingrid, entretanto apareceram no livro Out of Captivity (Fora do Cativeiro), escrito por três reféns americanos, que prestavam serviços de natureza militar na Colômbia. Capturados depois de Ingrid e Clara, também passaram mais de cinco anos com as Farc e foram libertados na mesma operação do Exército colombiano. Em sua biografia, os americanos descrevem Ingrid como arrogante e egoísta. Além de não dividir com os companheiros as notícias que ouvia escondida em seu rádio ainda os acusava de serem agentes da CIA.

 

Com outro refém americano, Marc Gonsalves, Ingrid mantém contato diário até hoje. Os dois se tornaram muito próximos, mas, conforme o relato de ambos, não passou disso. Em seu livro, Gonsalves define Ingrid como uma personalidade complexa, capaz de oscilar, sem medidas, entre o egoísmo e a compaixão. Em seu livro, Gonsalves escreve: “A Ingrid bem-sucedida, carismática e ambiciosa que eu conhecia e tanto respeitava parecia coexistir, lado a lado, com a Ingrid orgulhosa, arrogante e insegura da qual eu tinha pena”.

 

 

Libertação cinematográfica

O dia 2 de julho de 2008 ficará marcado na história colombiana como o dia em que o mundo ficou sabendo da espetacular operação Jaque (xeque-mate), comandada pelo atual presidente Juan Manuel Santos, então Ministro da Defesa, que libertou 15 prisioneiros das Farc, dentre eles Ingrid Betancourt, três norte-americanos e 11 soldados colombianos. Sem que fosse dado um tiro nem produzido qualquer outro tipo de violência, um fato sem precedente na história do conflito, a operação ficou marcada pela audácia, precisão e extremo profissionalismo do serviço de Inteligência das Forças Armadas e Policiais que enganaram os comandantes das FARC numa ação só imaginável em filmes de espionagem.

 

Depois do resgate bem-sucedido, Juan Manuel Santos declarou que o Exército da Colômbia se infiltrou na cúpula das Farc para libertar os quinze sequestrados, enganando dois rebeldes e fazendo com que todos, guerrilheiros e reféns, acreditassem que teriam um encontro com o chefe máximo das Farc, Alfonso Cano.

 

Ingrid e outros 15 reféns foram libertados no dia 2 julho de 2008 | Foto: Cambio photograph

 

Ainda segundo o então Ministro da Defesa, os militares infiltrados haviam feito um acordo com o comandante guerrilheiro César para supostamente levar os cativos de helicóptero até o lugar onde estaria Cano, que tinha substituído Manuel Marulanda, o Tirofijo, fundador do grupo, depois de sua morte. Os dois guerrilheiros que tomavam conta dos reféns foram presos. Ainda de acordo com o atual presidente colombiano, os planos começaram a ser traçados depois das informações passadas pelo policial John Frank Pinchao a partir de sua fuga em 2007, após nove anos de cativeiro. Em janeiro de 2008, com a libertação de Clara Rojas, os militares obtiveram mais dados que, somados às imagens de satélite, ajudaram o pessoal de Inteligência a iniciar a montagem do quebra-cabeças. Por meio de um documento, elaborado pela Chefatura de Operações Especiais Conjuntas (JOEC, na sigla em espanhol), os comandantes encarregados da operação ficaram sabendo de todos os detalhes sobre os possíveis locais onde os reféns se encontravam, como se daria o cerco e até fotos dos helicópteros utilizados no resgate.

 

De acordo com as declarações de Ingrid Betancourt depois de liberta, os militares que se fizeram passar por guerrilheiros se disfarçaram de tal maneira que vários usavam camisetas com imagem de Ernesto Che Guevara. “Eles falavam como guerrilheiros e se vestiam como tal”. Segundo Ingrid, nenhum refém suspeitou da operação, e que só se deram conta de que foram resgatados quando um dos supostos guerrilheiros gritou: “somos o Exército da Colômbia, vocês estão livres.”

 

 

Adaptado do texto “Farc: Paz ameaçada?”

Revista Leituras da História Ed. 87