A polêmica renúncia de Bento XVI

A notícia da renúncia de Bento XVI pegou de surpresa mais de 1 bilhão de católicos no mundo inteiro. Com sua atitude, o papa poderá ter desencadeado uma revolução no alto comando da Igreja como nunca foi visto em 2 mil anos de história

Por Rose Mercatelli | Fotos: Divulgação | Adaptação web Caroline Svitras

No dia 11 de fevereiro de 2013, durante uma reunião do conselho de cardeais, Bento XVI fez um pronunciamento que, em um primeiro momento, provocou abalos na Igreja Católica. Em seus mais de 2 mil anos de existência, a maior religião do planeta em número de fiéis já atravessou por períodos de crises e guerras, mas sempre com firmeza e uma razoável dose de serenidade.

 

Sem alterar a voz e falando em latim, língua oficial da Igreja Católica, Bento XVI anunciou: “Queridos irmãos, convoquei vocês para comunicar uma decisão de grande importância para a vida da Igreja. Depois de ter repetidamente reexaminado minha consciência perante Deus, cheguei à certeza de que minhas forças, devido à minha idade avançada, não são mais adequadas para o exercício do ministério de Pedro.”

 

Como justificativa, o papa afirmou que, no mundo atual, é preciso muito vigor e energia de corpo e espírito para acompanhar as rápidas mudanças e que ele não se sentia forte o suficiente para cumprir o trabalho que lhe foi confiado quando foi eleito, em 19 de abril de 2005. Apesar da surpresa, o porta-voz do Vaticano, Federico Lombardi, afirmou que os papas têm o direito e até o dever de renunciar nesses casos e que a decisão de Bento XVI foi de “extrema coragem”.

 

Explicações sob suspeita
Papa Bento XVI: cansaço evidente

Passados o susto e o choque, surgiram inúmeras especulações e versões sobre a verdadeira razão da renúncia. “Acredito que o motivo oficial anunciado de não ter mais forças suficientes para conduzir uma tarefa de tal envergadura seja real. Porém, acho também que outros fatores foram levados em conta quando o papa tomou sua decisão. Renunciar ao papado não é realmente um ato usual, daí a surpresa. Mas pelo Direito Canônico é perfeitamente legal”, resume Ney de Souza, professor de História da Igreja Contemporânea da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo e doutor em História Eclesiástica pela Pontifícia Universidade Gregoriana, em Roma.

 

O professor de Teologia Antonio Manzatto, da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo, também acredita que Bento XVI foi levado à renúncia por motivos pessoais, ainda que também não descarte a hipótese de que alguns acontecimentos tenham influenciado sua decisão: “Joseph Ratzinger é um estudioso, um teólogo erudito, mais voltado aos livros e à meditação, não muito afeito a lidar com questões políticas, financeiras e administrativas inerentes ao cargo para o qual foi eleito. Pode ser, sim, que estivesse cansado de lutar contra questões tão complexas.”

 

Passagens profanas

O período de Bento XVI no comando foi marcado por várias denúncias que podem ter sido transformadas, ao longo do tempo, em motivos para a sua renúncia. A primeira estaria ligada a um dos escândalos que mais atingiu a imagem da Igreja Católica, quando, em 2010, padres das igrejas da Irlanda, Alemanha, Áustria, Bélgica e Estados Unidos foram acusados de milhares de casos de pedofilia.

 

Ao que tudo indica, Bento XVI tentou por todas as maneiras dar um basta ao abuso de crianças e adolescentes. Sua disposição em enfrentar o problema ficou clara quando escreveu uma carta pastoral aos católicos da Irlanda, conclamando-os a reagir e censurando publicamente os bispos que acobertaram os pedófilos. Porém, o corporativismo do clero falou mais alto. Autoridades da Igreja em vários países se fizeram de surdos aos apelos do papa, que se viu abandonado por seus pares, e pouco pôde fazer no combate à pedofilia, que era tido como um dos pontos principais de seu pontificado.

 

Escândalos financeiros
Roberto Calvi, presidente do Banco Ambrosiano

O outro motivo não foi de ordem doutrinária, mas financeira, e tem a ver com notícias sobre contas maquiadas e o uso pouco transparente do dinheiro do Banco do Vaticano. Esse escândalo, assim como os casos de pedofilia, Bento também recebeu como herança de seu antecessor João Paulo II.

 

Em setembro de 2009, Ratzinger nomeou o banqueiro Ettore Gotti Tedeschi para o posto de presidente do Instituto de Obras Religiosas (IOR), com o objetivo de colocar em ordem as finanças do Vaticano. Em 2010, a justiça italiana abriu uma investigação sobre o banco e bloqueou 23 milhões de euros de suas contas por suspeita de lavagem de dinheiro. O banqueiro só permaneceu três anos à frente do IOR até ser demitido, em 2012, “por irregularidades em sua gestão e desentendimentos com a Cúria”.

 

Segundo notícias veiculadas em jornais do mundo inteiro, quando assumiu, Tedeschi começou a elaborar um dossiê no qual registrou contas secretas onde se escondia dinheiro sujo de políticos, intermediários, construtores e altos funcionários do Estado. Até Matteo Messina Denaro, o novo chefe da mafiosa Cosa Nostra, aparentemente guardava seu dinheiro no IOR por meio de laranjas.

 

Cadáver na ponte

As denúncias de crimes financeiros graves aparecem nos noticiários desde o fim dos anos 80, quando a justiça italiana emitiu uma ordem de prisão contra o então presidente do IOR, o arcebispo norte-americano Paul Marcinkus, na época o maior responsável pelos investimentos da Santa Sé.

 

Com o argumento da soberania territorial do Vaticano, João Paulo II evitou que o “banqueiro de Deus”, como Marcinkus era chamado, fosse preso. Para piorar o caso, em 18 de junho de 1982, um cadáver enforcado na ponte de Blackfriars, em Londres, veio assombrar ainda mais a história. O corpo em questão era de Roberto Calvi, presidente do Banco Ambrosiano, uma das principais instituições financeiras católicas da década de 80. O suposto suicídio de Calvi expôs uma imensa rede de corrupção que incluía, além do Banco Ambrosiano, a loja maçônica Propaganda Due (P2) e o próprio IOR de Marcinkus.

 

Rede de intrigas
Ettore Gotti Tedeschi, ex-presidente
do IOR

Como se não bastasse, no início de 2012, um canal de televisão italiano divulgou cartas enviadas a Bento XVI pelo núncio nos EUA, Carlo Maria Vigano, nas quais o cardeal denunciava a “corrupção, má-fé e má gestão” na administração do Vaticano. A divulgação revelou a existência de roubo e vazamento de documentos confidenciais da Santa Sé.

 

Coincidência ou não, Tedeschi saiu do banco poucas horas depois da detenção de Paolo Gabriele, mordomo do papa acusado do roubo de documentos secretos. A destituição do banqueiro amigo de Bento parece ser mais um lance na disputa de poder que ocorre entre os muros do Vaticano, o que o tornou vítima de um complô armado por conselheiros do banco com o aval do secretário de Estado, Tarcisio Bertone. O prelado é responsável pela comissão de cardeais que fiscaliza o funcionamento do banco e inimigo pessoal de Tedeschi.

 

Existem especulações de que o roubo dos documentos e a queda de Tedeschi façam parte do mesmo enredo o qual parece levar, direta e indiretamente, ao todo-poderoso Bertone. Durante as investigações sobre o vazamento dos documentos secretos, também foi detido o italiano Claudio Sciarpelletti, amigo do mordomo do papa.

 

Ainda que o porta-voz do Vaticano, Frederico Lombardi, tenha afirmado que Sciarpelletti não tenha nada a ver com o VatiLeaks, como ficou conhecido o vazamento de documentos confidenciais da Santa Sé, paira a suspeita da ligação do caso com o cardeal Bertone, na medida em que Sciarpelletti era técnico de informática da Secretaria do Estado e seu funcionário direto.

 

O motivo final

Havia mais de dois anos o papa vinha acalentando a ideia da renúncia, especulam os estudiosos dos assuntos do Vaticano. Um indício desse desejo papal, que na época não despertou a atenção, aconteceu na visita à região de L’Aquila, atingida por um terremoto em 2009. Na ocasião, o papa visitou na cidade a Basílica de Santa Maria di Collemaggio, onde se encontra o túmulo de Celestino V, o papa que há quase oito séculos criou a lei que permite a renúncia. No ano seguinte, Bento fez orações na Catedral de Sulmona, que guarda as relíquias de Celestino.

 

Papa Celestino V

Porém, um fato gravíssimo publicado pelo jornal italiano La Repubblica no dia 21 de fevereiro parece ter sido a gota d´água que fez transbordar as angústias de Bento. O responsável pela tomada final de decisão foi um dossiê de capa vermelha, em dois volumes, com o resultado de uma investigação encomendada pelo próprio papa a três cardeais de sua confiança.

 

De acordo com o jornal, o parecer, que teria sido entregue ao papa no dia 17 de dezembro de 2012, traz informações detalhadas de uma extensa rede de prostituição homossexual envolvendo seminaristas e imigrantes irregulares para servir ao alto escalão da Igreja. Os encontros teriam ocorrido em diversos locais de Roma e até mesmo na casa de um arcebispo italiano.

 

Segundo a publicação, no relatório, aparece o nome de Marco Simeon, um protegido do secretário do Estado Tarcisio Bertone. Simeon já tinha sido investigado sobre a corrupção entre os muros da Santa Sé e também foi citado no caso da demissão de Ettore Tedeschi, ex-presidente do Banco do Vaticano que tentou limpar o IOR sem sucesso.

 

As meias palavras do papa

Em sua primeira aparição pública desde o comunicado da renúncia, Bento XVI condenou a divisão na Igreja Católica e a hipocrisia religiosa, o que fortaleceu os rumores de que as lutas de poder no Vaticano influenciaram a decisão.

 

Papa João Paulo II

 

Na missa da abertura da Quaresma, Bento XVI também propôs que as rivalidades sejam superadas. Suas palavras parecem sugerir que o embate que existe entre o cardeal Tarcisio Bertone e seu antecessor no cargo, o decano Angelo Sodano, é real e não apenas fofocas palacianas. Nos dias que sucederam ao anúncio da desistência do papado, os dois divergiram, por exemplo, sobre a nomeação do presidente do Banco do Vaticano.

 

Soldano preferiria que o novo presidente fosse nomeado pelo próximo papa. Já Bertone defendia a tese que Bento XVI deveria fazer a nomeação. Sua preferência recaía sobre o nome do banqueiro belga Bernard De Corte, um completo desconhecido no ninho do Vaticano. A vontade de Bertone saiu vitoriosa, mas não exatamente do jeito que ele queria. No dia 15 de fevereiro, foi anunciada a nomeação do banqueiro Ernst von Freyberg. O alemão não tem nenhuma ligação com a comissão cardinalícia que administra o banco.

 

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Revista Leituras da História Ed. 59

Adaptado do texto “Fé, poder e uma rede de intrigas”